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Quem disse que as eletrónicas não sabem seduzir?

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição em LP de “Exotika”, da dupla Chris and Cosey, recorda-nos uma pérola do final dos anos 80.

Chamam-se Chris Carter e Cosey Fan Tutti. Militaram na aventura Throbbing Gristle desde os primeiros tempos (Cosey integrava mesmo o coletivo onde Genesis P. Orridge se apresentava antes de 1976) e, quando o grupo colocou um ponto final em 1981, continuaram um percurso conjunto como Chris and Cosey. O tempo acabaria por reuni-los a Genesis P. Orridge e Peter Christopherson numa reativação do mítico grupo, já depois da viragem do milénio, o afastamento do primeiro em plena digressão em 2010 e a morte do segundo, em finais do ano, tendo colocado então um definitivo ponto final a um projeto ao qual que reconhecemos um papel matricial no lançamento de ideias que o tempo arrumaria e desenvolveria sob uma noção de música industrial. Como par nascido deste cadinho, a dupla Chris and Cosey bebeu ali a matéria prima para desenvolver uma visão que foi moldando ao longo dos anos e que, depois de uma interrupção nos anos 90, os voltou a ver a trabalhar sobre nomes como Conspiracy International ou Carter Tutti, nome pelo qual acabam de lançar um álbum de regravações e reinterpretações de temas que em tempos, tinham apresentado com o nome pelo qual responderam depois do primeiro fim dos Throbbing Gristle.

Chris e Cosey tinham já alguns discos lançados enquanto dupla quando, em 1987, apresentam pela Play It Again Sam o álbum Exotika. Estavam então a viver no campo e além da sua invulgar paleta de instrumentos – que juntava outros elementos às electrónicas, nomeadamente a corneta que desde cedo Cosey aprendera a tocar – chamavam também atenções pela então ainda relativamente invulgar opção pela gravação caseira (algo que a liberalização da tecnologia pouco depois faria até norma para muitos artistas e novas bandas).

Em Exotika mantinham um caminho de exploração das electrónicas não muito distante do que então ia acontecendo pelos terrenos da electronic body music – vale a pena recordar que na Europa estavam já ativos projetos fulcrais nesta área como os Front 242, Die Krupps ou Nitzer Ebb – mas os ecos de um sentido experimentalista e o gosto pela definição das cenografias herdado dos tempos dos Throbbing Gristle quase que limitava o minimalismo mais habitual nestes comprimentos de onda ao (ainda hoje eficaz) Beatbeatbeat ou no mais elaborado Arcade (com um trabalho de composição de elementos vocais enquanto peças da estrutura rítmica que evocam o que eram experiências recentes de uns Kraftwerk na etapa Electric Cafe). Na verdade o álbum é um mundo de contínuas descobertas, criando as texturas e jogos de cromatismos caminhos que vão assim mais além. E o assombrado Dr John é um belo exemplo desse saber apostado em trabalhar o espaço e não apenas a arquitetura dos ritmos e a condução das melodias. A quase 30 anos de distância, este continua a ser um delicioso exemplo de um estranho numa terra estranha. Mas hoje talvez mais acessível face ao quadro de referências então mais praticadas e divulgadas na época.

A peça central do alinhamento é o assombroso tema-título. Uma canção que, sem fugir ao tom aparentemente distante e desencantado da voz de Cosey,  pisca o olho a uma bonomia pop mas que se deixa sobretudo cativar pela envolvência de um sedutor discurso rítmico de travo latino que sugere o calor e luminosidade de uma paisagem mediterrânica. O hedonismo de Ibiza e o encantamento ballearic estavam a poucos meses de entrar no mapa das atenções globais.

Exotika acaba de conhecer reedição em LP, numa edição que junta uma inner sleeve com recortes da imprensa da época que ajudam a reconhecer como eram então entendidos e discutidos. Uma das críticas compara o disco a uma tentativa de juntar, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, os Cabaret Voltaire, Art of Noise, New Order e Human League… Alguns dos condimentos fazem até sentido, mas a culinária é decididamente diferente. E de autor.

O presente que assiste ainda a semelhante política de reedição em vinil dos álbuns Heartbeat (1981), Trance (1982) e Songs of Love and Lust (1984), acolhe ainda a interessante experiência de revisitação de temas pela (agora) dupla Carter Tutti, recuperando como matéria prima temas da etapa em que se apresentavam como Chris and Cosey. Com o título Carter Tutti Plays Chris and Cosey (não há equívocos, portanto), e seguindo uma lógica semelhante à que em finais dos anos 90 levou os Sparks a revisitar-se a si mesmo em Plagiarism, o disco caminha entre canções como Love Bliss ou Sin, mostrando mais formas de relacionamento com um a obra e expressões de identidade que propriamente uma tentativa de revisionismo que tenta fazer novo o que não tem de o ser. Do álbum Exotika recuperam Dancing on Your Grave e Beatbeatbeat, este último numa abordagem cenicamente mais “cheia” e elaborada, mas não tão arrebatadora quanto o original ainda o mostra ser. Não é coisa bota-de-elástico da minha parte, mas fico feliz por não terem mexido em Exotika, a canção. Não que seja um santinho de altar onde se não deva mexer. Mas o que está bem, ou melhor, o que está tão bem, não precisa de novas vestimentas nem maquilhagens. E basta ouvir a reedição do LP em vinil para o compreender.

O álbum “Exotika” está reeditado em LP pela Conspiracy International, e disponível entre nós na Flur. A nova antologia de regravações “Carter Tutti Plays Chris and Cosey” tem lançamento em CD, LP e ed. digital através da CTI, a editora dos próprios músicos.

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