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Cinderela, segundo Kenneth Branagh

Texto: ANA CABRAL MARTINS

O realizador britânico assinou para a Disney uma nova abordagem ao clássico de animação de 1950, inspirado num conto de Charles Perrault.

A Disney sempre foi um estúdio que se considerou uma marca e, de há uns anos para cá, começou a concentrar-se em voltar a explorar as propriedades mais familiares do seu historial. Essencialmente, isso tem-se traduzido numa série de projetos que se têm focado em pegar nas animações clássicas da Disney e reinterpretar as histórias com um toque moderno e atores de carne e osso. Isso aconteceu com a versão desapontante de Alice no País da Maravilhas (Tim Burton, 2010), uma espécie de sequela da história original com uma Alice mais crescida, e com Maléfica (Robert Stromberg, 2014), um filme revisionista d’A Bela Adormecida de 1959 que coloca a vilã (interpretada por Angelina Jolie) num contexto heróico. Caminhos da Floresta (Rob Marshall, 2014) “disney-fica” o musical da Broadway que, nos anos 80, criticava a noção de “simpatia” das princesas Disney (especialmente no caso da Cinderela) e de “viveram felizes para sempre”. Todos estes exemplos passam por revisitações atualizadas que encaram as histórias clássicas de uma forma muito mais cínica e que se constituem enquanto formas fáceis de capitalizar na filmografia famosa da Disney.

Cinderela (Kenneth Branagh, 2015) é um filme diferente. É uma versão muito pouco reatualizada e nada revisionista — a história é quase a mesma, ponto por ponto e a vilã não é recontextualizada. O facto de o realizador ser Kenneth Branagh dá algumas pistas sobre o tipo de filme que encontramos. Por um lado, o seu passado Shakespeariano é perfeito para o fazer sentir-se à vontade no que é, embora de forma ambígua, um filme de época. Mas, mais importante do que isso, esse mesmo passado permite-lhe chegar mais facilmente à raiz do que torna a história da Cinderela tão apelativa e deixá-la brilhar (de mais do que uma maneira). Por outro lado, este foi o realizador do primeiro Thor (2011), da Marvel, onde o que interessou parece ter sido não só a dinâmica familiar (mais uma vez) Shakespeariana mas também a possibilidade de conceber a cidade mítica de Asgard de forma luxuriante e esplendorosa. E é dessa forma, luxuriante e esplendorosa, que ele filma Cinderela — desde a casa onde ela vive em pequena, ao palácio e jardins reais, passando pelo floresta e ravinas à beira mar.

O mais surpreendente desde filme, contudo, é a sua natureza absolutamente sincera. Não existe um pingo de cinismo neste filme e a história está alicerçada em ideias humanistas de bondade, coragem e perdão. Esta sinceridade é difícil de resistir, especialmente quando é sentida de uma forma tão honesta e transbordante. Lily James, no papel protagonista, combina uma beleza incomum com uma acessibilidade genuína e a atriz caminha graciosamente sobre uma linha precária entre o doce e o sacarino. Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones) enquanto Príncipe Kit não tem grandes dificuldades em ser encantador e o meet-cute dos dois não se cinge ao baile. Ao Príncipe, aliás, é-lhe dado bastante mais do que fazer do que simplesmente ficar arrebatado pela beleza de Cinderela. Num dos pontos adicionados a este conto, Kit e Cinderela conhecem-se por acaso (e sem saberem realmente quem são) numa floresta, a meio de um jogo de caça, e há um esforço honesto da parte do filme para tentar adicionar camadas à atração dos dois que superam a beleza e passam antes pela percepção, por Kit, da coragem de Cinderela e, por Cinderela, da vulnerabilidade de Kit.

Juntamente com a qualidade sincera deste filme, ele é também extremamente divertido e deliciosamente campy. As aventuras das personagens animais (os ratinhos e passarinhos do filme animado) estão misericordiosamente reduzidos a apontamentos que são tanto pequenos quanto comoventes e engraçados. Drisella e Anastasia, as duas meias-irmãs de Cinderela, protagonizadas respectivamente por Sophie McShera (Downton Abbey) e Holliday Grainger (Os Bórgias) são fornecedoras de alguns dos momentos mais cómicos, dada a sua rivalidade e geral falta de noção da realidade. Mas o momento mais cómico e despudoradamente delicioso é a aparição da Fada Madrinha de Helena Bonham Carter, esplendidamente loira, tonta mas com um talento especial para sapatos e one-liners. Toda a sequência da transformação (e, depois, o baile) acaba por ser a razão pela qual comprámos o bilhete e o grande factor de deslumbramento da história. Kenneth Branagh e a figurinista Sandy Powell (habitual colaboradora de Martin Scorsese) não se poupam a esforços e a palavra de ordem parece ter sido “ou deslumbramento ou nada”. Este momento de makeover não está ligado, neste filme, a uma ideia de superficialidade ou de aparências serem o mais importante. É amplamente sublinhado o quanto a beleza não tem de estar associada à bondade e como a fealdade de alma pode bem estar escondida atrás de feições atraentes — ao contrário do filme original da Disney, onde a aparência das meias irmãs de Cinderela está ligada à sua crueldade e superficialidade. A transformação para o baile toma muito mais a função de ser um espelho da boa alma da Cinderela e de a fazer transcender a sua condição sofredora, colocando um pouco de magia no mundo agreste. Quando o príncipe finalmente a reencontra e o sapatinho de cristal é testado, é importante (para o filme e para a Cinderela) reiterar que a aceitação da Cinderela por Kit seja pela sua pessoa e não pela potencial qualidade ilusória do vestido usado no baile.

É necessário destacar a performance de Cate Blanchett, a tornar realidade todos os nossos sonhos campy. Não só está perfeitamente caraterizada como uma femme fatale, como parece genuinamente deliciada em representar uma personagem cujo sarcasmo e crueldade é palpável. Kenneth Branagh e o filme ajudam a que a figura da Madrasta Má não caia no ridículo (ou no unidimensional) e Blanchett oferece várias camadas a uma personagem que se percebe muito melhor do que em outras encarnações. Seja num olhar ou numa fala que fica por dizer, a Madrasta não é aqui a infantil figura malvada habitual mas uma personagem com um tratamento multifacetado. O desenvolvimento da personagem de Blanchett é o resultado de um esforço notável do filme de preencher a história de maneira a entendermos melhor o mundo em que habitam e justificar as suas ações (ou falta delas). Os pais de Cinderela estão muito mais presentes (a excelente Hayley Atwell é uma adição especialmente feliz) e até o Príncipe Kit é mostrado a ter mais facetas do que apenas “homem deslumbrado”: ele é ardiloso, respeitador, divertido e astuto, em mais do que uma ocasião.

Finalmente, algumas considerações sobre a mensagem deste filme, e do conto de fadas da Cinderela, em geral. A divisa deste filme é “sê corajosa e bondosa”, o que em si é uma bonita mensagem, mas que pode muito bem puxar pela interpretação da personagem da Cinderela como a versão mais passiva das Princesas Disney. Há nela uma certa resignação em aceitar o abuso de que sofre e muito pouca demonstração da coragem que a mãe pede que Cinderela tenha. A coragem dela passa mais por uma resistência paciente que termina por não permitir que esta versão da Cinderela se salve a si própria. Mas a passividade dela, especialmente frustrante na parte final, não apaga as diversas escolhas que Cinderela vai fazendo ao longo do filme (por e para si própria) e a maneira como se recusa a ser quebrada pela crueldade alheia. Este Cinderela pode ainda não ser a versão mais progressista e feminista que gostaríamos ver mas é um passo numa direção menos convencional. Kenneth Branagh manteve-se fiel às ideias mais tradicionais do conto fez um gesto bondoso pela Disney: realizou um bom filme.

‘Cinderela’ é precedido pela curta-metragem ‘Festa Frozen: O Reino do Gelo’, um adorável regresso ao mundo do imensamente popular ‘Frozen’, mesmo a tempo do aniversário de Anna.

“Cinderela”
Realização: Kenneth Branagh
Com: Lily James, Richard Madden e Cate Blanchett

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  1. Crítica. Cinderela, segundo Kenneth Branagh – Ana Cabral Martins

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