De Humphrey Bogart a Joaquin Phoenix
Texto: JOÃO LOPES
No ziguezague de memórias que o cinema moderno sempre envolve, a personagem do detective privado Larry ‘Doc’ Sportello, tal como interpretada por Joaquin Phoenix em Vício Intrínseco, de Paul Thomas Anderson, talvez não possa deixar de recordar o perfil clássico de Humphrey Bogart, encarnando o emblemático Philip Marlowe na obra-prima de Howard Hawks, À Beira do Abismo (1946). De facto, ambos se confrontam com uma mesma tragédia simbólica: quanto mais se enredam no labirinto das coisas reais, mais a realidade parece funcionar como um sonho errático, ora envolvente, ora assustador.
E não deixa de ser curioso — e, por certo, sintomático — que ambos os cineastas trabalhem a partir de grandes romances: no caso de Hawks, é Raymond Chandler o autor adaptado; por sua vez, P. T. Anderson, acumulando a tarefa de argumentista, colhe inspiração em Thomas Pynchon (Vício Intrínseco, ed. Bertrand, 2009). Estamos, de facto, perante estruturas fílmicas que são indissociáveis de uma admirável capacidade de recriação das matrizes literárias.
Para além das muitas singularidades da mise en scène de P. T. Anderson, as diferenças de Vício Intrínseco começam, como seria inevitável, na própria época retratada. Digamos que Sportello emerge como um náufrago das utopias e ilusões dos hippies da década de 60. E não apenas por causa das substâncias mais ou menos ilegais que consome; sobretudo porque, tentando compreender e controlar uma rede de muitos e sinistros interesses, ele vai descobrindo, através de uma consciência nem sempre muito alerta, que o seu lugar no interior dessa rede pode ser o de um mero peão dotado de poderes mais que ilusórios.
P. T. Anderson arquitecta, assim, mais um prodigioso filme coral (para colocar a par de Magnólia, lançado em 1999) em que, através de um método a que apetece chamar jazzístico, vai explorando temas e variações de um universo sempre à beira da implosão emocional.
Uma vez mais também, nada disso é indiferente à sábia administração de um elenco em que, além da complexa vulnerabilidade exposta por Phoenix, encontramos, por exemplo, o perverso romantismo de Katherine Waterston ou a tocante frieza da cantora Joanna Newson, compondo a discreta mas fundamental personagem de Sortilège — através da voz off, ela empresta uma ilusão de ordem a toda esta paisagem instável em que ninguém possui uma identidade segura.

Quando paro um filme a meio para o ver o que resta dele no outro dia é mau sinal, muito mau sinal. Foi o que me aconteceu o aborrecido e secante “Vício Intrínseco”.
Este tem um elenco de luxo, mas isso não é tudo e não impediu que eu achasse este filme uma treta. Houve demasiados momentos em que eu quase adormeci a ver este “Inherent Vice”.
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Lê a análise completa em http://osfilmesdefredericodaniel.blogspot.pt/2015/06/vicio-intrinseco.html
Cumprimentos, Frederico Daniel
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