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Quando o órgão é o protagonista

Texto: NUNO GALOPIM

O restauro de um órgão de finais do século XIX, que desde 1977 mora na cidade de Lyon, assinala-se numa série de gravações de obras de Saint-Saëns, também ele, em tempos, um organista.

O orgão, no Auditorium, em Lyon

Para escapar às regras, que tantas vezes tomam como protagonistas o compositor, a obra, os maestros, as orquestras ou os solistas, este disco tem como figura central um instrumento. Um órgão. Construído para a sala de concertos no Palacio do Trocadéro, em Paris, por ocasião da Exposição Mundial de 1878, este imponente órgão de 6500 tubos dava conta da reconhecida arte do mais aclamado construtor de órgãos do seu tempo, Aristide Cavallié-Coll. Durante anos o órgão passou pelas mãos de grandes instrumentistas e nele foram interpretadas obras como o Concerto Para Órgão de Poulenc ou o Requiem de Fauré, da lista de compositores que viram ali obras suas a ser tocadas surgindo ainda nomes como os de Duruflé, Franck, Messiaen ou, mais recentemente, a finlandesa Saariaho. A história deste órgão conheceu um episódio de mudança em 1939, ao ser instalado no Palais de Chaillot e, desde 1977, conhece casa no Auditorium, em Lyon. É aqui que reside e foi ali que, em 2013, conheceu uma profunda intervenção de recuperação e restauro que, uma vez concluída, pedia celebração à altura do protagonista. O órgão, entenda-se. A Sinfonia Nº 3 de Camille Saint-Saëns surgiu assim como escolha natural. Uma boa opção, sublinhe-se.

Compositor marcante na história da música francesa do século XIX, Camille Saint-Saëns (1835-1921) manteve firme uma relação com os princípios e influências do romantismo mesmo quando, já em pleno século XX, outros contemporâneos seus ensaiavam novos caminhos. Também ele organista – foi durante algum tempo o organista residente na igreja parisiense da Madeleine, alguns anos antes de Fauré ocupar o mesmo lugar – Camille Saint-Saëns compôs a sua terceira sinfonia a pedido de uma encomenda da Royal Philharmonic Society de Londres (a mesma que algumas décadas antes encomendara a Beethoven a sua “nona”). Interessado em explorar as novas potencialidades instrumentais disponíveis no seu tempo, Saint-Saëns pensou a sinfonia como uma obra orquestral capaz de envolver a presença do piano e de um grande órgão. Amigo e admirador de Lizst (a quem chegou a mostrar a partitura desta sinfonia), herda aqui a ideia de cruzar as potencialidades do som do órgão com as cores de uma orquestra, tal e qual o compositor húngaro havia feito no seu poema sinfónico Hunnenschlacht, deste compositor herdando ainda o interesse pelo desenvolvimento e transformação de temas.

O resultado, uma das grandes obras sinfónicas do século XIX, conheceu estreia em Londres no St. James’s Hall em maio de 1886 e conheceu primeira apresentação em Paris, na sala do Conservatório, em janeiro de 1887. O órgão hoje instalado em Lyon foi, curiosamente, o idealizado por Saint-Saëns quando compôs Cypres et Lauriers (em 1919), outra das obras reunidas neste disco e usadas também para assinalar o restauro.

O alinhamento deste novo disco, que conta com a presença do organista Vincent Warnier e, claro, a Orchestre National de Lyon, dirigida por Leonard Slatkin, junta à Sinfonia Nº 3 e a Cypres et Lauriers uma transcrição para órgão da Dança Macabra, do mesmo compositor.

As gravações da “Sinfonia Nº 3”, de “Danse Macabre” e “Cyprès et Lauriers”, de Camille Saint-Saëns, pela Orquestra Nacional de Lyon, dirigida por Leonard Slatkin e com a presença do organista Vincent Warnier estão editadas em CD pela Naxos.

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