Últimas notícias

Rap de guerrilha

Texto: ISILDA SANCHES

Reeditado 25 anos depois em versão Deluxe, o segundo álbum dos Public Enemy é verdadeira música da revolução.

Flashback: América 1988. Ronald Reagan é presidente, George Bush vice-presidente, Tom Cruise está em alta com Rain Man e Cocktail mas o maior sex symbol nas telas é um desenho animado chamado Jessica Rabbit em Quem Tramou Roger Rabbit. 1988, o ano em que a venda de CDs ultrapassa pela primeira vez a dos discos em vinil, é o ano de Faith de George Michael, Never Gonna Give Up Up de Rick Astley e I Need You Tonight dos INXS . É também o ano de It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back, o segundo álbum dos Public Enemy, um marco na história do hip hop e da música do séc. XX, um disco onde a ideia de revolução se concretiza a nível ideológico e estético.

Olhando para o hip hop hoje em dia talvez seja difícil imaginar os tempos da marginalidade. Mas, há 25 anos, era mais provável o hip hop aparecer nos telejornais na abertura, ou a meio, por ser uma “ameaça”, não no fecho por ser simplesmente “entretenimento”. Pelo menos na América e sobretudo no caso dos Public Enemy, o que, naturalmente começava logo no nome e continuava com o discurso e a atitude. Os Public Enemy fizeram muito para tornar o hip hop um fenómeno mundial, incluindo ser notícia por afirmações polémicas, sobretudo do seu “Ministro da Informação”, Professor Griff, e do seu discurso político tresloucado e anti-semita, mas em 1988, quando saiu It Takes a Nation…, tudo era relativamente novo, a projecção mediática, o sucesso comercial, as repercussões sociais, a moda e até o dinheiro. Os Public Enemy estavam no centro das atenções, tudo o que diziam ou faziam tinha repercussões e isso foi, em si mesmo, uma revolução. E também por causa disso Chuck D escreveu Don’t Believe The Hype, um dos grandes hinos deste disco, máxima ainda hoje aplicada muitas vezes à relação entre media e músicos.

Reeditado 25 anos depois em versão Deluxe, com DVD e CD de remisturas e versões alternativas como extras, percebe-se alguma erosão na ousadia mas, se o tom de confronto perdeu algum significado com o passar dos anos, isso não retira ao disco a sua assertividade. O flow furioso de Chuck D e o contraponto pateta de Flavor Flav, o scratch cirúrgico de Terminator X, até as afirmações de Professor Griff, mas sobretudo o trabalho da Bomb Squad, a equipa de produção, continuam a brilhar mais de um quarto de século depois. O uso do sampling, em particular, continua a impressionar, breaks de funk e riffs de guitarra, gritos de James Brown, discursos políticos, ruido, sirenes, tudo cortado e colado de forma exímia para sustentar a cadência, o tom e o sentido das músicas. Como se Edgar Varèse se tivesse juntado aos Run DMC, hip hop da velha escola aditivado com desafio sónico. It Takes A Nation… samplou muito e foi muito samplado. Dr Dre, Jay Z, Eminem, Kanye West, Mob Depp e até Madonna (em Justify My Love), Enigma ou My Bloody Valentine foram buscar elementos a este segundo álbum dos Public Enemy.

Ainda assim, a sua força original foi pela via política, foi isso que gerou controvérsia e permitiu o grande salto. O hip hop sempre foi sobre passar uma mensagem (basta ouvir The Message de Grandmaster Flash) mas nunca tinha sido tão político antes dos Public Enemy, herdeiros de profetas do Black Power como Gil Scott Heron ou Last Poets. Chuck D, “the hard rhymer”, como se auto-intitula em Rebel Without a Pause, era certeiro: na abertura de Bring the Noise é a voz de Malcolm X que repete Too Black, Too Strong, mais tarde é Chuck D que anuncia: Black Is Back, We’re Gonna Win. O disco dispara acusações e princípios em rimas acutilantes. Chuck D faz da questão racial uma bandeira, sampla e recomenda Farrakhan, o líder do grupo religioso Nation of Islam, uma voz activa na comunidade negra, conhecida pelo discurso anti-semita, anti branco e anti gay. Os Public Enemy não saíram incólumes da confusão, mas o hip hop saiu muito mais forte e Chuck D transformou-se numa espécie de anti herói da cena musical alternativa. Dois anos depois, por exemplo, gravava Kool Thing com os Sonic Youth.

Desde 1988, muita coisa mudou no hip hop e na América e não há como não pensar que os Public Enemy, em particular este disco, tiveram alguma coisa a ver com isso. Com Obama como presidente desde 2009 e os clãs de Kanye West e Jay Z a dominarem a pop mundial, ouvir It Takes a Nation Of Millions… e tentar situá-lo no seu contexto original é como ter uma aula de história onde a música diz o principal.

Public Enemy
“It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back” Deluxe Edition
2 CD / DVD, Universal
5 / 5

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: