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A pintora e a inveja desmedida de um falhado

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

O novo filme do realizador de “Sweeney Todd” e “Marte Ataca” só tem alguma excentricidade na história bizarra e verídica que relata, já que, de resto, não encontramos ali muitos dos ingredientes habituais no imaginário de Tim Burton.

Há em Tim Burton uma faceta que poucos parecem valorizar: a de um retratista dos solitários, dos génios criativos, ou até daqueles iludidos pela sua suposta genialidade. Todos eles cabem no universo Burtonesco, sejam inspirados em pessoas de “carne e osso”, sejam puras criações do realizador. E em Olhos Grandes, encontramos tanto a mulher talentosa que se esconde do mundo, como o homem que quer ser aclamado graças ao trabalho dos outros – e, ao que parece, são ambos figuras reais.

É a continuação de uma trademark reconhecível. Burton está muitas vezes preocupado não só em recuperar figuras estranhas e obscuras recordadas pela cultura popular (relembremos Ed Wood, que é ainda o seu melhor filme), como também em criar as condições necessárias para as personagens conseguirem adquirir o seu próprio espaço, físico e psicológico, dentro da aparente normalidade conformada do quotidiano (vale a pena rever Eduardo Mãos de Tesoura, e a luta de alguém, que a comunidade toma por “aberração”, por conseguir integrar-se no meio que o acolhe).

Podemos ainda mencionar o Willy Wonka de Charlie e a Fábrica de Chocolate, personagem excêntrica que esconde, entre tantas manifestações do seu ego e do seu império achocolatado, dilemas e traumas do passado que nunca conseguiu resolver. Olhos Grandes segue a linha desses filmes e de tantos outros ao pegar numa figura fechada em si mesma, mas que encerra no seu percurso uma história surpreendente, que ilustra bem o poder da fama e do mediatismo – quando são atribuídos a quem não os merece. Mas não há nada na abordagem visual, nem da estrutura da história, que nos faça pensar em Tim Burton.

É uma narrativa mais convencional, daquelas que começam logo por nos avisar que estamos prestes a contemplar uma história baseada em factos verídicos. Num mundo fofinho, a protagonista (Amy Adams) perde a inocência e a timidez perante a sociedade ao ser vítima de uma fraude arquitetada engenhosamente pelo seu marido (Christoph Waltz). É isso que Olhos Grandes aborda em primeiro lugar: a relação atribulada entre estas duas personagens, através das manobras egoístas do homem, e da incapacidade da mulher talentosa de abandonar aquele espaço fechado, em que pinta quadros para ficarem, depois, sob a assinatura de uma outra pessoa.

Mesmo que não pareça ter a marca de Tim Burton, Olhos Grandes só poderia ser por ele realizado. Pelas características psicológicas e também pela oposição que é vincada entre o mundo alegre das aparências e o outro lado, o da perda da inocência e do domínio do “mal”. E Amy Adams é não só deslumbrante neste papel (um dos melhores que interpretou nos últimos anos), como também adequadíssima para ele mesmo. Já que falamos de olhos quando lembramos a pintura de Margaret Keane, é interessante notar como o olhar da atriz nos transmite tudo, fazendo grande parte do conteúdo emocional do filme. Um olhar perdido, desesperado, tímido, e que é o único elemento necessário para conseguirmos entender toda a evolução da personagem.

Há tanto de comédia como de tragédia nesta história, se bem que nem uma nem outra conseguem ser muito bem trabalhadas. São os atores que salvam o dia, não só Adams e Waltz, como também toda a série de secundários que os rodeiam. E Tim Burton consegue impor as suas marcas através de uma realização que capta, com o auxílio de alguns engenhos criativos, pequenos pormenores do espaço cénico e narrativo.

O final é repentino, mas o filme, apesar de tudo, consegue ter alguma inspiração, e não estar sempre subjugado às intenções massificadas e convencionais do argumento. E além de uma inacreditável história de oportunismo e da incredulidade dos media, Olhos Grandes analisa levemente a noção de arte e a banalização industrial que se pode proporcionar com os objetos artísticos, que se tornam “produtos” de mercado devido às exigências gananciosas de alguns indivíduos. É uma obra à la Tim Burton sem aparentemente mostrar indícios disso, e que não está, felizmente, “ao nível” dos seus piores filmes.

“Big Eyes”
Realizador: Tim Burton
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter
Distribuidora: NOS Audiovisuais
3 / 5

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