Últimas notícias

“This” ou como as redes sociais são como as cerejas…

Texto: JOSÉ MIGUEL SARDO

… chega-se rapidamente ao caroço. A nova rede social “This” ousa, pela primeira vez, limitar os utilizadores a uma mensagem por dia. Desde a rede Ello, sem publicidade, as novas praças públicas da net já não querem ser como o Facebook.

Foto: José Miguel Sardo

As amizades do Facebook, como os seguidores do Twitter e Pinterest, os admiradores do Instagram e Youtube, ou os espetadores do Vimeo, podem não durar para sempre, à semelhança dos amores dos sites de encontros na Internet. Porque os comportamentos na rede não podiam deixar de ser iguais àqueles offline, as incitações à “traição” ou à revolta contra os gigantes da convivialidade virtual multiplicam-se nos últimos tempos. A tentação mais recente vem de uma nova rede social que se propõe transformar a cascata de informação quotidiana numa única gota. “This” é antes de mais uma promessa de um retiro numa cabana da montanha ou da praia, longe do bulício do Facebook; um universo onde a poesia pode não ser mais do que uma forma de resignação face ao débito lento da internet móvel.

No subúrbio da “Matrix”
A rede social criada pelo “inovador digital” Andrew Golis, “empresário em residência” no grupo media de The Atlantic, é a segunda do género, nos últimos meses, a explorar o mercado dos “pecados” do Facebook, ou do seu inglório concorrente da Google. Uma vaga que parece, no entanto, seduzir mais os media que os utilizadores e cujo declínio arrisca-se a terminar trending topic nas redes rivais, como ocorreu com o MySpace, ConnectU, Path ou, recentemente, Diaspora. Há uns meses atrás, outra rede, desta feita, “pós” ou “anti” Facebook, tentava a sorte ao prometer respeitar os dados privados e não ceder às tentações intrusivas da publicidade – Ello. Um novo espaço virtual, à semelhança de “This”, num cenário minimalista, nesse ambiente austero venerado pelos utilizadores do “Reddit”, tons cinzentos de bastidores, quase monocromáticos, visual de linha de código com reminiscências MS-DOS, subúrbio dos neons das Matrix rivais. Em linha desde o ano passado, e por enquanto disponível em modo “beta”, acessível apenas por convite, “This” explora também uma das falhas mais apontadas ao frenético clube de amigos de Zuckerberg: apenas 12% das mensagens publicadas são lidas pelos utilizadores.

O pós “Second Life”
Estrategicamente alternativo, Andrew Golis afirma não estar em competição com o Facebook e provavelmente estará a dizer a verdade. Desde a experiência virtual do agora quase desértico mundo 3D de “Second Life” ao realismo minimalista de “This”, as redes sociais, mesmo as alternativas, não parecem ter ensombrado o predomínio do Facebook. Ao mesmo tempo, apesar de rivais, todas estas redes parecem não conseguir contrariar a convivialidade, sem limites, dos seus utilizadores que, antes da “praça pública” do Facebook e mesmo na pré-história da World Wide Web, já se agrupavam por interesses e tópicos, nos fóruns das chamadas BBS’s. Como o Instagram, Tumblr, Pinterest ou a rede de contatos profissionais Linkdin, “This” propõe-se a criar um novo espaço de coabitação, igualmente generalista, mas mais zen e mais selecto, no tipo de informações partilhadas, nem que seja por uma simples questão de tempo (24 horas até à próxima mensagem). Um espaço mais de leitura do que de escrita onde a principal interação é um camarada “Thanks”, a alternativa do “This” ao emotivo “Like”, o discriminativo “Favorite”, ou o contabilístico “+1” da rede social do Google. Como se depois de dezenas de comentários, fotos e vídeos ao longo do dia, fosse finalmente necessário guardar apenas uma coisa, como quem parte para uma ilha deserta. Sem estremecer face a esta nova ofensiva dos chamados “anti”-Facebook, o site de Zuckerberg realizou recentemente uma alteração de algoritmo que, supostamente, permite uma maior visibilidade das mensagens, acompanhando as tendências da discussão do momento – uma modificação que poderá diminuir a diversidade de tópicos. O Twitter também reagiu às críticas de imediatez e cacofonia vindas dos novos competidores, e decidiu mesmo violar a sagrada regra dos 140 caracteres para abrir ao público a extensão Medium, uma plataforma de “mini-bloggs” até agora reservada a algumas personalidades, que permite integrar textos longos com fotos e vídeo dentro do fluxo da rede social.

Do falatório ao auditório
A chegada da rede social “This”, sem abalar o monopólio do Facebook, revela uma mudança de tendência no formato de informação ou comentário de “última hora” que ajudou, em parte, a consolidar as, agora, “velhas” redes sociais. Sem ser tão ousada, no papel, como a mítica revista francesa L’Egoist – sem data de publicação e com uma periodicidade desconhecida – “This”, na rede, promete reconciliar-nos com o tempo dos noticiários da hora do jantar, ou a leitura de mesinha de cabeceira. Uma forma original de “curadoria” de informação quando é fácil perder-se a cada hora nas marés de dados, mas também um tempo mais lento, de baixo débito de frenesi, próximo da nova vaga de jornalismo longform (artigos longos). Alguns jornais e canais de informação internacionais criaram já contas na nova rede e vai ser interessante acompanhar como escolhem e a que hora escolhem a notícia do dia. Longe da informação ao segundo, da reação ao minuto e do comentário à hora, visto do “This”, o mundo promete ser muito mais pacífico e, talvez, mais coerente. Para quando uma rede social que permita apenas enviar uma mensagem por ano?

Para escapar-se ou testar: This , Ello , Medium ou Second Life.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: