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O eleito

Texto: INÊS MARIA MENESES

Foto: Rui Cartaxo Rodrigues

Tinha 9 anos e um vestido às bolinhas, miudinhas como eu. Podia dizer que era o meu vestido favorito, e era. Mas era praticamente o único e não sei se do pouco se faz escolha. Talvez faça.

Ele era o rapaz mais bonito da escola. Tinha um tom de perfeição como aquelas montanhas que queremos sulcar mas não sabemos como, por isso vemos ao longe ou fotografamos e nesse olhar distante encontramos aquilo que desconfio ser a felicidade. A minha desconfiança é mesmo infundada.

João Paulo tinha duas irmãs gémeas. Uma família dos Açores que tinha chegado à praia fria do norte. Lembro-me dele no Outono e ele mantinha o ar marítimo, bronzeado, ainda hoje sei qual era o tom. Nunca saí dele.

Um dia assim do nada, veio um amigo do João Paulo dizer-me: “ele quer a tua fotografia”. E riu-se. Eu e o meu vestido às bolinhas, corámos, mesmo que o vestido fosse azul (mas as bolinhas eram brancas). Eu não me esqueço só do tom da pele do João Paulo: lembro-me mais ainda de ele ter sido a primeira pessoa a escolher-me, já que reparem, os meus pais não me escolheram, eu nasci-lhes assim.

João Paulo escolheu-me de entre todas as pessoas da escola. E isso fez-me imediatamente adulta. Cresci para além do tamanho do vestido e as bolinhas que podiam ser de sabão, consigo imaginá-las brilhantes e transparentes a saírem do tecido para se vestirem de vida própria.

Os passos seguintes são vagos: eu dei-lhe a minha foto onde estava com esse vestido, a foto passe que nunca passou de moda para mim. (Está aqui na minha parede como se eternizasse o momento em que fui escolhida).

Dei a minha foto ao João Paulo, e ele também me fez chegar uma dele. Lembro-me de furtivamente admirar a foto pequena onde cabia aquele tom de perfeição sem acreditar que ele pudesse ser ‘meu’. E do prazer que sentia ao pensar que também ele, num passe de mágica, olharia para a minha, sabendo que eu era a ‘sua’ menina.

Um dia nesta alegria desmedida que os 9 anos não gerem bem, contei à minha mãe que tinha comigo a foto do rapaz mais bonito do mundo que por acaso andava ali na escola ao lado de casa. Não é impressionante que às vezes o mundo nos bata à porta?

A minha mãe não reagiu bem. Talvez não soubesse o que fazer perante tanta alegria, ela educada a conter tanto, a revelar tão pouco. Como se aprende a dar quando não recebemos nada?

Então num momento de morte para mim, de dor que perpassa a pele, a minha mãe ordenou-me que devolvesse a fotografia ao João Paulo, reavendo a minha. Sei o que senti nesse momento: foi a perda e a humilhação que não cabiam numa pequena foto passe. Perdi a fotografia e o amor. Fiquei sem nada, só o vestido às bolinhas que por acaso já era o meu, eleito do nada.

Agora não consigo lembrar-me porque terá terminado aquele amor em que eu tinha sido a escolhida e acabei sem querer a rejeitar algo que me enchia o peito como um balão que sobe e se perde no céu. Nunca ninguém apanhou com os destroços de um balão, pois não?

Eu fiquei destroçada. O meu coração foi um balão vazio durante muito tempo. Os meus olhos entristeceram como se a montanha fosse impossível de sulcar. Ficaram tristes os olhos da menina que eu era, no seu vestido às bolinhas, o único mas o eleito.

Até hoje quando choro, choro por ela. E agora mesmo olho para a parede da sala e sei que sou a mesma. Estou lá naquela fotografia passe, ampliada, para lembrar que tudo na vida é uma escolha. Impedir os outros de as fazer, é pior que matar a primavera com chuva.

Foto

 

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