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De Londres para o mundo

Texto: NUNO GALOPIM

Um documentário sobre os Spandau Ballet tem particular interesse na forma como contextualiza social e politicamente o movimento ‘new romantic’. O resto é uma história ‘mainstream’ de uma banda que se tornou inconsequente.

Os Spandau Ballet em Nova Iorque em 1980

Podemos discutir até que ponto foram os Spandau Ballet uma banda marcante na história da pop e, inclusivamente, que legado terão deixado à cultura dos anos 80… De facto, e apesar dos êxitos colossais que somaram por volta do álbum True (1983) e das réplicas de sucesso que ainda animaram o seguinte Parade (1984), um olhar desapaixonado sobre a obra que deixaram não junta mais dados em seu favor senão um eventual par de singles (na verdade pouco interessantes) para recordar em estações mais dadas à nostalgia light. Se a “relevância” se mede pelo sucesso, a dos Spandau Ballet foi fechada nesse intervalo e remetida, com o tempo, para as prateleiras das memórias que se repetem ad nauseam por quem acha que se reduzem obras e épocas aos greastest hits… Depois de 1984 o grupo geriu um perfil mainstream internacional com mais forma que conteúdo e de sucesso estável – embora longe do que entretanto nomes como os Wham! ou A-ha iam talhando (e estamos a falar apenas deste departamento pop mais juvenil), acabando a história em separação depois de um álbum medíocre em 1989, uma amarga disputa de direitos mais tarde e reunião, afinal todos amigos, em 2009. Há contudo na história dos Spandau Ballet uma etapa, entre finais dos anos 70 e 1981, que vale a pena registar e ter em conta. E essa sim, mesmo com impacte mais localizado, gerou frutos e mudou o mundo ao seu redor. E é por esses factos, mais que toda a aventura pós-1984, e o cash-in da nostalgia que despertou interesses aquando da digressão de reunião, que vale a pena ver Soul Boys of The Western World, documentário de George Hencken já disponível em CD e DVD.

Essencialmente feito da junção de imagens de arquivo a pontuais entrevistas mais recentes – carecendo da construção de uma materialidade visual que lhe permita ser algo que não um exercício de jornalismo musical de formato longo – o filme opta por fazer da sua primeira metade a história do relacionamento do grupo com o movimento londrino new romantic ao qual nasceu associado. Começa por dar a entender que, para a sociedade britânica, a cultura pop é uma realidade com berço na rua e entre filhos de classes menos favorecidas, talhado de sonhos de fama e glória feitos a partir do som das referências do seu tempo. Contextualizando a música no contexto social e político do Reino Unido nas vésperas da primeira vitória de Thatcher o filme enquadra a génese do escapismo exuberante que então nasceu em clubes como o Billy’s e Blitz, sob os discos rodados por Rusty Egan e a política de porta definida por Steve Strange (que surge em vários momentos, inclusivamente numa entrevista televisiva da época que explicava o que naquelas noites diferentes estava então a nascer). Os elementos do grupo, que encontraram uma identificação com o grupo de almas diferentes que ali se juntava todas as semanas, moldou o seu som às novas sugestões estéticas (há imagens de atuações anteriores, mostrando um rock claramente banal) e, na hora de se apresentar renovados – de som e imagem – chamaram Steve Strange e os demais ‘Blitz kids’ para um concerto de apresentação que, num ápice, deles fez a banda do movimento.

A identificação com as propostas estéticas do movimento new romantic, a descoberta de Nova Iorque e o resto do mundo logo a seguir, a vontade em não fechar naquele quadro sonoro a condução da carreira – que os levaria em 1981 a ensaiar caminhos white funk – e uma contenda de popularidade com os Duran Duran logo depois completam o percurso mais bem recheado de sons e imagens (de arquivo) de Soul Boys of The Western World, daí em diante surgindo um roteiro cronologicamente arrumado de discos, digressões e progressivos desentendimentos, a culminar no desfecho conhecido. Tão desinteressante como as roupas garridas, penteados horrendos e jóias chiques que então se usavam… Celebram-se – pela voz dos elementos da banda – como sendo as suas melhores canções True e Through The Barricades, peças que o tempo contudo diluiu entre as memórias das nostalgias mainstream dos oitentas, deixando claro que muitas vezes não são os músicos os melhores críticos da sua obra. De resto, basta pegar nos álbuns Journeys To Glory (1980) e Diamond (1981) e escutar temas como To Cut A Long Story Short, The Freeze, Reformation ou Chant #1 para encontrar peças bem mais cativantes que não exigem um olhar para os feitos nas tabelas de vendas (Reformation nem sequer foi single) para encontrar uma pop com vontade de dançar que foi banda sonora de momentos que fizeram história e geraram descendências entre 1980 e 81.

Ao mesmo tempo que o filme surge em DVD e Blu-Ray há um novo best of dos Spandau Ballet em cena. Com o título The Story, é um álbum duplo que arruma no CD1 um percurso cronologicamente ordenado de 16 dos singles editados entre To Cut a Long Story Short (1980) e Once More (do álbum de reunião de 2009), às quais junta ainda três novas canções (inconsequentes) produzidas por Trevor Horn. O CD2 serve essencialmente de registo de temas da discografia do grupo usados na banda sonora do documentário, valorizando a presença dos dois primeiros álbuns em metade do seu alinhamento.

“Soul Boys of The Western World”
de George Hencken
DVD e Blu-ray, Metrodome
3 / 5

“The Story – The Very Best of Spandau Ballet”
Spandau Ballet
2 CD Chrysalis / Rhino
3 / 5

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