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Steve Strange (1959-2015)

Texto: NUNO GALOPIM

Voz e rosto dos Visage, Steve Strange teve um papel central na construção das linhas que definiram o movimento ‘new romantic’. Morreu aos 55 anos num hospital no Egito.

Vestido a rigor para dar corpo a um ideal que dele fez um ícone do seu tempo Steve Strange ficou para muitos na história como a voz de Fade to Grey, o único single dos Visage que atingiu um patamar de grande notoriedade global (mas não o único momento da sua discografia merecedor de atenção). Mas mais que vocalista dos Visage (nas suas várias vidas e formações) e, depois, dos Strange Cruise, Steve Strange foi o rosto maior de um movimento musical que, mesmo longe dos apetites de muitos dos críticos de então, acabou por marcar a cultura pop (musical e visual) da alvorada dos anos 80. Depois de uma hospitalização por doença respiratória em finais do ano passado, Steve Strange morreu esta quinta-feira (dia 12), aos 55 anos num hospital no Egito, vítima de um ataque cardíaco, segundo noticiou a página de Facebook dos Visage. Numa mensagem no Twitter onde refere a morte de um velho amigo, Simon Le Bon, vocalista dos Duran Duran descreve-o como tendo sido a força mais inventiva do movimento new romantic.

Chamavam-lhes Blitz Kids… E a razão era simples. Depois de ganhar primeira expressão no Billy’s, foi num bar em Covent Garden (Londres), com esse mesmo nome (Blitz) que um movimento ganhou forma entre finais dos anos 70 e a alvorada dos 80, reativando ecos do hedonismo e dos excessos visuais dos dias do glam rock num novo contexto musical que tinha os nomes de David Bowie, dos Kraftwerk e Roxy Music como referências maiores. O tempo acabou por reconhecer o movimento sob o rótulo new romantic (neo-romântico, como entre nós se dizia). E se bem que tivesse sido berço de bandas como os Duran Duran, Classix Nouveaux ou Spandau Ballet, na verdade conheceu como paradigma maior os Visage, grupo intrinsecamente ligado às Bowie Nights que semanalmente ganhavam materialidade, com uma multidão vestida a rigor, no londrino Blitz. Noites nas quais ao bengaleiro trabalhava George O’Dowd (que pouco depois seria conhecido como Boy George), que tinham por DJ Rusty Egan – um dos pólos musicais dos Visage – e, à porta, a deixar entrar apenas quem tivesse vistoso visual a condizer com a alma dessas noites, estava Steve Strange.

Nascido em Newbridge (Gales) em 1959, Steve John Harrington (o seu nome real) foi um entre tantos outros da sua geração que encontraram novos caminhos para as suas vidas depois de um concerto dos Sex Pistols. Começou por organizar concertos de bandas punk na região onde viva e, ao mudar-se para Londres, formou os Moors Murderers, que não sobreviveram por muito tempo, ao que se seguiu uma breve passagem pelos Photons. Em finais dos anos 70, ao mesmo tempo que se juntava a Rusty Egan para fazer das Bowie Nights um dos fenómenos da noite londrina, encetava com o amigo DJ (que antes integrara os Rich Kids) um projeto musical que tinha apenas como ambição uma vida em estúdio, juntando então contribuições de músicos como Midge Ure (ex-Rich Kids, e futuramente vocalista dos Ultravox), Billy Currie (Ultravox), Barry Adamson, John McGeoch e Dave Formula, todos eles dos Magazine. Chamou-lhes Visage e, depois de um single de estreia em 1979 – Tar – que passou a leste das atenções, chegados a 1980 deu por si a fazer de Fade To Grey um dos hinos que definiriam o seu tempo.

Fade To Grey foi um dos singles extraídos de Visage, o primeiro de dois álbuns que Steve Strange registou com a formação original do coletivo. Além de uma música em tudo herdeira das genéticas que o seu som convocava, juntando guitarras e sintetizadores para desenhar uma pop com sabor ao futuro imediato, os Visage serviam também de banda sonora a uma figura visual sofisticada, cuidada, de roupas pensadas a rigor e make up a completar a construção de uma imagem que não escondia o desejo de apostar numa artificialidade de fantasia, em clara oposição ao negrume que fazia as histórias de vidas comuns na Inglaterra de então.

O melhor da obra dos Visage (e de Steve Strange) concentra-se de facto entre os álbuns Visage (1980) e The Anvil (1982). Uma cisão no grupo, que perdeu alguns dos seus colaboradores centrais – entre os quais Midge Ure – deixou os Visage num momento de algum desnorte. Pleasure Boys (1982) foi o primeiro single dessa nova etapa, ao qual se seguiria em 1984 um novo álbum – Beat Boy (1984) que revelou o aprofundar de uma desorientação e descaracterização do som que resultaria num impacte decididamente menor e conduziria o grupo a um (primeiro) ponto final.

Decidido a apostar na música, apesar de ter mantido relações com a noite ao gerir um outro clube de sucesso, Steve Strange forma uma nova banda, os Strange Cruise e com eles grava um único álbum – Strange Cruise (1986) – mais próximo de linguagens rock, mas ainda mais inconsequente que o álbum de 84 dos Visage. Banda de vida curta, deixou Steve Strange concentrado na sua carreira noturna entre finais dos anos 80 e inícios dos 90. Dramas da sua vida pessoal fizeram depois as notícias, envolvendo histórias de consumo de drogas e roubos algo caricatos (um deles um boneco teletubbie).

Já depois da viragem do século, e num tempo de tantas reuniões e reativações, Steve Strange procurou reativar os Visage. Primeiro com músicos ligados às electrónicas. Depois reunido uma formação de perfil mais próximo com as origens do grupo e apresentando em 2013 Hearts & Knives, quarto álbum que se aproxima mais das memórias dos dois primeiros que dos caminhos pós-82, embora sem grandes momentos memoráveis. A discografia do grupo conheceu ainda um outro disco – Orchestral (2014) – um álbum de versões orquestrais de canções das várias etapas da obra dos Visage. Como tantos grupos reativados, os Visage de hoje eram uma pálida imagem dos de outrora. Mas vale a pena ultrapassar a má-vontade de tanto texto que tropeçou nas indumentárias de Steve Strange e guardar na memória os bons momentos que levou à história da cultura pop, sobretudo entre 1979 e 1982.

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