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A grande ilusão

Texto: JOÃO CARLOS SANTANA DA SILVA

Será, amanhã, o ‘Grand Budapest Hotel’ de Wes Anderson, capaz de vencer mais que os Óscares para direção artística, argumento e banda sonora original?

“What’s in a name?”, perguntava Julieta a Romeu na peça de Shakespeare, explicando que uma rosa sob qualquer outro nome cheiraria sempre tão bem como uma rosa. Cada vez mais associo esta dúvida existencial do dramaturgo inglês aos prémios de cinema norte-americanos mais conhecidos: os Óscares. Isto porque, na verdade, há tantos outros prémios e festivais de cinema que são mais justos e universais nos seus critérios. Com Cannes, Berlim, Veneza, Sundance e os BAFTA, quem precisa dos Óscares? Mas, ano após ano, cometo o mesmo erro e presto atenção aos nomeados e aos potenciais vencedores. E este não é exceção.

A corrida aos prémios está lançada. E há, até, obras muito interessantes a concurso, com trunfos que vão além da construção das cenas, da qualidade do texto e das interpretações sólidas. Falo de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (o papel da vida de Keaton – em mais do que um sentido – e um dos melhores filmes de Iñarritu) e de Boyhood – Momentos de uma Vida (apesar do seu mérito estar demasiado assente na ousada rodagem feita ao longo de 12 anos). Mas, apesar das nomeações avulsas que tem recebido, e mais grave do que a triste ausência de Foxcatcher, há um outro grande filme que arrisca ser ignorado quando a altura chegar: Grand Budapest Hotel. Primeiro, porque concorre como outsider perante os gostos da Academia americana (sempre inclinados para familiaridade do biopic). Em segundo, porque saiu para as salas de cinema demasiado cedo no ano. Já lá vai quase um ano desde que que estreou em Portugal, mas o tempo parece ter feito o que só se faz com as coisas boas: confirmou que é uma obra de mestre.

Grand Budapest Hotel é a história de uma espécie de diretor interino do hotel que dá nome ao filme, Gustave H. (Ralph Fiennes), um concierge todo-poderoso que, na aparente ausência ou desinteresse do verdadeiro proprietário, se torna um excêntrico mas dedicado gestor das necessidades de toda a gente que entra portas adentro do Grand Budapest. As necessidades dos empregados, que trata de forma condescendente, e as necessidades dos clientes. Acima de tudo, as dos clientes. Os ricos e nobiliárquicos clientes e residentes habituais. E com uma especial atenção às viúvas e idosas milionárias que por lá – e pelas mãos de monsieur Gustave – vão passando, ignorando a atividade lúbrica umas das outras.

O filme começa com uma jovem leitora a dirigir-se a um busto num jardim, onde coloca um livro de memórias precisamente chamado The Grand Budapest Hotel. O busto é o do escritor, fictício, desse livro. Somos, então, transportados para o escritório do Autor (Tom Wilkinson), que inicia a narrativa de uma viagem feita, muitos anos antes, a este famoso hotel na República de Zubrowka (não vale a pena procurar, só existe na cabeça de Wes Anderson). É a imersão nessas memórias que, de súbito, nos põe frente-a-frente com o edifício rosa-pálido que dá nome ao livro… e ao filme.

Encontramos então o Autor na sua versão jovem (Jude Law), que, após instalar-se naquele local que parece estar a definhar, embora evocativo de uma era dourada, encontra um homem que se revela ser o verdadeiro dono, chamado Zero Moustafa (F. Murray Abraham). Porque não abandona ele aquele resquício de tempos faustosos, agora aparentemente sem clientes? É simples: pela memória de monsieur Gustave H., que lhe ensinou tudo o que sabe e lhe deu tudo o que tem. Mesmo quando esse mundo de milionários e títulos nobiliárquicos estava em queda, Gustave fazia-o parecer resplandecente e perene. “His world had vanished long before he ever entered it”, diz o velho Moustafa, “but he certainly sustained the illusion with a marvelous grace”. E somos atirados ainda mais para o passado, para o tempo de Gustave H. e do seu jovem lobby boy, Zero (Tony Revolori).

Há tantas histórias e pequenas pérolas espalhadas pelo filme de Wes Anderson que é difícil falar de uma sem desenrolar o novelo. No entanto, o que espoletará a narrativa central do filme é a herança deixada por uma viúva tocada pelos talentos amorosos do concierge, Madame D. (Tilda Swinton). A herança, o valiosíssimo quadro Rapaz com Maçã, é então disputada pela família, e em especial pelo violento descendente Dimitri (Adrien Brody), que atiça o seu “cão de fila” Jopling (um papel caricato mas impagável de Willem Dafoe) contra Gustave e seus aliados.

O cenário imaginado pelo realizador americano é, como tem sido habitual na sua filmografia, feito em camadas, com várias interações a terem lugar dentro de um mesmo plano, independentemente de estarem relacionadas. Para além disso, repare-se, há um livro que nos leva ao seu escritor no passado, que nos remete para a sua juventude, que daí nos lembra ainda a história de juventude de Moustafa, num período histórico verosímil dentro de um argumento original e com locais ficcionais. Um universo criativo. Anderson diz que, em grande parte, foi buscar inspiração ao escritor suíço Stefan Zweig, em quem se baseou para construir tanto a personagem do Autor como de Gustave. Mas, passada essa fronteira da realidade, o céu é o limite.

É claro que esta “rédea solta” tem as suas desvantagens e desagradará aos inamovíveis fãs de um cinema realista ou, até, de quem prefere as histórias mais simples, mais íntimas, de Wes Anderson. Mas é difícil negar a complexidade visual e narrativa desta construção, que rivaliza com os melhores (e mais fantasiosos) filmes de Tim Burton, sem nunca se perder em efeitos especiais gratuitos. Quase que se poderia que, em Grand Budapest Hotel, o livro O Leopardo, de Lampedusa, encontra O Grande Peixe, de Tim Burton. O retrato de um mundo que acaba, suplantado pela figura grandiosa de uma só personagem.

Na cerimónia dos Óscares, se não houver surpresas, o filme deverá varrer os prémios de direção artística, argumento original e banda sonora (de Alexandre Desplat, que curiosamente também está nomeado pela música de O Jogo da Imitação). A montagem e direção de fotografia também estão ao alcance de Grand Budapest. Mas o verdadeiro desafio reside no prémio para filme e realizador. Grand Budapest Hotel não é tão marcante e tão profundamente afetivo como The Royal Tenenbaums e The Darjeeling Limited. Mas é, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes de Wes Anderson. E, tal como em tempos se podia dizer de Woody Allen, isso devia ser suficiente para arrecadar o prémio mais cobiçado.

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