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NSA is watching you

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Vencedor do Óscar para Melhor Documentário, ‘Citizenfour’ mostra os bastidores do caso Edward Snowden, ligando uma série de factos impressionantes sobre o gigantesco “Big Brother” da vida real.

Num dos primeiros episódios da fabulosa série Sim Senhor Ministro, o protagonista Jim Hacker depara-se com um problema que poderá ser fatal para a sua própria carreira: ele quer criar uma base de dados com ficheiros sobre todos os cidadãos ingleses. E quando a opinião pública começa a encurralar o ministro, acusando-o de que esta criação só servirá para vigiar a vida de toda a gente, Jim defende que cada pessoa possa ter acesso ao seu ficheiro, impedindo que o mesmo seja consultado por terceiros. Mas o conselheiro do ministro, Humphrey Appleby, faz tudo para que Jim não consiga instituir a sua ideia.

O Ministro só tem duas hipóteses: deixar que o sistema se apodere dele (tal como aconteceu com os seus antecessores) e que os seus valores sejam derrubados pela força da burocracia, ou jogar com as estratégias de Appleby e dar a volta ao esquema interesseiro por ele criado.

Curiosamente, este episódio intitula-se Big Brother, e o papel de Jim Hacker nessa história rocambolesca faz-nos lembrar, em parte, o de Edward Snowden. Membro do sistema da NSA, ele conseguiu desmascarar uma parte dos processos muito duvidosos de espionagem dessa agência norte-americana, ao revelar vários dados e ao contar todo o seu esquema de funcionamento através da sua própria experiência. Snowden decidiu libertar-se do sistema para poder atacá-lo da melhor forma, e de facto, continuamos a sentir ainda hoje, os efeitos conturbados dos primórdios desta história com a mesma intensidade. Porque o tema não perdeu atualidade, e só ganhou ainda mais relevância com o passar de tão pouco tempo, desde que tudo aconteceu.

O filme de Laura Poitras cumpre um exercício de “exploração dos bastidores” da polémica, desde os primeiros encontros com Snowden até às maiores controvérsias geradas pela divulgação de informações sobre a NSA (como por exemplo, o caso de uma rutura diplomática entre os EUA e a Alemanha). Mas a acrescentar a tudo o que já sabíamos, que acompanhamos como se estivéssemos a fazer uma revisão da matéria dada, Poitras acrescenta outros dados insólitos, e atribui ao caso uma autenticidade superior – graças ao elevado realismo da câmara, da sólida construção da “narrativa” documental, e da exposição de vários pontos de vista sobre as consequências das ações de Snowden.

E se a ideia de vigilância em massa não é, somente, uma preocupação relevante para a atualidade, há em Citizenfour um lado ancestral e terrivelmente perturbante que demonstra uma atitude intrinsecamente ligada à noção de Poder. Tudo o que vemos no ecrã poderia ser de um filme de ficção científica futurista e orwelliano – mas tal como nos avisa Snowden a certa altura, nada do que nos é revelado (ou relembrado) neste documentário é ficcional. E por isso, Citizenfour é um documentário importante para os tempos que correm, mas que pega em temas, e medos, que continuarão a ser marcantes e perturbantes para a Humanidade, durante muitos e muitos anos.

Contudo, não são só os factos que fazem esta polémica, e por isso é que a visão de Poitras se torna mais interessante que todas as reportagens e investigações que foram já feitas sobre a NSA e Edward Snowden. A dimensão humana destas figuras cibernéticas é explorada com detalhe e precisão, o que nos faz entender os contornos do caso com outra perspetiva. Nisto incluímos o medo (as cenas que demonstram a paranóia de Snowden são algo insólitas) como também o sentimento de exclusão que o protagonista sente, já que não sabe se, alguma vez, poderá voltar a ver a família e a sua companheira – ou se alguma vez, a NSA os utilizará para chegarem a si.

O percurso do caso mostra-nos não só a parte do “making-of”, como também de todas as etapas, avanços e recuos que o caso viveu. Sentimo-nos próximos de Snowden, das suas hesitações, do seu medo constante, do constante dúvida sobre o que acontecerá daí para a frente. O futuro é sempre incerto para este homem, mas não há dúvida que, graças a ele, moldámos o nosso próprio pensamento, e a opinião pública mudou e começou a questionar estas máquinas de vigilância e o perigoso papel que podem ter para as próximas gerações.

Vale a pena voltarmos a pensar nas questões do filme, que agora, se tornaram tão “corriqueiras” – mas que não perderam nada do seu tom assustador e maquiavélico. Evitando a paranóia demonstrada por algumas personalidades que participam no filme, é nosso dever conhecer, pelo menos, algumas das organizações que pretendem bisbilhotar a nossa vida, através de esquemas construídos de uma maneira que ultrapassa a nossa própria imaginação (porque esse esquema entrou, de forma profunda, nas raízes do nosso simples e inocente quotidiano). Elas estão mais perto do que parece, como comprova este provocante ataque às instituições do poder. Um filme cuja descoberta é essencial para a compreensão desta era digital, dos seus problemas e das suas incríveis e chocantes ilusões.

“Citizenfour”
Realizadora: Laura Poitras
Distribuidora: Leopardo Filmes
4 / 5

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