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Ana Cássia Rebelo: “A escrita não resolve, mas alivia, atenua, é um grito”

Texto: HELENA BENTO

Ana Cássia Rebelo é autora de Ana de Amsterdam, livro que reúne alguns textos do blogue com o mesmo nome, que mantém desde 2006.

Ana Cássia Rebelo nasceu em Moçambique, em 1972. Filha de pai goês e mãe alentejana, veio para Portugal quando tinha cinco anos. O pai, que fazia parte da administração ultramarina, recebeu uma ordem de expulsão do país, assim como outros que trabalhavam com ele. De Moçambique, Ana lembra-se sobretudo da casa em que vivia com os pais e os dois irmãos, na então Lourenço Marques. Lembra-se que havia “uns azulejos amarelos” e um corredor que lhe parecia, na altura, “enorme”. Lembra-se também da infância, de retalhos da infância, que não são mais do que “memórias difusas”, divididas entre o sonho e a realidade. Estudou Direito (“porque na altura toda a gente o fazia” e Ana, que o que gostava mesmo era de História, decidiu fazê-lo também) e trabalha atualmente como jurista num instituto público. Há cerca de dois anos regressou a Moçambique para dar uma formação no âmbito da especialidade em que trabalha. Foi recebida pelo embaixador português, em Maputo, tal como outros formadores portugueses, antes de si, haviam sido. Quando estava na sala do embaixador, lembra-se de olhar pela janela e ver uma avenida “muito grande, com um sol enorme e muito vermelho”, e ter a sensação de já ter visto aquilo. Mas não tem a certeza.

Em 2006, Ana criou o blogue Ana de Amsterdam. O nome vem de uma canção de Chico Buarque: “Sou Ana de cabo a tenente / Sou Ana de toda patente, das Índias / Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada… Sou Ana de Amsterdam”. Antes desse, teve outros três blogues: Alice no País dos Matraquilhos, Pano-Cru e 2.º Andar Direito. Sobre a escrita, diz que aconteceu “por acidente”, que não pode dizer, como dizem outros escritores noutras entrevistas, que escreve por vocação ou que escreve por não ser capaz de fazer outra coisa ou que aos cinco anos já sabia que o que queria mesmo era escrever. “Se fosse professora de História, seria uma excelente professora de História. Não sou, sou jurista, e sou uma competente jurista”. Tem três filhos, com 6, 13 e 16 anos.

De que modo é que a sua formação em Direito, e o cargo que desempenha atualmente, influenciaram a sua escrita?
Foi a trabalhar – não durante o curso de Direito, porque no curso ninguém aprender a escrever nem ninguém aprende Direito – que eu aprendi a escrever. Aprendi a construir frases com as correções dos diretores e os coordenadores, que liam todos os documentos que saíam da instituição. Escrevia muito mal antes disso, escrevia mal tecnicamente, e dava erros de ortografia. Também aprendi a escrever no blogue, e claro, com todas as leituras que fiz ao longo dos anos. Para se ser um escritor razoável é preciso ler muito, não basta a inspiração ou a vocação ou saber-se que aos cinco anos se quer ser escritor. Sei que escrevo de uma maneira diferente da que escrevia há 10 anos, quando comecei a escrever no blogue. Quando leio textos meus, mais antigos, noto que tinha uma certa tendência para utilizar palavras difíceis e uma linguagem um pouco barroca, própria de quem está a começar e quer mostrar-se e imitar os modelos. Não escrevo assim atualmente, a minha forma de escrever mudou, e continua a mudar. É mais limpa. Apesar disso, hei de escrever sempre sobre plantas e flores, e descrever, por exemplo, uma peça de mobiliário. Pode ser aborrecido para alguns, mas tenho muito prazer nisso.

Dizia que no início escrevia como se quisesse imitar os modelos. Que modelos eram esses?
Há uma escritora que eu admiro profundamente, mas receio que seja um bocadinho arrogante da minha parte dizer que tentava imitá-la. Refiro-me à Agustina Bessa-Luís, de que gosto muito. Também me canso, é verdade, mas acabo sempre por voltar, sobretudo àquele livro que se chama As Pessoas Felizes. É inevitável. Acho que as minhas descrições de plantas e de ambientes, por exemplo, têm muito a ver com a escrita dela. Às vezes aprendo com ela uma determinada palavra, ou expressão, que me parece muito bonita e fica na minha cabeça, e acabo por me basear nisso para escrever um texto. Não sei se podemos chamar a isto plágio, ou se é simplesmente usar alguma coisa que outra pessoa escreveu e dar-lhe um corpo diferente. Faço isso muitas vezes, com palavras que encontro nos livros de outros escritores.

Quando não são as palavras dos outros, o que é? O que a leva a escrever?
A minha escrita é muito diarística. Às vezes, há umas pequenas incursões na ficção, e tento inventar histórias – que são, regra geral, piores do que os textos confessionais e autobiográficos, dizem-me as pessoas. Portanto, escrevo sobre mim, sobre as minhas alegrias e angústias, sobre aquilo que me acontece, sobre aquilo que vejo, pormenores, muitas vezes, o que imagino que aconteça com todos os escritores. Ontem, por exemplo, estava com os meus filhos, os dois rapazes, eles estavam a jogar futebol e eu sentada na relva. Ao mesmo tempo havia pessoas a caminhar e mães com carrinhos, e eu fiquei em êxtase profundo a olhá-las. Aquele momento pareceu-me extraordinário. Houve ali qualquer coisa de profundamente mágico. Volta e meia essa imagem vem-me à cabeça, ainda hoje aconteceu, e fico com vontade de escrever sobre isso.

Antes deste blogue, Ana de Amsterdam, teve outros três: Alice no País dos Matraquilhos, Pano-Cru e 2.º Andar Direito. Que tipo de blogues eram esses?
Eram muito idênticos ao Ana de Amsterdam. Falava muito dos meus filhos. Eram parecidos com aqueles blogues que as mães criam para partilhar as alegrias da maternidade. A diferença é que não partilhava as angústias e o cansaço da maternidade, como faço neste, que ganhou, por causa disso, outra dimensão, outra liberdade.

Como é que chegou aí, a essa outra dimensão?
Quando comecei a escrever em blogues, escrevia o que todas as outras pessoas escreviam. Comentava assuntos relacionados com política, sociedade, etc. No Ana de Amsterdam também fazia isso, no início, mas a partir de determinada altura, quando ganhei gosto à escrita, e comecei a trabalhar os textos – porque os textos que escrevo são muito trabalhados – o blogue passou a ser o meu diário, um diário público, não íntimo e secreto, como é da natureza dos diários. Assim sendo, só fazia sentido para mim continuar a escrever se fosse com essa liberdade, escrevendo sobre tudo, sem estar preocupada com o leitor, com aquilo que poderia vir a pensar.

Iniciou-se na escrita com os blogues ou já escrevia?
Sim, foi com os blogues. Não escrevia antes, e nunca pensei que viria a escrever ou a querer fazê-lo. Lia muito desde miúda, apenas isso. Seja como for, continuo a não sentir essa pressão da escrita, mesmo com o blogue e o livro publicado. Gostava de escrever um romance ou um livro de contos, afastar-me um pouco daquele que é o registo do diário, mas também não sei se sou capaz de o fazer. Outros tipos de escrita exigem uma disponibilidade e um fôlego que eu não sei se tenho. Disponibilidade não tenho, de todo.

Alguma vez tentou?
Sim, mas tenho muitas dúvidas sobre aquilo que escrevo. Na verdade, não tenho pressa em publicar. Não sinto essa pressão.

Disse, também em entrevista, que quando começou a escrever em blogues não era uma pessoa que “gostasse particularmente de escrever”, e que o tinha feito apenas por razões pessoais. Como é que isso mudou?
Eu tenho muito prazer em escrever, mas também em trabalhar o texto, depois de escrito. As pessoas podem ter a ideia de que os meus textos, por serem pequenos, são escritos ali ao correr da caneta, mas não é verdade. Tenho inveja daqueles escritores a quem o espírito desce e a mão escreve e tudo o que escreve é espetacular. Eu não sou assim. Os meus textos são, em grande parte, muito trabalhados, e só são publicados quando tenho a certeza de que não há mais alterações a fazer. Esse trabalho de ler, reler, rasurar, agrada-me muito, e começou a agradar-me mais a partir de certa altura. Há dias estive no Correntes d’Escritas [festival literário na Póvoa do Varzim] e ouvi o Mário Cláudio dizer uma coisa que achei muito interessante, e que tem a ver com essa ideia de que rasurar é um modo de escrever.

Porque é que escolheu o nome Ana de Amsterdam, que vem de uma canção de Chico Buarque, para o blogue?
Gosto muito de música portuguesa e brasileira, e gosto muito do Chico Buarque. Escolhi o nome simplesmente porque gostava muito da canção, embora não conhecesse a sua história. De alguma forma, identifiquei-me com a Ana de que fala a canção, a “Ana do oriente, ocidente”, a “Ana gelada”. Quando descobri a história, achei que tinha sido uma boa escolha.

Qual é a história?
A canção faz parte de uma peça de teatro [Calabar – O Elogio da Traição, 1973] escrita por Ruy Guerra e Chico Buarque. A peça conta a história de Calabar [Domingos Fernandes Calabar], contrabandista, e considerado um grande traidor, porque passou do lado dos portugueses para o lado dos holandeses. A peça acaba por ser uma reflexão sobre a traição, se vale ou não a pena trair, porque ele, Calabar, trocou de lado porque os portugueses maltratavam os brasileiros e os indígenas. Uma das personagens é Ana, prostituta francesa, que chega ao Brasil para distrair os ocupantes holandeses, para os satisfazer, mas acaba por se apaixonar por Bárbara. É uma história bonita, esta do amor entre duas mulheres.

Como é que se deu a passagem do blogue para o livro?
O João Pedro George, que é meu amigo, disse-me há algum tempo que gostava de fazer uma seleção de alguns textos meus publicados no blogue, porque achava que podiam resultar bem em livro. Durante muito tempo tive outra opinião. Não me parecia que houvesse uma unidade entre os textos, as questões formais preocupavam-me, achei que não ia resultar. Mais tarde, ele voltou a insistir e eu, talvez por força de outras circunstâncias, acabei por aceitar. Ele selecionou e organizou os textos, eu vi o resultado final e gostei. Houve várias pessoas que me disseram que os textos ganharam uma dimensão diferente com o livro.

A Ana participou, em algum momento, nesse processo de seleção dos textos?
Não, a seleção foi feita pelo João, mas houve textos que eu, por várias razões, não quis que constassem do livro.

A sequência dos textos no livro é a mesma do blogue?
Não. Apesar de os textos estarem ordenados de forma cronológica no livro, houve alguma manipulação. O último texto, por exemplo, não foi escrito naquela data. Quisemos criar uma sequência diferente da do blogue, até para que houvesse uma certa unidade. De resto, isso também acontecia no blogue. Eu escrevia os textos numa determinada data, mas só os publicava depois de terem sido revistos muitas vezes. Alguns textos publicados no livro foram também reescritos. Refiro-me aos mais antigos, que não estavam, a meu ver, bem escritos.

Este é o seu primeiro diário ou teve outros em miúda?
Tive um quando era pequena. Tinha cerca de 10, 11 anos. Escrevi meia dúzia de páginas. Nunca fui muito persistente. Mas perdi-o, e tenho pena. A única coisa que me lembro de ter escrito nesse diário foi que os meus heróis eram Jesus Cristo, Martin Luther King e o Brian Adams. Assim, na mesma linha, escrito em letras garrafais, muito redondas, os is com pontos que mais pareciam bolas, e muitos pontos de exclamação.

Em On Keeping a Notebook, Joan Didion [escritora e jornalista] afirma que escreve diários para se relembrar, a que não deixa de associar também um certo impulso de escrita. E a Ana, escreve para quê?
Às vezes perguntam-se se o diário foi uma forma de terapia. Eu não resolvo os meus problemas através da escrita. Para os resolver, precisei de recorrer a outros meios, como a terapia, na qual é importante o confronto com o outro. Apesar disso, a escrita continua a funcionar como analgésico. Não resolve, mas alivia, atenua, é um grito. É também por isso que eu não sei se virei a escrever um romance ou um conto ou uma novela. Gostaria de o fazer, porque a literatura é essa possibilidade de criar outras vidas – e isso é uma coisa muito bonita que li numa entrevista qualquer. Não é da minha lavra. Seja como for, acho que vou continuar a escrever no blogue. Escrevo há quase dez anos, imagino que daqui a 10 anos ainda vou estar lá, no blogue, provavelmente a escrever sobre os meus netos.

A Ana escreve muito sobre lugares: Goa, Bombaim, Corturim. Que importância têm para si esses lugares?
Ao contrário de Moçambique, onde gostei de voltar – apesar de achar que não o farei novamente – Goa é uma espécie de geografia sentimental, é um lugar onde tenho família, onde o meu pai nasceu e passou a infância e parte da adolescência, e onde passa, atualmente, a maior parte do ano. Escrevo muito sobre esses sítios porque há uma ligação afetiva, sinto que também sou do lá de lá. É em Goa que me sinto em casa.

O que faz o seu pai em Goa?
O meu pai tem algumas propriedades lá e, como sabe que quando morrer vai ser muito difícil, para nós portugueses, lidar com a burocracia indiana para conseguir vender os terrenos, tem ido para lá tratar disso. Passa a maior parte do ano em Goa, no fundo, a preparar a sua morte. É triste, apesar de ele ser muito feliz lá, porque tem muitos amigos, alguns de infância, que entretanto recuperou. É triste e quase dá vontade de chorar, mas ele fala sobre isso de uma maneira completamente desassombrada.

No livro há registo de várias viagens a Goa. Nota que esses lugares sobre os quais escreve, os lugares afetivos, têm mudado muito ao longo dos anos?
Fui pela primeira vez a Goa há cerca de sete anos. A última vez foi em 2013, se não estou em erro. Noto que mudou muito. Goa é atualmente uma espécie de Algarve indiano. É um estado onde não há lei seca e onde se pode beber álcool. As praias são muito bonitas, mas a construção à beira-mar tem sido feita de uma forma completamente descontrolada. Goa tem perdido um pouco daquele encanto que tinha. O meu pai vive no interior, numa zona rural de arrozais, um sítio onde não há turistas nem ruído. As praias, as festas e as feiras de artesanato também não me interessam muito.

Em alguns textos escreve sobre outras mulheres – Maria Adelaide, Judite, Guiomar, Alzira, Raquel, Ana Paula, Laura. Quem são estas mulheres? São reais? Personagens?
Não são personagens. Algumas têm nomes de mulheres da minha família, outras têm nomes de que gosto, que escolho porque acho que se adequam. Apesar de terem sido escritos na terceira pessoa, muitos desses textos falam sobre mim ou sobre as mulheres da minha família, sobre as suas histórias. Há, na minha escrita, uma subjetividade feminina muito intensa. A minha escrita está muito ligada a esse universo feminino. É sobre as mulheres que eu tenho interesse em escrever.

O livro foi publicado em fevereiro. Já o leu?
Sim, já o li. Há alguns textos de que gosto muito, como, por exemplo, o último que aparece no livro [“Morri no princípio de outubro…”]. Acho que é o texto mais bonito que tenho. Também gosto daquele que se chama “Maria José” e que é baseado na Adília Lopes. Gostei de o escrever. De resto, é tudo um bocadinho efémero. Eu não sou deslumbrada em relação à minha escrita. Sei que é efémero, e que vai passar. Mesmo em relação à literatura, enquanto leitora, não o sou. Há escritores de que gosto muito que são desiguais. Têm obras boas e obras menos boas.

O livro tem recebido alguma atenção por parte da comunicação social. Está surpreendida?
Não. Eu sei que o livro tem alguma força. Está bem escrito, e isso não é muito normal. A maior parte dos livros que se publicam estão mal escritos. Por isso, tem essa vantagem. Além disso, eu abordo assuntos que as pessoas geralmente não abordam na primeira pessoa, por isso é um livro corajoso. Escrevo sobre a sexualidade feminina, o erotismo, a maternidade, o desejo feminino, assuntos sobre os quais não se fala. Portanto, nesse aspeto, não estou surpreendida.

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