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O 212 da Paris Review

Texto: HELENA BENTO

Saiu no início de março. As entrevistas desta edição prometiam ser particularmente interessantes – Lydia Davis – e particularmente reveladoras – Elena Ferrante. Estivemos a ler.

Comprei pela primeira vez a edição digital da Paris Review. É uma revista literária de Nova Iorque, fundada em 1953 por um grupo de amigos (Harold L. Humes, Peter Matthiessen e George Plimpton). A edição em papel tem periodicidade trimestral e o site é atualizado diariamente. Recomendo, desde já, a rubrica ‘On the Shelf’, de Dan Piepenbring, editor online. E também a ‘This Week’s Reading’, onde alguns colaboradores da revista, não fixos, escrevem sobre as leituras que fizeram nessa semana. No início de março foi, então, publicado o n.º 212. Quando abri o ficheiro considerei a possibilidade de avançar diretamente para as entrevistas. As desta edição prometiam ser particularmente interessantes – Lydia Davis – e particularmente reveladoras – Elena Ferrante. Mas não o fiz. Não li, porém, o primeiro texto. Li o nome do autor, Mark Leyner. Não sei quem é Mark Leyner, e o título do texto não era, afinal, Gone with the wind, como a princípio pensei, mas Gone with the mind, bem menos interessante, por isso avancei. Li os poemas de Charles Simic. O primeiro, January, fala sobre marcas de mãos de crianças numa janela gelada de uma pequena escola, sobre impérios que se erguem sobre a crueldade dos seus prisioneiros, que o sustêm, sobre um avô que gostava de gatinhar por baixo das saias das amigas da mãe que, em tardes solarengas, se sentavam no alpendre de sua casa a conversar e a beber chá. Charles Simic (n. 1938), servo-americano, é poeta, ensaísta e tradutor. Foi co-editor de poesia na Paris Review. Venceu o Prémio Pulitzer de Poesia em 1990 com o livro The World Doesn’t End, depois de ter estado entre os finalistas em anos anteriores. Recebeu também outros prémios, mas seria enfadonho enumerá-los aqui. Sobre ele escreveu Peter Stitt, correspondente do Georgia Review: “O facto de [Charles Simic] ter passado os seus primeiros dez anos de vida na Europa de Leste a tentar sobreviver à Segunda Guerra Mundial faz dele, de uma forma especialmente profunda, um escritor expatriado. É um dos poetas mais sábios da sua geração, e um dos melhores”.

A entrevista a Hilary Mantel, conduzida por Mona Simpson, vem nas páginas seguintes. Li-a a eito e quando acabei apercebi-me de que não me lembrava de quase nada (ainda agora não lembro). Lembrava-me das referências ao marido e da importância fulcral que ele teve e tem na sua carreira (provavelmente era ele quem enviava e respondia a emails e provavelmente continua a fazê-lo), lembrava-me da sua experiência no Botswana, onde deu aulas, e lembrava-me da conversa em torno das personagens dos seus romances históricos, se eram reais, se não eram, quais eram e quais não eram, quais eram mais ou menos e dentro dessas quais eram mais para mais ou mais para menos. Lembrava-me disso mas pouco mais. Perante duas hipóteses – a de ser uma leitora péssima, de fraca memória, ou a da entrevista ser, afinal, pouco interessante – optei sem piedade pela segunda. Sabia que ninguém ia levar a mal. E eu podia seguir despreocupadamente. Hilary Mantel nasceu Hilary Mary Thompson, em 1952. É inglesa e é autora de romances e contos. Foi a primeira mulher a receber dois Booker (Man Booker Prize), com os primeiros volumes da sua biografia romanceada de Thomas Cromwell, o ministro de Henrique VIII. Escreveu também um livro de memórias, Giving Up the Ghost. Em Portugal tem publicados O Livro Negro e Wolf Hall (Civilização) e O Assassinato de Margaret Thatcher, lançado este mês pela editora Jacarandá.

Saltei algumas páginas e parei na entrevista a Lydia Davis (n. 1947), que é publicada antecedida de um rascunho anotado e rasurado que viera a ser a sua introdução a The Gaze of Orpheus, de Maurice Blanchot, que traduziu para inglês. Na introdução é explicado que a entrevista começou numa sessão pública, em Oslo, que juntou Lydia Davis e o tradutor dos seus livros para norueguês, tendo sido retomada mais tarde, em duas sessões privadas na casa que a escritora partilha com o seu marido, o pintor Alan Cote, em Nova Iorque. Lydia Davis fala sobre as dificuldades de ensinar, sobre a preferência em manter as personagens anónimas, omitindo os seus nomes (“Sempre senti que nomear era artificial”), do seu primeiro e único romance, The End of the Story, que teve, segundo diz, como modelo ou um dos modelos “os longos monólogos” de Thomas Bernhard, e sobre as dificuldades em classificar os seus textos em poemas, canções, contos ou simplesmente histórias, tema que já abordara em entrevistas anteriores. Fala sobre as suas histórias em forma de cartas, a que chama “cartas de reclamação” (como aquela que envia a uma fábrica a reclamar o facto de a imagem que aparece na embalagem não corresponder ao aspeto do produto, publicada em Não Posso nem Quero, ou aquela que enviou a uma empresa de caramelos de menta, reclamando por causa da quantidade de caramelos contidos na embalagem, inferior à garantida no exterior da mesma), sobre o trabalho de tradução (Blanchot, Proust, Flaubert), as leituras da infância e as da idade adulta, a família (a mãe era escritora e o pai crítico literário), e a influência da música (teve aulas de piano quando era nova) na sua escrita. A entrevista é assim, muito direta, muito biográfica e muito bibliográfica. Não há frases bonitas, frases de montra e de mural, frases que vão ter esse destino trágico que é a citação, frases de fazer cair o queixo (que, em todo o caso, não seria recomendável), frases comoventes, irónicas, inocentes, ilustradas, excelentes. Mas não importa. Passamos bem sem elas, melhor do que passaríamos sem o queixo, mas isso é outra história. Lydia Davis é americana. Escreve, traduz e dá aulas de escrita criativa. Em 2013 venceu o Man Booker International Prize, que distingue escritores vivos de todo o mundo. Em Portugal tem publicados Contos Completos e Não Posso Nem Quero (Relógio D’Água).

Elena Ferrante foi entrevistada pelos seus editores Sandro e Sandra Ferri, que têm servido, sem exceção, de intermediários nas poucas entrevistas que tem dado, e pela sua filha, Eva. A entrevista decorreu em Nápoles, a sua Nápoles, cidade onde nasceu e vive, e que deu nome e lugar à sua série em três volumes – A Amiga Genial, The Story of a New Name e Those Who Leave and Those Who Stay. Na entrevista, Elena Ferrante explica o que esteve na origem de Troubling Love (o seu primeiro romance, que surgiu como um “pequeno milagre” depois de muitos anos a praticar e a tentar aperfeiçoar o estilo da escrita) e Os Dias do Abandono, o seu romance mais aclamado. Fala sobre o seu método de composição de escrita e sobre a construção das personagens. E fala também sobre outras questões, menos técnicas, menos específicas, como a importância da tradição literária, e aquilo que entende por “verdade literária” (o crítico James Wood aclamou a sua escrita precisamente pela sua sinceridade): “A verdade literária não é verdade do biógrafo ou do repórter, não é um relatório policial ou uma sentença ordenada por um tribunal, e não é, sequer, a plausibilidade de uma narrativa bem construída. A verdade literária tem unicamente a ver com a formulação, e é diretamente proporcional à energia que se é capaz de impor à frase. E quando resulta, não há estereótipo ou cliché da literatura popular que lhe resista”. Fala também sobre essa questão que se tornou central na sua obra, que é a do anonimato. Elena Ferrante é um pseudónimo, e a escritora tem-se recusado a aparecer em público e a dar entrevistas. Quando dá, é por escrito e intermediadas, sem exceção, pelos editores italianos. Uns dizem que é mulher (argumentando com a escrita), outros dizem que não, que pode ser um homem, porque no fundo o que é que se sabe? Muito pouco. Sabe-se que tem formação em literatura clássica, que gosta de Tchékhov e que viveu na Grécia. O que é que se sabe? Muito pouco.

Quando fala sobre esse assunto, na entrevista aqui publicada, Elena Ferrante diz que no início tomou essa decisão por causa da sua timidez, e depois por uma certa “hostilidade” que desenvolvera em relação aos media, “que não prestam atenção aos livros e classificam um trabalho conforme a reputação do seu autor”. Atualmente continua pouco interessada em mostrar-se, pouco interessada em ceder à “autopromoção obsessivamente imposta pelos media, que diminui a obra, seja ela qual for”. Por outro lado, refere que esse anonimato lhe permite maior liberdade criativa: “Assim que eu saiba que o livro foi para o mundo sem mim, sem nada que o ligue a mim – como se fosse um cãozinho pequeno e eu o seu dono – então começo a ver alguma coisa nova sobre a escrita”. E que a ausência do autor abre um espaço na sua escrita que considera positivo: “Tornou-se natural pensar no autor como um indivíduo particular que existe, inevitavelmente, fora do texto (…) mas se o afastarmos do público então vamos perceber que o texto contém mais do que imaginávamos (…). Quando alguém se oferece ao público pura e simplesmente através do ato da escrita – que é tudo o que realmente importa – o anonimato torna-se parte da história ou do verso, parte da ficção”. O autor, não existindo, portanto, fora do texto, mas apenas dentro, oferece-se, “acrescenta-se à história, exortando-se a ser mais verdadeiro do que seria nas fotografias de um suplemento de domingo, num lançamento de um livro, festival literário, ou programa de televisão, filmado a receber um prémio literário”. Em maio ano passado, a editora Relógio D’Água começou a publicar os seus livros. Crónicas do Mal de Amor, que reúne três dos seus romances curtos, Os Dias do Abandono, e A Amiga Genial foram os primeiros. Nos próximos meses serão publicados os restantes, até completar a edição da sua obra em português.

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