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Nova biografia sobre Sandy Denny lançada esta semana

Texto: HELENA BENTO

Escrita por Mick Houghton, jornalista e crítico musical, a nova biografia sobre Sandy Denny resultou de uma investigação que envolveu a consulta de documentos de arquivo, inéditos e entrevistas a amigos e outros músicos.

Uma nova biografia sobre Sandy Denny, considerada a musa da folk britânica, é lançada dia 5 de março pela editora britânica Faber and Faber. Intitulada I’ve Always Kept a Unicorn – um dos versos da sua balada ao piano, Solo – a biografia, escrita por Mick Houghton, jornalista e crítico musical, resultou de um trabalho de investigação que envolveu a consulta de documentos de arquivo, entre os quais as entrevistas que Sandy deu a jornais como o extinto Melody Maker (que a elegeu duas vezes, em anos sucessivos, a melhor cantora do ano), documentos inéditos e pessoais, como os seus cadernos, e entrevistas a amigos e músicos.

Apesar de ter visto o seu talento reconhecido (elogiavam-lhe a voz, o carisma, agudizado por uma certa timidez, e o engenho para escrever canções), Sandy nunca se mostrou, contudo, muito segura. A sua insegurança era, aliás, considerada como crónica e causa de muitos excessos. Ashley Hutchings (um dos fundadores dos Fairport Convention), citado num artigo publicado no jornal britânico The Guardian, aborda o assunto: “Acho que Sandy nunca esteve verdadeiramente confortável. Era uma alma inquieta. E muito nervosa: nervosa por ter de atuar, nervosa por ter de viajar – sobretudo de avião. Acho que a bebida e as drogas foram, portanto, um suporte. Sandy precisava de pessoas à sua volta, pessoas de quem gostava e em que confiava, para fazerem com que continuasse, para lhe dizerem o quão boa ela era. A questão, claro, é esta – como é que se pode ser tão inseguro tendo tanto talento? Mas Sandy era”.

Alexandra “Sandy” Denny nasceu em 1974 e cresceu em Wimbledon, em Londres. Foi enfermeira durante algum tempo mas acabaria por vir a desistir da profissão quando começou a dedicar-se à música a tempo inteiro. Numa entrevista à BBC, Sandy fala sobre essa fase da sua vida, contando que quando estudava no Kingston College of Art havia um barco ancorado junto às margens de um rio que era também um clube de folk, onde ela costumava ir, saindo de lá quase sempre com a certeza de que conseguiria cantar tão bem quanto aquelas pessoas que escutara. Foi ali, no barco ancorado, que atuou para o público pela primeira vez.

Na primavera de 1968, juntou-se aos Fairport Convention, dando um novo rumo à banda, conduzindo-a pelos caminhos inexplorados da folk rock britânica. Foi também nesta altura que começou a afirmar-se e a aperfeiçoar-se como songwriter. Linda Thompson, cantora e amiga próxima, ex-mulher de Richard Thompson, recorda-se de ouvir Sandy dizer-lhe que ia tentar escrever algumas músicas e de pensar para si mesma: “Isso é ridículo. Ela não vai conseguir fazer isso”. Na altura, ainda não havia muitas mulheres a escrever canções. Quando Sandy cantou a Who Knows Where the Time Goes, uma das suas canções mais conhecidas, que regravara com os Strawbs (primeira banda que a acolhera), Linda quase “caiu da cadeira”.

Em 1969, deixou os Fairport Convention e fundou os Fotheringay com o australiano Trevor Lucas, seu futuro marido, banda que viria a abandonar para se dedicar a um projeto a solo. Um ano depois de lançar o primeiro álbum, The North Star Grassman and the Ravens (1971), que inclui algumas das suas composições mais célebres, como Late November e Next Time Around, Sandy esteve à conversa com um jornalista da BBC. A certa altura, o jornalista pergunta-lhe, aludindo à letra da canção que dá nome ao álbum, em que direção ela crê que vento levará o seu barco. E Sandy responde, atribuindo o lirismo da frase à sua imaginação: “Eu vivo no meu próprio mundo. Vivo mesmo. Não consigo dizer para onde é que o vento vai levar o meu barco, mas estou ansiosa por descobrir”.

Foi também nesse ano de 1971 que Sandy foi convidada por Led Zeppelin para fazer um dueto com Robert Plant em The Battle of Evermore. A colaboração resultou em pleno, garantindo a Sandy um certo estatuto, até em termos de sucesso comercial, apesar de nunca ter recebido um tostão por isso. Nos anos seguintes gravou mais três álbuns a solo e um com os Fairport Convention, a que regressara por um curto período de tempo.

Sandy Denny morreu no dia 21 de abril de 1978, vítima de uma hemorragia cerebral, causada por uma queda nas escadas da casa de campo onde, semanas antes, passara férias com os pais e a filha, Georgia Lucas, na Cornualha (Inglaterra). Tinha 31 anos. A sua morte, em circunstâncias trágicas, e muitas vezes associada ao consumo excessivo de álcool e drogas, transformou-a num mito. Foi esta a direção que o vento quis para o seu barco. Agora sabemos.

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