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Jana Hunter: “Estar em palco ajudou a levar-me menos a sério”

Texto: HELENA BENTO

“Escape from Evil” é o título do novo álbum dos norte-americanos Lower Dens. É o terceiro, depois Twin-Hand Movement e Nootropics, e vai ser lançado segunda-feira.

Do trans-humanismo ao progresso, e da tecnologia às questões ambientes, e destes ao amor, à amizade e à importância de prestar homenagem e cuidar dos outros. Porque “as crises comuns da vida” são um tema tão bom quanto outro qualquer, e há uma certa urgência em celebrar a vida. É assim que Jana Hunter, líder dos norte-americanos Lower Dens, define aquele que tem sido o percurso da banda, em termos de inspiração e de matéria, de descoberta. O primeiro álbum, Twin-Hand Movement, foi lançado em 2010, seguindo-se Nootropics, em 2012. Escape From Evil é o título do terceiro álbum, dez canções que falam sobre vícios, sobre a morte e o medo e o medo da morte, sobre a culpa, obrigação, desespero. Jana Hunter dirá que quis aceitar estes sentimentos e celebrar a nossa capacidade de conseguir viver com eles. Porque conseguimos.

O álbum foi produzido por si em colaboração com Chris Coady (Yeah Yeah Yeahs, Beach House, Blonde Redhead), e vai ser lançado segunda-feira, dia 30 de março.

Antes de ter formado os Lower Dens dizia que não se sentia muito confortável em palco, que a experiência a intimidava. Continua a sentir o mesmo?
Não, já não sinto isso. Tenho muita sorte por poder tocar com pessoas que gosto e que tocam com tanta energia. Estar em palco, atuar, tornou-se uma forma de conseguir libertar-me de todos os constrangimentos dos tempos modernos. É uma experiência rica, e é sempre um acontecimento sagrado, como espero que também seja ou possa vir a ser para o nosso público.

Além disso, o que é que mudou?
Estar numa banda ajudou-me a aprender a ser amável, a reconhecer os meus amigos enquanto família e a tomar conta de mim. Mas, mais do que isso, ensinou-me a viver para os outros. Acredito também que estar em palco ajudou a levar-me menos a sério, e, pelo contrário, a levar mais a sério a celebração da música ao vivo. Costumava ficar preocupada por achar que iria perder a vitalidade emocional quando crescesse, quando ficasse mais velha, mas, e embora me sinta menos revolta e desorientada nas minhas rotinas, acho que essa intensidade não desapareceu. Alterou-se, simplesmente. Tinha medo de a perder, mas agora já não tenho.

Quando saiu o álbum Nootropics, disse que o trans-humanismo, referido como tema do álbum, tinha sido apenas umas das muitas coisas que se tornaram relevantes para a banda naquela altura. Quais foram as outras?
Houve várias coisas que, na altura, se tornaram relevantes para nós. Refiro-me, por exemplo, ao estado ecológico do nosso planeta, que é catastrófico, à pressão que resulta da saturação tecnológica disfarçada de progresso, à divisão da comunidade real, atraída por uma ideia falsa de ligação através da internet, aos progressos reais no que diz respeito ao entendimento das necessidades humanas, ao lento, mas otimista, desenvolvimento de infraestruturas que têm em conta tanto os recursos disponíveis, como as exigências humanas, etc. Foi um tempo de revelações assustadores (em termos de abrangência), mas importantes.

Esse álbum foi gravado durante um mês, praticamente sem interrupções. De que forma é que esse processo afetou o resultado final?
Tínhamos acesso ilimitado ao próprio estúdio, o que nos trouxe muitas vantagens. Houve dias em que chegámos a passar cerca de 16 a 18 horas nas salas do estúdio. Isso ajudou muito; estávamos a conhecer os sintetizadores que usámos à medida que íamos gravando. Na altura, não nos conhecíamos muito bem. Além disso, tínhamos um novo membro na banda e era também a primeira vez que trabalhávamos com Drew [Drew Brown], o produtor. Eu gosto do álbum, acho que acabámos por trabalhar bem em conjunto, mas há ali um certo atrito que tem a ver com o facto de se passar muito tempo com estranhos em divisões muito próximas.

Repetiram a experiência? Refiro-me ao novo álbum, Escape From Evil
O álbum novo foi gravado em curtos períodos de tempo, muitas vezes com alguns meses pelo meio. Houve apenas uma sessão breve em que todos os membros da banda estiveram presentes.

Numa entrevista antiga, disse que quando estavam a trabalhar no primeiro álbum decidiram definir um arco temático que abrangesse quatro álbuns, o qual viria, não a determinar o conteúdo, mas a servir de inspiração. Porquê quatro e que temática era essa?
O arco temático tinha a ver com o reconhecimento enquanto parte da comunidade global, com o desenvolvimento dessa consciência, e das armadilhas emocionais desse processo. Imagino que, de certo modo, tenha apenas a ver com o facto de nos tornarmos adultos, mas num contexto moderno muito específico. Pensámos no número quatro porque algumas das nossas bandas favoritas fizeram quatro álbuns e desistiram antes de se tornarem demasiado bem-sucedidas e populares, ou antes de perderem a vontade de fazer música que valesse realmente a pena ouvir. Definimos esse arco para nos servir como guia, para nos orientar se alguma vez sentíssemos que estávamos a perder o rumo.

De que modo é que cada um dos álbuns, incluindo o novo, se relaciona com essa temática?
No primeiro álbum tentámos explorar essa ideia de consciência de pertença a uma comunidade, que surge enquanto se é adolescente. No segundo álbum, Nootropics, há ainda essa ideia de consciência, de tomada de consciência, mas relativamente ao estado terrível em que as nossas espécies se encontram, bem como o planeta que habitam. O álbum mais recente, Escape From Evil relembra que é preciso amar e cuidar daqueles que nos são próximos. Queríamos que houvesse uma espécie de narrativa de uma utopia possível, mas o tema parece-nos mais realista do que isso.

Este último álbum foi inteiramente produzido por si, ao contrário dos outros. Porque é que decidiu tomar as rédeas desse processo?
Sou muito obcecada pelo som. O carácter dos sons transmite-me tanto quanto uma melodia ou a letra de uma canção. Com os Lower Dens tenho tido muitas oportunidades para pensar e aprender sobre produção, e faço-o com muita regularidade. Sempre soube como é que queria que as coisas soassem, mas nem sempre soube como fazer isso acontecer ou até como transmiti-lo a um engenheiro ou produtor, de modo a que um ou outro fizessem aquilo que eu pretendia.

Porque é que decidiu voltar a trabalhar com Chris Coady?
Eu e o Chris trabalhamos bem juntos. Gostamos suficientemente um do outro para conseguirmos trabalhar mesmo quando surgem alguns desentendimentos. Aliás, acho que o nosso trabalho até se torna melhor precisamente por causa desses desentendimentos. Com outras pessoas com que trabalhei isso nem sempre aconteceu. O Chris tem instintos incríveis, e são quase sempre diferentes mas tão bons, ou até melhores do que os meus.

press release descreve as letras das canções do novo álbum como “diretas” e afirma que pretendem enfrentar “as crises comuns da vida”. O que deve entender-se por crises comuns da vida?
As crises comuns da vida são, por exemplo, o medo de perder alguém que nos é próximo e de quem gostamos, ter de lidar com vícios, estar numa relação que se baseia apenas no sexo, e não no amor, lidar com sentimentos de culpa, obrigação, desespero, etc. Escrevi sobre estas coisas porque tanto eu, como algumas pessoas que conheço, tiveram de as enfrentar. Quis aceitar estes sentimentos e celebrar a capacidade que temos de conseguir viver com eles, lembrando que o importante é viver para os outros, e que não vale a pena julgarmo-nos de uma forma demasiado severa ou preocuparmo-nos com coisas que, simplesmente, não conseguimos mudar.

O título da quarta faixa, “Quo Vadis” [“Para onde vais?”] foi inspirado nas palavras atribuídas a S. Pedro?
Escolhemos esse título mais tarde, em retrospetiva, porque a letra fez-me lembrar essa história. Na canção, está a acontecer uma mudança (da perspetiva de uma das duas partes). Há uma pessoa que diz: “Juntos somos especiais. No entanto, sou imperfeito e egoísta. É pegar ou largar”. E a outra pessoa, a quem aquela se dirige, terá de tomar uma decisão muito simples, e ponderada.

Costuma referir as leituras que faz. Lembro-me, por exemplo, de Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, e Within the Context of No Context, de George W. S. Trow, que todos os membros da banda acabaram por ler. De que forma é que essas leituras influenciam a vossa música?
Acho que influenciam da mesma forma que tudo o resto influencia. Quanto a esses livros que referes, houve uma altura em que dei por mim a pensar neles constantemente, não só enquanto os estava a ler, mas muitos meses depois. As coisas que absorvo de cada livro acabam por se interligar e ter vida própria, isto se ler volume atrás de volume. O que eu penso sobre a vida, e sobre as pessoas, é uma corrente mais ou menos ininterrupta que vai desde o tempo em que eu era muito jovem até ser muito velha, e qualquer coisa da magnitude do Trow ou do Sebald tem um impacto muito grande no curso dessa corrente.

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