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A arquitetura ao serviço do grande ecrã

Texto: NUNO GALOPIM, em Berlim

Uma magnífica exposição dedicada ao trabalho de ‘art direction’ de Ken Adams em filmes da série 007 e junto de realizadores como Stanley Kubrick ou Bernardo Bertolucci está patente na Cinemateca Alemã, em Berlim.

Estão a imaginar a grande sala de reuniões no Dr. Estranhoamor de Stanley Kubrick? Ou o gigantesco complexo espacial em You Only Live Twice, um dos clássicos da série James Bond? Ou a sala de energia nuclear em Dr. No, uma vez mais em terreno 007?… Há um nome que os liga. Chama-se Ken Adams e parte da sua obra, que cruza uma aprendizagem em arquitectura em favor de imagens no cinema.

A arquitetura não mora de facto nos filmes apenas quando é tema central de narrativas como as de A Vontade Indómita de King Vidor ou The Belly of An Architect, de Peter Greenaway. As visões que Ken Adams levou aos mais de 70 filmes em que colaborou como art director são talvez uma das mais expressivas manifestações de como o cinema tem sido um espaço de criação não apenas nas áreas da escrita, fotografia, música ou interpretação, mas também da arquitetura. Entre os mais de quatro mil desenhos que fazem o acervo da obra de Ken Adams surgiu a seleção que representa grande parte dos conteúdos que agora fazem parte de Ken Adams’ Film Design – Bigger Than Life, exposição patente até 17 de maio entre algumas salas da Cinemateca Alemã, em Berlim.

De origem alemã – e berço inclusivamente em Berlim em 1921 – Ken Adams e família mudaram-se em 1934 para o Reino Unido. Foi ali que fez os seus estudos. E pelo Reino Unido combateu na II Guerra Mundial sendo que, até 1944, era o único piloto alemão a voar na RAF.

O percurso expositivo começa curiosamente numa instalação. Uma sala negra, dominada pela presença de uma voz (que rapidamente entendemos ser a de Ken Adams). E eis que o vemos, ao fundo, num ecrã que sai das paredes negras como se alguém ali estivesse. Está sentado num estirador. E sobre essa imagem, em sobreposição, surgem os traços que aludem às imagens que está a criar. Uma delas a da sala com a mesa circular de Dr. Estranhoamor... Explica-nos que Kubrick foi um dos maiores cineastas com quem trabalhou… (ganhou um primeiro Oscar pelo seu trabalho em Barry Lindon, acrescente-se). E, um a um, vai revelando os detalhes do desenho que vai surgindo.

A coleção de desenhos e algumas maquetes, juntamente com ecrãs onde vão surgindo excertos dos filmes que o traço de Ken Adams ajudou a fazer nascer surge num outro espaço, arrumando as ideias por grandes conjuntos temáticos. Espaços célebres de títulos da série 007 como Dr. No, Goldfinger, You Only Live Twice ou Moonraker, as visões que deu ao musical Pennies From Heaven, espaços que vimos em O Último Imperador de Bernardo Bertolucci, os interiores de A Loucura do Rei Jorge (que lhe deram um segundo Óscar) e, naturalmente, as colaborações com Kubrick definem um mundo que, apesar de materializado em cenários ou modelos, traduz afinal a visão (e a personalidade) de um arquiteto.

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