Gerard Way: “Foi libertador não fazer parte dos My Chemical Romance”
Texto: JOÃO MOÇO
“Não estava disposto a fazer quaisquer cedências para ter as minhas canções a dar na rádio ou a passar na MTV”, afirma Gerard Way momentos antes de iniciar em Lisboa a sua primeira digressão europeia a solo, dois anos depois de ter colocado um ponto final nos My Chemical Romance (MCR). O grupo que Gerard formou com o irmão Mikey Way, após o atentado de 11 de Setembro, foi um dos grandes fenómenos entre adolescentes deste início de século XXI, tendo vendido mais de cinco milhões de discos em todo o mundo. Mas o cantor quer desligar-se desse passado e no seu concerto focou-se somente no seu álbum a solo, Hesitant Alien (2014), uma belíssima carta de devoção à escola glam rock.
“Foi libertador já não fazer parte dos MCR”, confessa. O músico tem, ao longo dos anos, abordado os problemas que atravessou com depressões e para si o fim do grupo foi o primeiro passo para a sua recuperação. “Qualquer depressão que estivesse a enfrentar na altura era resultado de não seguir o meu coração e os meus instintos e sair [da banda]. A minha relação com os MCR foi longa e foi durante esse período que estive deprimido. Ao sair consegui dar os primeiros passos para uma recuperação”, afirma.
Gerard Way debate-se frequentemente com o sentimento de isolamento do resto do mundo. Essa sensibilidade levou-o em Lisboa a fazer um pequeno discurso de apoio à comunidade transgénero e “a todos aqueles que não pertencem à normativa binária de género”. Tem sido assim desde adolescente, quando preferia ouvir grupos de britpop como os Blur ou Pulp do que os nomes grunge que dominavam os EUA (e o mundo) no início dos anos 1990. “A britpop foi a minha resposta ao grunge, música que eu nunca consegui gostar, exceto dos Nirvana, mas sempre os vi como uma banda punk. Mas na altura não existia nada além de grunge e quando surge do Reino Unido a britpop apaixonei-me imediatamente. Era uma música que falava diretamente a quem crescia num contexto sem esperança, que era o que eu sentia ao viver em New Jersey”, conta.
Ser um adolescente nos EUA no início dos anos 1990 e não seguir na onda grunge colocou-o definitivamente à margem. “Fez de mim alguém ainda mais isolado. Eu e os meus dois amigos que ouviam britpop não encaixávamos em qualquer grupo”.
Ainda nos dias de hoje mantém esse sentimento, daí ter escolhido como título do seu primeiro álbum a solo Hesitant Alien. Desta vez foca-se no anos de sucesso que viveu a bordo dos MCR. “Uma pessoa envolve-se em situações das quais não quer fazer parte, ligadas à fama e à passadeira vermelha, dá entrevistas estranhíssimas em que num momento estão a falar do divórcio de alguém e de outros mexericos e depois estão a falar da tua música, o que não faz qualquer sentido para mim. [O título] aborda a minha falta de vontade de participar no mundo das celebridades”, refere.
Foi aos nove anos que teve a sua primeira guitarra, um presente da sua avó (que homenageou na canção Helena, há dez anos). Com sete começou a criar as suas primeiras histórias de BD. “Ensinei-me a mim mesmo a desenhar durante a escola primária e a escrever na máquina de escrever da minha avó”, revela. Música e BD mantiveram-se em paralelo como as suas formas de expressão artística. O músico é autor de comics como The Umbrella Academy (publicada pela Dark Horse e com a qual venceu o prémio Eisner), The True Lives of the Fabulous Killjoys (também Dark Horse), e no ano passado estreou-se na Marvel, tendo criado uma história fora do universo narrativo da personagem Homem Aranha. “Foi uma boa oportunidade. O que mais me entusiasmou foi poder criar toda uma nova mitologia tendo por base esta personagem.” O célebre Grant Morrison é um dos que mais elogiam esta sua faceta. “Ele é, a nível de BD, a minha maior influência. Mas o mais estranho foi ter-me tornado amigo dele, passarmos férias juntos. Isso foi algo que nunca esperava que acontecesse”.
Ainda que agora esteja focado neste seu primeiro disco a solo, o músico não coloca de parte outros projetos: “Ainda posso ter outra banda ou escrever um livro. Amanhã posso realizar um filme, tudo está em aberto, mas agora estou centrado neste disco e isso é muito natural para mim”.
Veja aqui os mais recentes telediscos retirados de Hesitant Alien:

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