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A culpa é do caubói

Texto: JOÃO CARLOS SANTANA DA SILVA

Alexandra Lucas Coelho recarregou baterias e, dois anos depois do seu primeiro romance (E a Noite Roda, 2012, vencedor do Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores), publica o segundo, ‘O Meu Amante de Domingo’, também na Tinta-da-china.

Foi no primeiro domingo depois de o caubói estrear o texto que a narradora teve a ideia. É ela mesma que confessa: quer matar o gajo. Mas cedo se arrepende da terminologia escolhida. “Raramente digo um gajo”, pensa. “É mais faroeste com Mercado do Bolhão, tipo, o cabrão do filho da puta do caubói.”

Calma, não se detenham já nos palavrões. É preciso abstrair e voltar atrás. Tudo começa num Lada Niva de 1994, que avaria perto do Pinhal Novo num domingo de manhã e assim falha a missão de passar a ferro o malogrado caubói (uma das possíveis formas de o mandar para o outro mundo). É para dar solução a esta contrariedade mecânico-automobilística que o homem do reboque, entretanto chegado ao local, indica à condutora a pessoa certa para a ajudar: um mecânico na Bobadela. Estava encontrado o amante de domingo, que lhe passa a enviar mensagens de texto com longas reticências ventiladas por afrodisíacos espaços. “Aquilo não era uma gralha. Aquilo era a chamada da selva, onde a vida e a gramática podem enfim recomeçar”.

O mecânico dos SMS é apenas um dos amantes, amigos e figuras literárias que povoam o mundo – real e intelectual – da narradora e protagonista, uma loira cinquentona a viver no Alentejo mas criada em Canidelo, em Vila Nova de Gaia. É revisora literária e está a trabalhar no texto da edição portuguesa da biografia de Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro (O Anjo Pornográfico, de 1992, que, diga-se de passagem, é um grande livro). O dramaturgo e jornalista brasileiro é só uma dessas personagens que orbitam em seu redor. Mas ainda há James Joyce, Leopold Bloom, Samuel Beckett, Honoré de Balzac, o “Apolo” que conhece na natação, o “futuro Nobel” em cuja amizade encontra sentido prático, a gata Lolita, a dona da gata que está fora no Brasil, e mais uns quantos.

Esta protagonista feminina de pelo na venta descreve-se como “aquilo a que se chama mignone, cinquenta quilos aos cinquenta anos” e confessa gostar é de tipos pesadões, que a sufoquem quando estão em cima. Nada disso acontece com o caubói, que tem muito menos anos e quilos no corpo. “Demasiado novo e demasiado leve, duplo erro que dava para ver desde o começo”. Bomba relógio no coração da revisora, será o destino do caubói a deixar o leitor intrigado e curioso com o capítulo seguinte. Que maldade terá feito o caubói, que anda a escrever um texto para uma peça?

O Meu Amante de Domingo é uma história de vingança, e é isso que vai puxando a narrativa. “Alguém com uma vingança nunca está sozinho”, diz a protagonista. “Uma espécie de negativo da paixão, destruída a fotografia. O que foi luz é escuridão, o que foi escuridão é luz.” E essa obsessão vai entrecortando todo e qualquer encontro no livro. Dentro da cama ou fora dela, está lá presente. Sempre o “cabrão do filho da puta do caubói”.

E a vingança, tal como o amor, move montanhas, é certo. Mas, por vezes, no romance de Alexandra Lucas Coelho, a montanha vai ameaçando o inevitável, ou seja, que vai parir um rato. A escrita, cuidada mas solta, anda hesitante à procura da atenção do leitor em alguns dos curtos capítulos do livro, acabando por fechar com cenas que não fazem muito sentido. As escaladas dramáticas que a ação percorre, sobretudo quando se fala no caubói, perdem gás e acabam na cama de alguma personagem que, arrisque-se dizer, acaba por estar a mais. É o caso, como já se disse, do mecânico da Bobadela. O “Sancho Pança”, epíteto dado pela revisora ao mecânico. Dará para umas risadas, mas o que tem a ver com a história? Nada.

O que isto quer dizer é que não está em causa o domínio que a autora tem da língua portuguesa, confirmado nos artigos em jornais e nos anteriores livros (incluindo um de ficção). O que se passa é que o estilo escolhido para o stream of consciousness da narradora e protagonista, um sassy (não o Pererê) a pisar o risco entre o indomável e o insolente, esconde em algumas partes um conteúdo narrativo fragmentado. E nem se fala aqui das cenas de sexo, que acabam por ser das mais bem escritas – e descritas – do livro, mas sim da existência de excelentes passagens que são afetadas por alguns “foda-se” ou “caralho” puramente gratuitos.

As cenas de sexo vão da descrição crua à fronteira do cómico aparentemente acidental (mas muito voluntário). O melhor do sentido de humor da escritora vê-se em passagens tão simples quanto esta: “Nunca ter fodido com um mecânico não era o problema, o problema era nunca ter fodido com alguém que tratasse por você. Talvez por isso também não me tenha dado para dizer, foda-me, coma-me. Seria como estar numa novela porno em Cascais.” No entanto, a qualidade de escrita de Lucas Coelho também se espelha nas pontes subtis para a sua escrita de não ficção. “O decapitador dará a mão ao filho depois dos trabalhos do dia, talvez lhe cante uma canção”, diz. “Amor total e ausência de amor são quartos contíguos da mesma casa”.

Já o bombardeamento de vernáculo é uma história diferente. A declaração de intenções é prestada bem cedo, dizendo a protagonista que “sempre tive um problema com a autoridade, nunca deixei de dizer caralho quando me apetece, e dê lá por onde der sou tão livre quanto me sinto livre.” Ninguém pretenderá agrilhoar esta heroína do bom calão, mas o que fica na retina, muita vez, de parágrafos inteiros é apenas o palavrão. E é pena. Alexandra Lucas Coelho abusa deles aqui e ali, desequilibrando o texto e fazendo algumas expressões parecerem forçadas. Em Canidelo ou Gaia poderá servir para conjugar orações, mas mais a sul o palavrão é sobretudo para dar ênfase. Em O Meu Amante de Domingo, é difícil focar a atenção no que a protagonista quer transmitir, porque a fúria da linguagem vai distraindo e ofuscando.

O dilema dos palavrões neste romance da jornalista tem dividido os leitores entre os que acham que aqueles tornam a linguagem “grosseira”, e outros que aplaudem o desassombro ou a ousadia de escrever assim. A verdade poderá estar algures no meio. Há uma provocação ao leitor que é consciente, quase como uma segunda camada que obriga a pensar nas potencialidades adormecidas da língua portuguesa. “O lisboeta tem uma gravata na língua, acha que o palavrão é para quando se descuida”, diz a mignone do Canidelo. “Não entende que é ele quem faz do palavrão um descuido. Todo o palavrão tem arte, a gente lá em cima sabe”. E é por isso que se dirige ao amigo poeta, o “futuro Nobel”, como se dirigisse a todo os escritores do país: “Ainda não perdoaste ao mundo seres o filho do caseiro? Não escrever palavrões é uma prova de ascensão?” A pergunta é legítima. E quase justifica todas as palavras a mais no romance. Quase.

O Meu Amante de Domingo tem uma surpreendente qualidade, que não é muito habitual em Portugal: resiste a uma segunda leitura muito pouco tempo depois da primeira. Há, de facto, diferentes níveis de leitura no romance e encontram-se passagens que se ignoraram da primeira vez. Passagens tão bem construídas e com uma economia de frase tão rigorosa que passam despercebidas a quem estiver a delirar (ou a chorar pela alma ímpia da escritora) com as passagens sobre “quem ao longo dos séculos teve colhões e o caralho a quatro em português”. Como já se disse, é pena. Os palavrões na literatura são como maçãs. Um por dia não sabe o bem que lhe fazia, mas dois ou três já soa a gulodice.

Resulta um livro que não está à altura do potencial da escritora. Mas talvez não houvesse mais material por onde o espalhar. À primeira vista poderá parecer que se culpa a abundante distribuição de vernáculo, mas não. A culpa é mesmo do caubói, que não soube dar mais conteúdo para enriquecer a história.

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