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Uma outra visão para a mitologia de Drácula

Texto: NUNO GALOPIM

No mais recente álbum das aventuras de Jhen – personagem criada em 1978 por Jacques Martin – é imaginado um encontro com a figura mítica de Vlad Dracul, em plena Idade Média.

Começou por lhe chamar Xen, quando pela primeira vez o fez nascer nas páginas do Le Journal de Tintin em 1978. Mais tarde acabou por mudar-lhe o nome para Jhen. Tal como o egípcio Kéos, o grego Orion, Loïs no século XVII ou Arno nos tempos de Napoleão, Jhen é uma das muitas criações de Jacques Martin que seguem os mesmos princípios com os quais imaginou Alix em 1948 e, quatro anos depois, Lefranc (um jornalista dos tempos contemporâneos), personagens que colocaram o autor na linha da frente dos autores de BD franco-belga.

Jhen Roque – o seu nome completo – é um jovem escultor (e também pintor), que cruza os espaços da França e outros destinos até à Europa Central no tempo da Guerra dos Cem Anos. No primeiro álbum (que surgiria em livro em 1984) vimo-lo junto de Joana d’Arc, encetando uma relação com os espaços, hábitos, formas, mas também figuras daquele tempo, entre as quais os reis franceses Carlos VII e o delfim Luis (futuro Luis XI). Como entre as demais aventuras de outros heróis que Jacques Martin e os seus colaboradores e descendentes colocaram em vários tempos e lugares, o universo temporal de Jhen é historicamente acautelado, buscando uma certa verosimilhança entre factos, personagens e imagens, sobre a qual cresce depois a (natural) ficção. Da análise do contexto histórico nas aventuras de Jhen já surgiram inclusivamente comunicações para publicações na área de história, como por exemplo esta.

Com primeira vida entre 1984 e 1990, as aventuras de Jhen conheceram um impasse de uma década após Le Secret des Templiers (1990), ao qual se seguiria L’Archange no ano 2000. Foi talvez através da publicação regular de títulos na série paralela de viagens – através das quais o universo de Jaques Martin usa personagens para dar a conhecer lugares e grandes construções, em álbuns que juntam texto e ilustrações – que Jhen voltou à vida, conhecendo novamente um ritmo regular de edições.

Entre 2005 e 2008 surgiram seis álbuns de viagens de Jhen, levando-o a várias paragens. Assim surgiram Les Baux de Provence (desenho de Yves Plateau e Benoît Fauviaux, 2005), Paris volume 1 : Notre-Dame (de Yves Plateau, 2006), Carcassonne (de Nicolas Van De Walle, 2006), Le Haut-Koenigsbourg (de Yves Plateau, 2006), Venise (de Enrico Sallustio, 2007) e Strasbourg (com texto de Jacques Martin e Roland Oberlé e desenhos de Muriel Chacon, 2008). No mesmo ano em que surgia Strasbourg, o álbum Les Sorcières devolvia Jhen à ficção. Desde então houve mais sete álbuns de viagens (o mais recente dedicado ao Vaticano) e quatro de aventuras, o mais recente, Draculea, levando este universo a contactar com uma das mitologias da Europa Central com maior descendência em narrativas de ficção.

Draculea tem desenhos de Jean Pleyers, nome que vemos associado a Jhen desde o seu nascimento em 1978 e que desenhou quase todos os álbuns de aventuras do jovem escultor dos tempos medievais. As cores são de Corinne Pleyers, na sua terceira colaboração na série. A escrever encontramos dois estreantes neste universo. Jerry Frissen, um belga a residir em Los Angeles, é o autor da série sci-fi Les Zombies Qui on Mangé le Monde. Já Jean-Luc Cornette, que se estreou no jornal Tintim em 1989, assinou já álbuns como Central Park ou Morro Bay.

A visão destes dois estreantes ao chegar a um  terreno clássico ajuda a conduzir Jhen e o companheiro (também escultor) Venceslas numa longa caminhada até aos Cárpatos, onde o espera Vlad Dracul, príncipe da Valáquia que lhes quer confiar o adorno de alguns exteriores do castelo, ciente de quem a visibilidade de uma certa imponência na arquitetura traduzirá a expressão do seu poder. Sobretudo havendo por perto um inimigo vizinho com quem há escaramuças regulares.
Mesmo distante da figura do conde Drácula imaginado por Bram Stoker e por toda a descendência de vampiros que tem inundado a ficção (e até chegou a Marte com John Carpenter), o Vlad Dracul que aqui encontramos não é uma “criatura da noite” mas antes o antecendente histórico que as geraria num tempo futuro. É um autocrata bruto, sanguinário, impiedoso, que a dada altura chega mesmo a confiar a Jhen a educação do seu filho.

Com o cenário assim traçado, a narrativa ganha forma pela soma sucessiva de estanhas mortes e desaparecimentos, cabendo ao escultor o papel de detetive em paralelo, numa trama que integra bem as raízes ancestrais dos mitos associados a Vlad Dracul sem contudo sentir a necessidade de seguir a rigor as heranças sugeridas por Bram Stoker e os muitos que depois aprofundaram a exploração da memória deste antigo príncipe da Valáquia.

Tal como os anteriores álbuns da série, não parece que, ao contrário do que sucedeu com Alix e, a dada altura, com Kéos, seja ainda desta que Jhen conheça uma tradução para português.

“Draculea”, de Jean Pleyers (desenhos), Jerry Frissen e Jean-Luc Cornette (texto) está disponível em edição pela Casterman.

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