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Cinco dias para descobrir histórias da cultura judaica

Texto: NUNO GALOPIM

A terceira edição da Judaica – Mostra de Cinema e Cultura arranca amanhã no Cinema São Jorge com a antestreia do filme ‘Labirinto de Mentiras’, de Giulio Riccarelli.

'Labirinto de Mentiras' é o filme de abertura

Começa já amanhã a terceira edição da Judaica – Mostra de Cinema e Cultura, que apresenta até domingo, na sua etapa lisboeta, um conjunto de filmes (entre ficções e documentários) que têm o assinalar dos 70 anos do fim da II Guerra como um dos temas desta edição que, como as anteriores, procura através de produções provenientes de vários pontos do globo, dar-nos perspetivas sobre vários aspetos da cultura judaica.

Setenta anos depois do armistício e da libertação dos campos de concentração, as histórias então ali reveladas continuam a trazer, sobretudo, novos “pontos de vista”, como explica à MdE Elena Piatok, diretora executiva da Judaica. Pontos de vista, de facto, como “como vemos, por exemplo, em Irmãos de Sangue, o filme austríaco que nos oferece um olhar desde o lado dos perdedores, ou Noutro Lugar que, com grande humor e pungência retrata as complicadas relações entre israelitas e alemães, ou ainda duas das antestreias nacionais, Labirinto de Mentiras, que revela um episódio histórico muito pouco conhecido”, ocorrido “décadas depois de acontecido o Holocausto”, e ainda “o belíssimo Corre, Rapaz, Corre, uma saga de sobrevivência e resiliência verdadeira que foi a história de tantos e tantos homens e mulheres cuja grande tragédia foi ter nascido entre 1939 e 1945”, descreve.

Para Elena esta abertura a novos pontos de vista surge tanto no cinema de ficção como no documental. Mas a diretora da Judaica não esconde um gosto particular por poder mostrar “documentários que dificilmente irão passar nos ecrãs portugueses”. Assim sendo, e continuando a identificar a presença de novos pontos de vista sobre a história do Holocausto, Elena Piatok refere o filme Gabinete 06, “que vai remexer na preparação do julgamento de Eichmann, figura que ainda tanto nos fascina, mas que conta também histórias dramáticas de outros protagonistas envolvidos”. E não esquece as curtas, onde há “enormes surpresas em pequenas jóias como são O Nariz de Salomea, Uma Boa História e, muito especialmente Estranhos em Xangai da mundialmente famosa actriz Joan Chen”.

Os filmes que a partir de amanhã veremos no Cinema São Jorge são o resultado de mais um ano de visionamentos e procura de novos títulos a apresentar. Onde vão surgindo os filmes? “Navegar, navegar, e navegar na internet, estar muito atenta a tudo o que acontece nos festivais de cinema judaico por todo o mundo e não só” revela Elena, que confessa “ter a sorte” de que os filmes de que mais gosta “não sejam mostrados no cinema comercial ou em outros festivais” como, de resto já lhe “aconteceu tantas vezes”.

Nem só o Holocausto domina a programação. Os documentários Natan, de Paul Duane ou Gett: Gett: O Processo de Viviane Amsalem, de Ronit e Shlomi Elkabetz são dois casos notáveis da programação deste ano e histórias que vale a pena conhecer. “Certamente ambas notáveis e imperdíveis”, sublinha Elena Piatok. A vida de Bernard Natan “pai obliterado da história do cinema francês, ou a esmagadora crónica da Vivian Amsalem, nesta culminação da trilogia dos irmãos Elkabetz sobre um casal destinado ao fracasso e a luta dela por se libertar do jugo do marido” são certamente dois títulos a reter entre a programação deste ano. Elena faz ainda questão de mencionar “o belíssimo Felix e Meira que muito merecia ter sido também uma antestreia nacional ou os arrepiantes Escravo de Deus e 24 Dias que ecoam tristes acontecimentos muito recentes nesta Europa que se torna cada vez mais ilegível”, isto “sem omitir, já numa nota mais leve e sentimental, o adorável senhor Kaplan” com que encerra no domingo a Judaica.

Entre os convidados da edição deste ano a Judaica – Mostra de Cinema e Cultura, conta com as presenças de Myriam Anissimov, biógrafa de Romain Gary (que estará na Sessão Especial “Romain Gary: a sua História na História”, amanha, às 18.30), Jerzy Stuhr, realizador, encenador e actor polaco vem apresentar O Cidadão que revisita a história da Polónia do pós-guerra e Schlomi Elkabetz, co-realizador e argumentista de Gett: o Processo de Viviane Amsalem que, “nos revela que na sociedade moderna israelita um divórcio só se pode consumar com aprovação do marido e de um Tribunal Rabínico”, como se descreve numa nota de imprensa.

Entre as novidades deste ano há uma extensão a Belmonte, entre os dias 7 e 10 de maio. Haverá novas possíveis extensões no futuro a outras localidades? “Era uma honra ter mais propostas de colaboração em distintos pontos do pais”, diz-nos Elena Piatok. “Oxalá que o sucesso garantido em Belmonte desperte o desejo de muitas outras cidades em partilhar esta bela colecção de obras com que se pretende divulgar a riqueza e universalidade da cultura judaica”.

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