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Cantar a ‘Paixão’ no século XXI

Texto: NUNO GALOPIM

A evocação da Paixão de Cristo fez-se escutar na música de importantes compositores ao longo dos tempos. Através de obras de Osvaldo Golijov e John Adams podemos reparar que o século XXI está a encontrar novas formas de a abordar.

Elemento de importância fulcral na história da relação da música com a fé cristã (e ao fim ao cabo, da história da música ocidental), a evocação da Paixão de Cristo conheceu em várias épocas importantes expressões de alguns dos seus mais visionários compositores, aliando uma história que remonta às raízes (religiosas e culturais) do mundo cristão às linguagens musicais e aos contextos de época em que cada nova leitura ganhava voz.

E como o faz o presente? Como lida a cultura global do século XXI com uma narrativa com quase dois mil anos de vida? Como se pode pensar uma música religiosa para um tempo em que a comunicação entre formas musicais e culturas acontece de forma bem distinta das que viram nascer as Paixões de Bach ou até mesmo L’Ascencion, de Messiaen (um dos compositores com mais importante contribuição para a história da música sacra no século XX).

Através de duas ‘Paixões’ apresentadas já neste século podemos entender como uma tradição que faz parte da fundação da nossa identidade cultural pode conhecer novos pontos de vista sem a pôr em causa. Apenas ajustando aos contextos sociais e culturais do nosso tempo uma ideia que, no fundo, ajudou a definir quem somos coletivamente. As marcas da multiculturalidade, o diálogo entre formas musicais, a presença (incontornável) de marcas da música popular e uma atenção às questões de identidade de género, dando um outro protagonismo à mulher, são questões que passam por obras de Osvaldo Golijov e John Adams que, editadas em disco nos últimos anos, justificam hoje um episódio de revisitação.

Na América Latina
Entre as celebrações do 250º aniversário da morte de Bach, assinalado no ano 2000, a International Bachakademie Stuttgart desafiou quatro compositores a criar uma nova “Paixão”. O projecto Passion 2000 nasceu assim da vontade de redescoberta, no presente, de um género musical no qual Bach inscreveu paradigmas, convocando o trabalho de compositores do presente, numa seleção que teve em conta uma abrangência maior de geografias culturais e identitárias. O alemão Wolfgang Rihm (n. 1952), a russa Sofia Gubaidulina (n. 1931), o chinês Tan Dun (n. 1957) e o argentino Osvaldo Golijo (n. 1960), este último o mais novo do grupo, foram os escolhidos.

Rhim, sobre um texto de Paul Celan, compôs Deus Passus (Fragments Of a St Luke’s Passion), no qual transportou para as expectativas do presente as marcas expressas na memória do texto bíblico, colocando o sofrimento da humanidade junto ao de Deus. Gubaidulina, na sua Johannes Passion, enraizou a genética da escrita musical na tradição ortodoxa russa. Tan Dun, na Water Passion After St Mattthew, procurou marcas de arcaísmos, conferindo ao texto (e à música) uma dimensão atemporal. Golijov, de todos estes compositores hoje talvez o mais representativo do que podem ser as marcas de identidade da música do nosso século, cuja aurora então também se assinalava, projetou em La Pasión Según San Marcos as marcas de uma personalidade que cruza mundos distintos e que não se deixa rotular pelas características de uma cultura apenas.

Homem do mundo, expressão que junta traços da sua identidade familiar, vivencial e profissional, Osvaldo Golijov trouxe ao texto de São Marcos traços das culturas sul-americana, cubana e judaica, além de elementos naturalmente herdados de tradições da música erudita ocidental. Nesta sua “Paixão” Jesus não é um europeu de pele branca. No booklet da primeira gravação desta obra, Golijov explicava que, contra as imagens que conhecia da pintura renascentista e barroca, o “seu” Jesus é um homem de pele escura. “Estive em Jerusalém e em Belém, vi as pessoas que ali habitam, e claramente não se parecem nada com as que vemos naquelas pinturas italianas”, explica.

A Pasión Según San Marcos projeta a ação (e a memória bíblica) num cenário de rua, algures na América do Sul do presente, na qual as culturas herdadas de Espanha e de África (via escravatura) se cruzam. Dominada por lamentações provocadas por várias etapas de sofrimento em dois mil anos de história a obra apresenta-se mais como uma expressão de humildade que de dor. Elementos rítmicos e expressões várias de culturas musicais latino-americanas (onde não falta um “ramo” de salsa) são parte da caracterização de uma obra que, como muita da música de Golijov, não teme o expressar das ligações ao mundo da música popular, particularmente as expressões folk. Aqui, afinal, apenas mais um passo numa manifestação de uma curiosidade pela multiculturalidade que conhecemos já de Bartók e Grieg a Vaughan Williams, se bem que o resultado final, pela forma como evidencia marcas da cultura popular, possa estabelecer aparentes paralelos com construções de diálogo entre culturas que no século XX nos deram abordagens a heranças da música religiosa cristã segundo vozes de outras latitudes na Missa Criola de Ariel Ramirez (também ele argentino) ou na Missa Luba, que nesceu de arranjos do padre franciscano belga Guido Haazen, sobre canções do Congo. Mais próximo estará contudo o diálogo para géneros, épocas e geografias que Leonard Bernstein convocou, em 1971, para a composição da sua Missa, uma obra de grande fôlego que sobre traduzir, sobre uma tradição antiga, as marcas da multiculturalidade do seu tempo e do seu lugar no mundo.

Luciana Souza, a cantora brasileira que anos depois Osvaldo Golijov convidaria a protagonizar a cantata Oceana, deu voz à primeira gravação desta Paixão (editada pela Hänssler Classic), que juntava vários outros músicos e grupos sul-americanos, sob direcção de Maria Guinard.

A Pasión Según San Marcos conheceu em 2010 nova edição em disco, pela Deutsche Grammophon, num formato 2 CD + DVD que, na verdade, apresentava duas gravações distintas da obra. O CD junta as vozes de, entre outros, Jessica Rivera (soprano) e de Reynaldo González-Fernandez (cantor cubano), acompanhadas pela Orquestra La Pasión, alguns elementos da Orquestra Simón Bolívar e o Schola Cantorum de Venezuela, sob direcção de Maria Guinard. O DVD apresenta uma produção desta obra em Amsterdão, em 2008, recuperando as duas vozes acima citadas, bem como a orquestra La Pasión e o mesmo coro, mas com direcção de Roberto Spano.

Um novo ponto de vista
Aquele que representou um dos maiores lançamentos discográficos de 2014 na área da música clássica assinalou um novo episódio de colaboração entre o compositor norte-americano John Adams (n. 1947) e o maestro venezuelano Gustavo Dudamel. Adams compôs City Noir para o concerto de estreia de Dudamel como diretor da Los Angeles Philharmonic, obra que teve edição em suporte digital em áudio e, depois, em DVD (em The Inaugural Concert, onde se juntava a esta obra a Sinfonia Nº 1 de Mahler que representava a peça central do programa dessa noite). Compositor e maestro voltaram assim estar juntos em The Gospel According To The Other Mary, uma oratória para orquestra, solista e coro que conheceu estreia em disco pela Deutsche Grammophon há cerca de um ano.

A obra tem como base um libreto assinado por Peter Selllars, colaborador regular de John Adams (peça central em Nixon in China, a primeira ópera do compositor, estreada em 1987). Sellars juntou textos de origens diversas, passando por autores como Dorothy Day, Louise Erdrich, Primo Levi, Rosario Castellanos, June Jordan, Hildegard von Bingen ou Rubén Darío, além das palavras do Velho e do Novo Testamento. A oratória foca atenções na Paixão de Cristo, mas procura um ponto de vista algo diferente escutando sobretudo as vozes de duas mulheres por vezes secundarizadas, nomeadamente Maria Madalena e Marta, a irmã de Lázaro.

Musicalmente The Gospel According To The Other Mary trilha o seu rumo pelos caminhos estimulantes que a música orquestral e vocal de Adams tem seguido nos últimos anos, aliando um belíssimo trabalho do canto a uma noção de espaço acolhedor (e capaz de suportar intenções dramáticas) na cenografia ao seu redor, apesar de pontualmente revisitar ecos mais próximos das heranças minimalistas da sua obra nos oitentas no modo como usa ocasionalmente figuras repetitivas. Num dos momentos de clímax dramático uma aproximação a formas ligetianas contribui para novo alargamento das linhas e cores com que a música de Adams aqui se renova e desafia.

A Pasion Según San Marcos, de Osvaldo Golijov, está disponível numa edição (com 2 CD) apresentada em 2012 no quadro da série 20C da Deutsche Grammophon, que recupera a gravação editada em disco em 2010. Esta gravação, também disponível em serviços de streaming e para venda por download, existe também no formato original (2 CD + DVD), pela Deutsche Grammophon. A gravação original, em 2 CD, pela Hänssler Classic, vai sendo já uma peça para colecionador.

A gravação de The Gospel According To The Other Mary, de John Adams, está disponível em formato de CD, ed. digital e streaming, pela Deustche Grammophon.

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