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Uma ponte entre Steve Reich e os Radiohead

Texto: NUNO GALOPIM

Duas canções dos Radiohead servem de matéria prima para ‘Radio Rewrite’, de Steve Reich, que surge em primeira gravação num disco que envolve ainda o guitarrista Johnny Greenwood a interpretar uma obra do compositor norte-americano.

A ideia de trabalhar sobre outras músicas como matéria prima é algo que Steve Reich conhece bem. Como o assinala Nico Muhly no texto que acompanha o booklet de Radio Rewrite, foi o próprio Steve Reich quem lembrou que, por exemplo, a canção popular renascentista L’Homme Armé foi usada em mais de 40 missas e que ele mesmo tomou elementos da obra de Pérotin, um compositor do século XII, quando compôs Proverb, em 1995, juntando ecos de música medieval a um texto de Wittgenstein. Ao partir de duas canções dos Radiohead para criar Radio Rewrite mais não fez senão outro exercício de diálogo, pedindo todavia um empréstimo algo diferente desta vez.

“Não era minha a intenção de fazer variações sobre estas canções, mas partir antes das suas harmonias e por vezes alguns fragmentos melódicos e trabalhá-los numa peça minha”, explicou o compositor num texto que o booklet cita. E, como ele mesmo assinala sobre as canções dos Radiohead que tomou como ponto de partida, “por vezes ouvimo-las, outras vezes não”.

O cruzamento dos mundos de Steve Reich e dos Radiohead ganhou fôlego quando, em 2010, o compositor norte-americano viu Johnny Greenwood, guitarrista do grupo britânico, a atuar num festival em Cracóvia, interpretando o seu Electric Counterpoint. Reich decididamente gostou. “Foi uma grande performance e começamos a falar”, contou depois Reich, que descobriu os antecedentes do músico britânico como violinista assim como o seu trabalho presente como compositor, que descreveu mais tarde como “muito interessante, sobretudo se somado ao seu papel protagonista num grupo rock tão importante e inovador”, lemos no booklet.

A obra dos Radiohead foi, depois desse encontro, uma descoberta para Steve Reich. E dessa experiência nasceu o estímulo que mais tarde, sob encomenda do coletivo Alarm Will Sound, gerou um trabalho de “rescrita” de duas canções do grupo inglês: Everything in it’s Right Place, do álbum de 2000 Kid A e Jigsaw Falling Into Place, de In Rainbows, de 2007. Radio Rewrite é assim um exercício de descoberta de uma voz com uma personalidade clara sobre os caminhos possíveis de encontrar através de duas canções de berço pop/rock. Ecos das canções, sobretudo fragmentos das linhas melódicas renascem assim diluídas num corpo novo, surpreendente, com aquele valor de soma de experiências que podemos imaginar segundo a velha máxima que diz que quem conta acrescenta um ponto. E mesmo sendo aqui e ali claras as raízes desta “rescrita”, no fim estamos claramente em território Reichiano.

Em Everything In It’s Right Place Nico Muhly nota (no booklet que acompanha o disco) que há logo na canção dos Radiohead uma expressão de uma melodia que “nunca aterra em pleno nos acordes que a acompanham. A leitura de Steve Reich assinala essa característica, fazendo surgir fragmentos da melodia “em vários disfarces através de uma vasta variedade de acordes”, como refere o texto. Já em A Jigsaw Falling Into Place Muhly repara que os Radiohead usaram uma estrutura harmónica cíclica “mas imprevisível”, daí Steve Reich tendo tomado partido, explorando “as possibilidades desta estrutura de acordes”, mas com um tempo mais lento, que valoriza assim o detalhe.

Ao contrário de Philip Glass, que desde inícios dos anos 80 estabeleceu várias pontes com figuras do universo da música pop/rock e suas periferias – trabalhando, entre tantos outros, com nomes como os de David Byrne, Suzanne Vega, Marisa Monte, S-Express, Aphex Twin ou Leonard Cohen, tendo mesmo criado duas sinfonias com álbuns de David Bowie como ponto de partida – Steve Reich não tinha até aqui experimentado esse tipo de diálogos. A sua música, é verdade, há muito que é citada entre as principais fontes de inspiração de muitos músicos de gerações mais jovens – particularmente nomes nas áreas da música electrónica -, tendo mesmo surgido em 1999 um álbum de remisturas juntando contribuições de Howie B, os Coldcut ou DJ Spooky, a que chamaram Reich Remixed (o título não deixa dúvidas, tratando-se de uma coleção de abordagens, via remistura, a composições de Steve Reich). No booklet de Radio Rewrite Nico Muhly reconhece que a gravação (histórica, acrescento eu) de Electric Counterpoint (Nonesuch, 1989) que juntou o Kronos Quartet a Pat Metheney, foi uma peça marcante para o seu desenvolvimento pessoal como músico. Em Radio Rewrite Reich mostra assim como é possível aprender com aqueles a quem algo se ensinou.

O álbum agora editado pela Nonesuch, no qual os Alarm Will Sound, dirigidos por Alan Pierson, registam a estreia em disco de Radio Rewrite, junta ainda uma interpretação de Johnny Greenwood de Electric Counterpoint e uma de Piano Counterpoint por Vicky Chow, do coletivo Bang on a Can All Stars.

Steve Reich
“Radio Rewrite”
Alarm Will Sound + Johnny Greenwood + Vicky Chow
CD, Nonesuch
( 5 / 5 )

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