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Panda Bear ao vivo ou a mestria da hipnose

Texto: ANDRÉ LOPES

Tendo à sua frente uma sala totalmente esgotada, Noah Lennox mostrou que o psicadelismo pode deixar as guitarras de parte e seguir por rotas menos previsíveis – tendo ao fazê-lo, tudo a ganhar.

Foto: Luís Martins / Teatro Maria Matos

O público com grande variedade de idades que na noite de qurta-feira (11 de Março) preencheu todos os lugares do Teatro Maria Matos para ver o músico que integra os Animal Collective – e que a solo responde como Panda Bear – deixava imaginar as diferentes expectativas que se fariam sentir naquela sala. E não é caso para menos: tratando-se de um artista inegavelmente idiossincrático tanto na atitude com que se mostra como na forma como cria a sua música, as suas apresentações ao vivo incluem muitas vezes espaço para o inesperado. Esta noite, que tinha o mais recente Panda Bear Meets the Grim Reaper (álbum editado em janeiro) como mote principal, não foi exceção.

Munido com uma série de dispositivos eletrónicos, Panda Bear subiu a palco cumprimentando a plateia com um singelo – e em português – “Boa Noite”, para logo de seguida inaugurar o alinhamento com uma sequência de samples de gritos estridentes que ao serem manipulados digitalmente pelo músico, foram dando lugar às bases rítmicas de You Can Count on Me – primeira faixa de Tomboy (2011) que assim fez as honras de abertura.

Sem grandes demoras, a tela branca que o músico tinha por detrás de si rapidamente se fez iluminar com a projeção de vídeos e grafismos criados por Danny Perez, misturados ao vivo por membros dos Black Dice. Foi com uma simbiose criada entre essas imagens e a música de Panda Bear que o concerto ganhou robustez, revelando um conceito audiovisual muito próprio. Se o alinhamento escolhido primou pelas canções mais luminosas do último registo de estúdio, foram também executadas algumas das faixas do EP Mr Noah (2014), apesar da faixa-título – que se tornou numa das mais populares do repertório do músico – ter sido deixada de fora.

Não foi uma atuação marcada pelos “êxitos” do autor. Em vez disso foi dada prioridade a um conjunto de canções que, diluindo-se entre si, mostraram um artista ciente do modo como o som se pode moldar em função das possibilidades que as faixas do mais recente disco oferecem. Tropic of Cancer, o momento mais solene da noite, ganhou uma outra aura: se já na sua versão de estúdio esta é uma canção ambiciosa ao conter um sample de harpa de uma interpretação do Quebra-nozes de Tchaikovsky, em palco, revelou ser a ocasião certa para uma demonstração das capacidades vocais de Panda Bear, com a sua já característica forma de extensão de vogais, muito ao jeito de Brian Wilson.

O espetáculo terá deixado perplexos alguns elementos do público pela força da muralha de som construída camada a camada pelo músico ou mesmo pela intensidade das luzes que o acompanharam em palco. Com uma fulgorosa combinação do som e das projeções (com explosões de cor que tanto tinham de surreal como de sci-fi), esta foi uma noite que serviu para confirmar novamente o estatuto que Panda Bear detém enquanto uma das figuras mais criativas da sua geração.

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