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Em Portugal “a austeridade compensou” segundo um telejornal francês

Texto: JOSÉ MIGUEL SARDO

Uma reportagem do canal France 2 retrata um país refugiado na austeridade, depois do governo anunciar a intenção de antecipar o reembolso do empréstimo da Troika. Um retrato dos “pobres mas honrados”, que estão prontos mesmo a trabalhar sem salário, tudo para, uma vez mais, não serem comparados à Grécia.

Em Portugal é melhor não ter dívidas do que ter dúvidas. A eleição de um novo governo grego “anti-austeridade”, voltou a virar os olhos da imprensa internacional para o nosso país. No encalço da Irlanda, depois de Lisboa anunciar a intenção de reembolsar antecipadamente parte do empréstimo ao FMI, o governo português não quer ceder aos murmúrios vindos de Atenas, até porque, como sempre repetiram várias vozes ao nível político, “Portugal não é a Grécia”. Uma lógica imbatível para defender a austeridade, tanto nos primórdios da crise, como na reta final do programa de assistência da Troika, sobretudo após a eleição de Tsipras na Grécia. Este é, em suma, o ângulo da reportagem difundida na quinta-feira à noite, no telejornal das 20h do canal público France 2. Uma reportagem durante a qual a Grécia volta a ser a justificação da austeridade “à portuguesa”, mas, agora, na boca dos transeuntes da baixa lisboeta. Um dos entrevistados afirma, frente ao microfone da jornalista do canal francês, “eu não vou a um hotel de cinco estrelas, passo aí a noite e depois saio sem pagar, como quer fazer a Grécia”, outra pessoa entrevistada afirma, irremediavelmente, “a Grécia não pôde deixar de pagar quando nós continuamos a fazê-lo (o reembolso do empréstimo da Troika)”.

A receita da austeridade, “que remédio…”

Na reportagem de quase quatro minutos, sugestivamente intitulada, “a crise compensou”, retrata-se um Portugal à medida dos anúncios do governo, pronto a pagar para sair rapidamente da crise, pronto mesmo a trabalhar sem salário, como um grupo de professores de música, à espera de melhores dias. A reportagem mostra uma empresa de construção que conseguiu resistir à crise, despedindo pessoas e pedindo aos que ficaram para trabalhar mais horas e mesmo aos sábados. O mesmo relato do aparente êxito da resignação portuguesa prossegue na Freguesia de Famões, nos arredores de Lisboa, onde uma funcionária pública, igualmente resignada, percorre gabinetes vazios de pessoas despedidas, depois da fusão da Freguesia com a vizinha Pontinha. Frente às câmaras, a afável edil, explica, quase sem pestanejar, como, de um dia para o outro lhe passaram a pedir para realizar tarefas suplementares. Ao longo da reportagem, nem uma voz crítica põe em causa os métodos, ou, já que se fala da Grécia, evoca a possibilidade de uma “rescisão amigável” dos empréstimos da Troika, como aquela defendida pelo Syriza, como se a fórmula da austeridade tivesse sido seguida à risca, sem hesitações e sem realmente inquietar ninguém. Só no final da reportagem é que a jornalista evoca o desafio do governo de prosseguir com os esforços, “quando um em cada cinco portugueses vivem no limiar da pobreza”. Um desafio pouco ilustrado durante todo o relato, entre um homem que na rua, afirma, “não tínhamos outro remédio senão acabaríamos como a Grécia”, outro que, numa empresa de construção, assegura, “os sacrifícios compensaram” e o texto da jornalista que, como um provérbio popular português, garante que, apesar da dureza das medidas, houve, “poucas manifestações e muita resignação”.

“Poucas manifestações muita resignação”

Um retrato do “bom aluno” que acaba por contribuir para diabolizar um pouco mais a “caloteira” Grécia, mas, ao mesmo tempo, uma imagem de resignada submissão face à vivacidade da posição da população grega. A “Crise compensou”, sem um ponto de interrogação, sem dúvidas sobre a justiça ou injustiça das medidas do programa de austeridade, mesmo quando, gregos e provavelmente espanhóis preferiram entregar o poder àqueles que se interrogavam sobre a eficácia dessas mesmas medidas. No relato da jornalista, nem uma análise especial sobre o impacto dos variados cortes no país ou um interesse especial em tentar contrastar os anúncios do governo com as vozes que se levantam contra elas, inaudíveis na reportagem. É uma peça que, propositadamente e por lapso, revela como a atitude dos portugueses é difícil de ilustrar lá fora, onde a austeridade, necessária ou não, tem o seu eco, na luta contra as “castas” e “elites”, contra bancos e gerontocracias, ouvida nas ruas de Madrid e Atenas. Num país onde os seus habitantes foram tão ou mais atingidos pelas medidas de austeridade do que espanhóis e gregos, e onde a economia nunca foi tão “felina” como a da Irlanda, como explicar, no estrangeiro, a ausência de uma vaga de indignação à altura de um Podemos ou de um Syriza, ou noutra geografia da crise, a subida nas sondagens de uma Marine Le Pen em França ou de um Gert Wilders na Holanda? Frente às imagens desta reportagem qualquer espectador, em Portugal ou em França, pode interrogar-se por momentos se está perante um bom aluno ou uma má cobaia que resiste a uma experiência que pode ter falhado na Grécia.

Ver-se “grego”

A imagem dos quase impassíveis portugueses, que lutam para sobreviver em vez de combater as medidas que os condenaram à simples sobrevivência, acaba talvez por querer provar o sucesso da austeridade entre povos dóceis e de “brandos costumes”, em climas amenos nas margens do mediterrâneo. Uma visão redutora ou incompleta, quando um telex da agência francesa AFP, publicado no mesmo dia, e retomado mesmo pelo jornal conservador francês Le Figaro, noticia o apelo “a apoiar a Grécia”, manifestado por várias personalidades portuguesas numa tribuna do jornal Público. Se, ao contrário da “falida” Grécia, a austeridade realmente “compensa” em Portugal, e se a resignação ilustrada por esta reportagem é uma das razões do seu sucesso, seria provavelmente mais difícil explicar, no mesmo telejornal francês, as consequências do eventual êxito de uma “rebelde” Grécia junto de 10 milhões de alegres sacrificados. Na total ausência de contradição, relativamente à posição dos portugueses sobre a Grécia e mesmo sobre as medidas de austeridade, este fresco da resignação lusitana, mesmo vindo de França, assemelha-se a uma caricatura bastante familiar. No mapa da crise do euro, Portugal volta a confundir, entre as ambições “irlandesas” do governo e um país onde muitos se vêem “gregos”, mas só para chegar ao fim do mês.

A reportagem, intitulada também, “a política de austeridade dá frutos em Portugal” pode ser vista, na íntegra, aqui.

 

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