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A fuga de Logan

Texto: NUNO CARVALHO

‘Wild Tigers I Have Known’, de Cam Archer, conta a história de um rapaz que conhece a deceção e a solidão de uma paixão impossível.

Cam Archer tinha 24 anos quando fez Wild Tigers I Have Known. Hoje tem 33 e apenas acrescentou à sua filmografia uma longa-metragem com Ellen Barkin e duas curtas. Mas, em 2007, quando circulou por numerosos festivais de cinema internacionais (passou também pelo Queer Lisboa), o filme reuniu uma considerável dose de aplausos (apesar de ser uma obra de espírito marcadamente underground). Tendo Gus van Sant como produtor executivo, Wild Tigers I Have Known foi na altura selecionado para o Festival de Sundance e venceu o Festival Gay e Lésbico de Milão. E, além dos ecos de Van Sant, nele podemos detetar outras influências, tais como as de Kenneth Anger, Gregg Araki, Todd Haynes ou David Lynch.

O filme é um mergulho na consciência de Logan (Malcolm Stumpf), um tímido e solitário rapaz de 13 anos tomado por uma paixão impossível. Logan vive com a mãe e tem em Joey (Max Paradise) o seu único amigo, um nerd obcecado por assuntos científicos que se empenha em fazer uma lista de “formas de ser cool” e que começa a afastar-se de Logan quando um dia este insiste em pôr batom para tirar uma fotografia. Quando, à saída de uma sessão com a psicóloga da escola, para falar sobre o facto de ter sido vítima de bullying, consegue entabular conversa com Rodeo (Patrick White), um rapaz bem-parecido e fisicamente mais maduro do que ele, a queda é fatal. Logan apaixona-se imediatamente por Rodeo, e, no seu desespero por se aproximar dele, cria um alter ego feminino que lhe telefona fazendo-se passar por uma admiradora, chamadas essas que vão ganhando uma crescente carga erótica.

Wild Tigers I Have Known é um conto com olhar de esteta sobre a solidão e a necessidade de um adolescente escapar do vazio do real que o rodeia através do sonho acordado e de uma imaginação cuja intensidade só tem paralelo na ebulição hormonal. Perante uma realidade frustrante e deprimente, Logan precisa de uma válvula de escape, de um ponto de fuga, e recolhe-se no seu mundo interior de fantasia, sublimando os seus desejos impossíveis e “castrados” por um ambiente que lhe é hostil através da sua fecunda imaginação. Tal como Arthur Rimbaud, seria caso para Logan dizer que “a música sábia falta ao nosso desejo”.

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