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A guerra (sem propaganda)

Texto: NUNO GALOPIM

Estreada em 1943, em plena II Guerra Mundial, a ‘Sinfonia Nº 8’ de Dmitri Shostakovich não correspondeu à obra celebratória desejada pelo poder. Pelo contrário, permite um olhar mais realista sobre a alma de um país em tempo de guerra.

A boa gestão de um catálogo cheio de (boas) gravações justifica as variadas formas de dar novas vidas ao vasto acervo que a Decca e a Deutsche Grammophon têm em mãos. E se por um lado tem havido edições comemorativas ou especiais – como as que nos últimos tempos destacaram abordagens a nomes como Pierre Boulez, Leonard Bernstein e Herbert von Karakjan (curiosamente todas elas na DG) – em caixas antológicas que não chegam a todas as carteiras, por outro vão surgindo lançamentos em séries económicas que, ora em campanhas de três-em-um (e têm sido muitos e bons os lançamentos destas troikas apetitosas), ora em lançamentos a preço budget vão assegurando importantes reencontros com todo um legado que não deve ser esquecido que assim reafirma o seu lugar de visibilidade junto do que de novo vai acontecendo. No caso de um compositor como o russo Dmitri Shostakovich, é verdade que vimos nascer, ao longo dos últimos anos, uma magnífica integral da sua obra sinfónica em edições da Naxos tendo como protagonistas o maestro Vasily Petrenko e a Royal Liverpool Philharmonic Orchestra que dirige. Mas através de uma reedição budget da Decca – a um preço ainda mais convidativo que os habitualmente praticados pela Naxos – reencontramos uma magnífica gravação de 1983 da assombrosa Sinfonia Nº 8 pela Orquestra do Concertgebow de Amesterdão, dirigida por Bernard Haitink.

Trata-se de uma das mais arrebatadoras obras de música sinfónica do século XX, traduzindo, como as sinfonias que imediatamente a precederam e sucederam, ecos diretos da vida russa em tempos da II Guerra Mundial, segundo o olhar de um compositor que, como ele mesmo confessaria mais tarde, sentia uma “dor eterna” pelos que foram mortos por Hitler mas que não sentia dor menor pelos que morreram às ordens de Estaline.

Vale a pena fazer aqui um ponto da situação. Ao longo da sua vida artística, o Dimitri Shostakovich (1906-1975) viveu momentos de aclamação e rejeição da parte do aparelho de Estado soviético, conhecendo os dois episódios mais difíceis de digerir aquando das críticas – e silenciamentos – de obras como a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (de 1934, que Estaline viu e não gostou em 36) e a Sinfonia Nº 9 (1945), que, mais ainda que a oitava, se afastava do que o aparelho de propaganda esperava de uma obra capaz de celebrar o triunfo contra os alemães. Pelo contrário, houve outros momentos em que a sua música foi acolhida com entusiasmo e grandes loas como, por exemplo, quando a estreia da épica Sinfonia Nº 7 – Leninegrado (estreada em 1942), assinalou uma voz de luta e resistência, valorizando a vida de uma cidade sitiada que resistia ao invasor.

A Sinfonia Nº 8 surge assim ainda sob a memória de um quadro de aclamação recente. Foi composta em cerca de dois meses, numa altura em que o cerco a Leninegrado ainda se mantinha. Mas o seu tom não correspondeu às expectativas. Inicialmente apresentada com o subtítulo Estalingrado, assinalando outro foco importante de luta e resistência, a sinfonia teve estreia em 1943 sob reações muito diversas, os mais céticos comentando a falta de um tom verdadeiramente celebratório. Basta escutar a negritude – arrebatadora, diga-se – do magnífico e longo primeiro andamento para constatar que, mais que celebrar, era no focar da dor, do medo e da tensão de quem luta que esta música eventualmente procurava um caminho.

A estreia, na grande sala do conservatório de Moscovo, e sob direção de Yvgeny Mravinsky (a quem é dedicada), gerou logo primeiros sinais de desconforto. Um dos críticos – do Pravda – conta (em memórias citadas num programa de concerto da New York Philharmonic) que correu ao jornal para escrever mal a obra terminou e que muito do que disse foi eliminado e que o editor de serviço chegou mesmo a ligar a alguém na hierarquia para eventualmente avaliar o que ficava e o que saltava do texto.

A má relação com uma música que foi descrita como pessimista e acabou até por ser oficialmente descrita por um fantoche do regime como “não uma obra musical, mas uma composição que não tem nada a ver com arte”, acabou com a sua proibição em 1948, tampa que seria levantada só após a morte de Estaline, o tempo acabando por reconhecer na Sinfonia Nº 8 não apenas uma das mais importantes da obra de Shostakovich mas também uma das peças mais marcantes da história da música orquestral do século XX.

Se o que Shostakovich na verdade queria dizer sobre a guerra não é de leitura clara – e essas ambiguidades são um dos valores maiores da identidade desta sinfonia – as eventuais relações da música com o legado de Mahler (há quem tenha traçado paralelos com formas e leituras possíveis da sua magistral Sinfonia Nº 2 – Ressurreição) e uma espantosa capacidade para traduzir o sentimento de opressão e medo de quem vive sob um clima de guerra fazem desta obra não o panfleto de propaganda que na altura alguns ali esperavam, mas uma voz que assim não só retrata o seu tempo como expressa uma universalidade de sentimentos que a faz ainda hoje ser consequente e atual. Afinal, nascia ali uma obra de referência.

A nova edição desta gravação de 1983 surge numa jewelcase que junta um booklet com uma arrumação pedagógica e acessível sobre o compositor, a obra em questão e o contexto em que nasce. Valor acrescentado a justificar que nem só da novidade pode viver o nosso consumo de gravações do repertório das editoras de música clássica.

A gravação de 1983 da ‘Sinfonia Nº 8’ de Shostakovich, pela Orquestra do Concertgebow, dirigida por Bernard Haitink, está reeditada em CD e formato digital na série Virtuoso da Decca, entre nós lançada pela Universal. Esta gravação está também disponível em plataformas de streaming.

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