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Björk sai do armário!

Texto: JOHN GONÇALVES

No espaço de poucas semanas tanto Madonna como Björk viram os seus discos chegarem à internet muito antes da data de lançamento prevista.

E isto acontece “não só mas também” porque qualquer artista tem sérias probabilidades de só ver o seu disco nas lojas passados seis a nove meses de o ter terminado, apesar da indústria e media terem acesso a esse mesmo disco muito antes da data de lançamento.

Agora é preciso trabalhar o denominado warm up desse disco, lançando single, vídeoclip, remixes, anunciar tour, preparar o segundo avanço do disco, fazer as clássicas entrevistas muitos meses antes do lançamento e “alimentar o feed” dos sites, blogues, jornais, revistas ou redes sociais com outras notícias durante todo esse tempo.

A propósito da colocação do novo disco de Björk ilegalmente na internet, Derek Birkett fundador e dono da One Little Indian (editora de Björk) contou à Bilboard como decidiu pela antecipação do disco em formato digital para venda no iTunes e na Amazon já em Janeiro – em vez de Março – pois assim iria minimizar as perdas.

O que ele não previu foi que esta decisão criasse um problema a várias das suas parceiras mundiais, como a importante Rough Trade alemã que cancelou o contrato de edição do disco.

Saber que alguém preferiu cancelar este lançamento porque essa colocação ilegal na Internet perturbou a “estratégia”, parece-me exagerado e até pouco solidário com a One Little Indian. A “ameaça” de que a Rough Trade e outras editoras viram com este pré-lançamento online, foi a sorte de outras que assim têm a “oportunidade” de ter este e todos os discos de Björk no seu catálogo.

A propósito de warm ups longos, Björk deu uma entrevista à Pitchfork no passado dia 31 de Outubro para um disco que iria sair a 2 de Março de 2015 (quatro meses antes da data prevista) onde fala sobre este novo álbum e não só.

Basicamente ela sente-se injustiçada por várias más interpretações artísticas e autorais sobre o seu trabalho. Como, por exemplo, quando ela mesmo fez 80% das batidas de Vespertine durante três anos, apesar de toda a imprensa creditar esse trabalho aos Matmos que apenas colocaram percussões nas últimas duas semanas em estúdio. Tal como agora se queixava em Outubro que a opinião pública já falava num disco novo apenas produzido por Arca, quando esse trabalho de produção foi feito em conjunto com a própria Björk.

A mesma indústria que perde seis a nove meses no warm up de um disco, não perde seis a nove minutos para colocar no inlay ou no press release a informação verdadeira sobre os créditos desse disco e não pressiona esses media quando Björk, Matmos ou Arca querem repor a verdade.

Eu também culpo os artistas que facilitam muito a composição destes textos pequenos, mas relevantes para os media, público ou seus colegas músicos/técnicos saberem exactamente quem fez o quê evitando a criação de falsos créditos, falsos mitos e falsos génios.

Björk coloca o ênfase destes erros dos media no facto de ser mulher, nunca falando da incompetência desses media.

E fez mal, porque se pode haver discriminação sexual no meio musical mundial é óbvio que muita indústria e imprensa musical é manifestamente mal preparada. E quando se junta o preconceito com a incompetência, os descalabros acontecem.

Mas a diva islandesa diz mais:

“Eu aprendi que se quiser fazer passar as minhas ideias a um grupo de homens, vou ter que fingir que foram os homens a ter essas ideias.”

A jornalista que entrevistou Bjork citou Joni Mitchell quando esta disse há muitos anos que “qualquer homem que estivesse no mesmo estúdio que ela, teria crédito pelo seu génio”. Björk fala de M.I.A, que lhe confessou a mesma percepção do problema de “ser mulher num mundo de homens”. E fala do bom exemplo de Missy Eliot, que se fotografa sozinha no estúdio ou se deixa filmar no exacto momento em que cria para passar a imagem de que é ela quem manda e, assim, não deixar a mínima duvida a ninguém.

No lado oposto, Björk dá o exemplo de Kanye West para provar a sua teoria de uma protecção do sexo masculino e um claro desequilíbrio nas atitudes em relação ao sexo feminino, quando diz que ele tem os melhores programadores do mundo a trabalharem no seus discos e nem por um segundo alguém coloca em causa que ele é o autor de todas as batidas dos seus discos.

Para Björk, calar-se nesta altura seria uma “atitude cobarde” e por isso fala “para chamar a atenção sobre um problema real e para apoiar novas artistas de 20 anos que estão a começar neste mundo de homens”.

Costuma dizer-se que o “pior cego é aquele que não quer ver”, mas a verdade é que eu não vi, não ouvi, nem senti absolutamente nada sobre este assunto nos 20 anos que vivo junto a uma vocalista forte, com personalidade, com atitude, com capacidade de dar ideias boas, fazendo-se ouvir, fazendo-se respeitar, com voz própria e com liderança. Tal como Björk tem no seu mundo artístico!

Mesmo assim, vou perguntar à Sónia o que ela acha destas frases. E, independentemente da sua resposta, vou estar muito atento a esta questão. Porque o nosso trabalho é também sermos evoluídos nas atitudes e não só na nossa arte!

Um grande “Viva” às nossas divas. Hoje e Sempre !

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