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O síndroma do telefilme

Texto: JOÃO LOPES

O filme ‘Selma’, sobre as marchas pelos direitos civis lideradas por Martin Luther King Jr, em 1965, está em exibição nas salas de cinema nacionais.

De uma maneira ou de outra, o filme Selma, sobre as marchas pelos direitos civis lideradas por Martin Luther King Jr, em 1965, vai ficar na história dos Oscars de 2015. Quanto mais não seja pelas piores razões. De facto, através de declarações de David Oyewolo, e também de alguns artigos da imprensa americana, foi sugerido que a ausência do próprio Oyewolo na lista de nomeados para melhor actor decorreria de um preconceito contra as personagens de negros que não se distingam por algum comportamento subserviente…

O ponto de vista carece de consistência artística, ideológica ou política, desde logo porque não há maneira de recalcar o facto de os problemas raciais no interior do cinema americano terem evoluído em paralelo com as dinâmicas dessa mesma sociedade — por vezes, à frente das suas transformações mais significativas.

Em todo o caso, é verdade que Selma tenta contrariar o estereótipo mais corrente de representação dos políticos (seja qual for a cor da sua pele). Dito de outro modo: há no filme dirigido por Ava DuVernay uma tentativa interessante de encenar King para além da mera “confirmação” de uma história mais ou menos oficial, em particular através da atenção prestada a alguns elementos da sua vida conjugal.
Em todo o caso, o maior problema do filme pouco ou nada tem a ver com a sua matéria política. Aliás, creio que devemos corrigir esta asserção: a grande questão política de um filme como Selma seria a possibilidade de superar uma representação determinista das suas personagens, sobretudo de King, tratando-as para lá de uma banal noção de “destino” por cumprir. Aliás, no caso do Presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) e, sobretudo, do governador George Wallace (Tim Roth), vogamos no domínio da mera caricatura.

Que resta, então? Um objecto de acumulação de muitas e respeitáveis competências — com destaque para a música do pianista Jason Moran —, mas que se vai estiolando nas regras mais esquemáticas do telefilme. Contrariar essa dependência formal e narrativa, eis um risco cinematográfico que valia a pena ter corrido.

1 Comment on O síndroma do telefilme

  1. Onde se lê “O síndroma ” deve ler-se “A síndroma”,

    tendo em conta

    http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=31551

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