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O Festival é nosso!

Texto: JOÃO CARLOS CALLIXTO

Sérgio Godinho, José Mário Branco, Jorge Palma, Fernando Girão, Paulo de Carvalho… São os nomes de alguns dos compositores e intérpretes que concorreram ao Festival da Canção de há precisamente 40 anos.

Pormenor da capa de "A Boca do Lobo"

Tudo a postos para a final do Festival da Canção de 2015? Depois de termos assistido a duas semi-finais, em que o voto de um júri composto pelos próprios compositores voltou a ter peso, recuemos então quarenta anos…

Em 1975, meses antes do Verão Quente, o evento maior da canção nacional queria mostrar que também por ali passavam “os ventos de Abril” – nome aliás de uma canção de um dos muitos grupos formados nessa altura, os Movimento, publicada ainda em 1974.

O 12º Grande Prémio TV da Canção – designação então do Festival – teve a apresentação de Maria Elisa Domingues e de José Nuno Martins. Com dez canções e realizando-se em dois dias – 14 e 15 de Fevereiro de 1975 – o primeiro destes marcaria também a estreia do filme Índia, de António Faria, onde a actriz principal era nem mais nem menos que a própria Maria Elisa. Já José Nuno Martins, entre outras coisas, tinha sido o “assessor musical” do histórico programa Zip-Zip, que em 1969 constituíra uma “lufada de ar fresco” na televisão nacional.

Dos nove concorrentes ao Festival de 1975, apenas um tinha marcado presença nesse outro programa: Jorge Palma, como membro do grupo rock Sindicato, sendo também um dos cinco cantores desse ano que prossegue carreira até aos dias de hoje. Nessa época, tinha já gravado um single, em 1972, com The Nine Billion Names of God (Orfeu) – onde curiosamente contava nos coros com Duarte Mendes e Paulo de Carvalho, seus concorrentes neste Festival – e um EP, A Última Canção (Zip-Zip), que marcou o seu primeiro passo na escrita de letras em português. Foi seu mestre um nome maior nessa arte: José Carlos Ary dos Santos.

Palma cantou duas canções: Viagem (l.: Jorge Palma / m.: Nuno Nazareth Fernandes), que não renegava algum rock progressivo, e que se ficaria pelo 8º lugar, e O Pecado Capital (l. e m.: Jorge Palma – Pedro Osório), que termina uma posição acima. Esta última canção era no entanto um dueto com outro nome que, tal como Palma, viera do rock: Fernando Girão.

Como membro da Heavy Band, de Filipe Mendes, Girão grava dois singles em Angola, e a solo estreia-se com o seu alter ego de então, Very Nice, através do single Engrenagem (Orfeu), de 1972. Um segundo single, Tirano Vem, Tirano Vai (Zip-Zip), chega dois anos depois, e trazia no lado B um poema do chileno Pablo Neruda adaptado para português por Ary.

Um outro parceiro de canções de Jorge Palma presente neste festival foi Paco Bandeira. Com Batalha-Povo (l.: César de Oliveira /m.: Paco Bandeira), marca o seu lugar na revolução, algo que o terceiro álbum de originais, O Alentejo Quer um Homem Que Saiba Mandar (Decca), publicado nesse ano, deixava também adivinhar. A canção de Paco fica em 6º lugar.

Melhores classificações conseguiram as duas canções que Paulo de Carvalho defendeu no certame. Um ano depois de ter sido a primeira voz de Abril, com E Depois do Adeus, o ex-baterista dos Sheiks volta com Com uma Arma, com uma Flor (l. e m.: José Niza) e com Memória (l. e m.: Fernando Guerra), que ficam respectivamente em 3º e 4º lugares, e que acabam por ser retratos pungentes do pré e pós-74.

Uma posição abaixo fica José Mário Branco, que surge como líder do GAC-Vozes na Luta, e que nos pede para que estejamos Alerta! (l.: GAC /m.: José Mário Branco). Essa seria também a composição que inauguraria a discografia deste colectivo pioneiro no cruzamento da canção de intervenção com o mergulhar nas nossas tradições.

No lote dos músicos com carreira curtas e/ou menos conhecidas nos dias de hoje, temos Duarte Mendes, então um capitão de Abril e que concorria ao Festival desde 1970. A vitória neste ano de 1975, com Madrugada (l. e m.: José Luís Tinoco), foi também o seu canto do cisne em termos de visibilidade pública, retirando-se depois de nove singles gravados e um LP em nome próprio, além de ser uma das vozes no conceptual Fala do Homem Nascido (Orfeu), de 1972.

Na ordem quase inversa da tabela, o penúltimo lugar da noite coube a Vítor Leitão, com Canção Acesa (l. e m.: Rita Olivaes). Em 1970, o cantor tinha já concorrido ao Festival com “Adeus, Velha Amada”, como membro, ao lado de Manuel José Soares, do Duo Orpheu. Fernando Gaspar, com Leilão da Lata (l. e m.: Pedro Jordão), seria no entanto o grande perdedor, e nem o estatuto de pioneiro do rock em Portugal o salva – Gaspar tinha sido um dos dois Conchas, que em 1960 gravam o EP Caloiros da Canção 1, ao lado de Daniel Bacelar, dando assim carta de alforria ao rock em versão lusa. A canção que o cantor defendeu seria aliás a única do Festival de 1975 a não ter edição em disco.

Para o fim, outra presença inédita: a de Sérgio Godinho, embora como compositor e não como cantor. Finalmente a gravar e a criar em Portugal, o autor de Liberdade entrega ao rocker Carlos Cavalheiro uma canção explosiva: A Boca do Lobo, que fica em 2º lugar, apenas dois pontos abaixo da vencedora. Para quem não se sentia amedrontado pelo timbre de um Robert Plant, Cavalheiro – depois da aventura Xarhanga, com Júlio Pereira, com quem grava dois singles em 1973 – mostra como podia ser feito o rock de combate. E no álbum Bota-Fora (Orfeu), editado nesse mesmo ano também ao lado de Júlio Pereira, cantava, com versos de César Augusto, “as cordas que nos amarram / começam a rebentar”.

Estamos hoje em 2015, mas se este festival de há 40 anos nos pode ensinar algo – e basta passar os ouvidos pelas canções que nele desfilaram para aprendermos tanto sobre “a música em que vivemos”, como dizia o subtítulo de um álbum de Paulo de Carvalho também de 1975 – é a lembrar que hoje ainda “há tanto por fazer”. A esperança não foi mesmo vendida…

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