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Mãe há só uma

Texto: NUNO GALOPIM

Num dos mais belos discos que vamos escutar este ano Sufjan Stevens recorda a mãe, recentemente desaparecida, num álbum instrumentalmente simples que é daqueles raros casos em que as palavras encontraram a música certa para criar um ciclo de canções irrepreensível.

Há na história da música evocações e confissões na primeira pessoa sobre mães, cantadas das mais diversas maneiras, até mesmo quando por vezes as memórias são de dor e, sobretudo ausência, como em 1970 escutámos no arrepiante Mother, de John Lennon. Apesar de muitas vezes distante do seu quotidiano, Carrie é evocada num álbum suave, direto, confessional e por vezes assombrado, através do qual o filho agora enfrenta a sua perda. Ele chama-se Sufjan Stevens, é um dos mais inspirados (e inspiradores) entre os músicos da sua geração e, cinco anos após o seu mais recente álbum em nome próprio e muitos anos mais depois de experiências de amplitude cénica (e instrumental) mais elaborada e complexa, apresenta neste seu novo disco uma simples e bela coleção de canções frágeis, de travo folk, sobre a sua mãe e a tomada de consciência da noção de perda.

O pontual regresso ao Oregon, onde viveu parte da infância – e houve já quem tivesse inteligentemente apontado que este álbum poderia até corresponder ao seu terceiro disco na série dedicada aos estados dos EUA, após Michigan e o colossal Illinois, notando um texto no Observer que uma das canções tem por título Eugene, afinal o nome da segunda maior cidade do estado onde a sua mãe vivia – e o tom profundamente pessoal e elegíaco que Sufjan Stevens convocou para criar as canções de Carrie & Lowell afastaram-no dos caminhos de maior ousadia formal e experimentação instrumental que havia comandado os trabalhos nos imediatamente anteriores Illinois (2005) e The Age of Adz (2010), ou até mesmo os caminhos sinfonistas que tinha percorrido ao idealizar a banda sonora de BQE – a banda sonora para um filme seu sobre uma auto-estrada que cruza alguns dos espaços da cidade de Nova Iorque – e afasta-se naturalmente das tonalidades quentes e festivas das suas (muitas) criações pensadas para assinalar o Natal. De resto, o parente instrumentalmente mais próximo deste novo disco poderá ser – mas com diferenças a ter em conta – o belo Seven Swans, disco de 2004, sobre temáticas da espiritualidade.

Com uma guitarra acústica ou um banjo, sussurrando naquele tom cândido e doce com o qual nos costuma cantar, ocasionalmente socorrendo-se de outras fontes instrumentais (chama várias vezes electrónicas para compor cenografias, salvo em Fourth of July onde chegam a ser elemento mais determinante na instrumentação, num tema que se aproxima das faixas mais à la Sufjan Stevens do álbum que lançou integrado no projeto S / S / S ), o músico, que chega em 2015 aos 40 anos, olha para si, para o seu passado, evoca memórias, que foca lembrando uma mãe alcoólica, depressiva e instável (e ficamos por aqui, já que não vamos mergulhar num quadro clínico baseado no diz que diz). E não esquece a figura de um padrasto com quem teceu com o tempo um relacionamento próximo, inclusivamente a nível profissional.

O disco é de uma ternura arrebatadora, mesmo quando há episódios difíceis e memórias pesadas a lembrar. E traduz sinais de um amor incondicional, que ilumina assim canções que, motivadas pela morte, respiram antes uma dedicação que inspira a vida. É um dos mais belos discos que ouvi nos últimos tempos e confirma como há valores na escrita que são afinal tão capazes de criar o belo mesmo sem o recurso ao exercício do desafio, a ousadia da busca do novo ou o aparato das formas. A força das palavras certas quando encontram a música certa e a voz que as sabe verbalizar, resulta em momentos como este. O melhor de 2015 passa por aqui.

“Carrie & Lowell”
Sufjan Stevens
LP, CD e ed. Digital Asthmatic Kitty / Popstock
5 / 5

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