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Nos 100 anos de Billie Holliday

Texto: NUNO GALOPIM

Novas antologias em disco, reedições em CD e vinil, uma biografia musical publicada em livro e um programa de atuações e homenagens em disco e nos palcos celebram a grande cantora que nasceu faz hoje 100 anos.

Nova Iorque, 1929. Na hora de escolher um nome pensou numa atriz que admirava e no pai, que não tinha sequer casado com a sua mãe e havia inclusivamente partido para tentar uma carreira como guitarrista de jazz. Ela chamava-se Billie Dove e fez carreira nos tempos do cinema mudo, com momento maior vivido em 1926 ao lado de Douglas Fairbanks em O Pirata Negro. Ele era Clarence Holiday e ao ter deixado Sarah Fagen grávida, abriu o primeiro episódio de errância na vida da filha que nasceria em Filadélfia (para onde a mãe de mudara depois de expulsa de casa dos pais), a 7 de abril de 1915. No registo lia-se então o nome Eleanora Fagem. Mas naquele dia de 1929, já com um historial de momentos difíceis, apesar de não ter ainda chegado aos 15 anos de vida, a jovem Eleanor começava a cantar regularmente em clubes do Harlem (em Nova Iorque) como Billie Holliday.

Foi pela sua voz, numa autobiografia na verdade nascida de uma série de entrevistas conduzidas por William Duffy, das quais ele mesmo depois redigiu o texto, conhecemos muitos destes episódios. Se bem que haja quem aponte que Lady Sings The Blues possa ter deixado de fora alguns elementos, num eventual processo de autocensura talvez definido pelas matrizes dos códigos da época em que o livro surgiu (em meados dos anos 50), o livro assegura o era uma vez que dá conta de toda uma juventude difícil e precária. O abandono da escola, a passagem por um reformatório e a prostituição são apenas primeiros instantes de uma vida assombrada, assombrada pelo consumo de drogas (e os episódios de detenção que causou), relacionamentos conturbados e todas as consequências de um dia a dia feito num tempo de segregação racial que chegou mesmo a gerar focos de conflito perante a humilhação de, ao contrário dos colegas da banda de Artie Shaw com quem a dada altura trabalhou, não ser autorizada a entrar no bar do hotel onde estavam ou a usar o elevador principal, tendo de recorrer ao de serviço.

É tentador reconhecer no desencanto da sua voz algumas destas marcas. Mas há que notar que, quando começou a cantar, foi a liberdade do seu fraseado vocal, capaz de uma aproximação ao que então faziam os novos músicos de jazz, que cativou primeiras atenções. Há a dor e a sua expressão. Mas há uma técnica. E aquela criatividade maior que distingue os grandes talentos dos que são apenas virtuosos. Cem anos depois do dia em que nasceu não é dificíl encontrar exemplos de descendências, que não só são marcantes em toda a história do jazz mas chegaram mesmo a outras formas da canção e podem ir de uma Nicolette ou Annie Lennox a uma Amy Winehouse.

Billie Holliday chamou primeiras atenções nos dois anos que cantou essencialmente entre clubes do Harlem. Benny Goodman recorda-se de a ali ter escutado pela primeira vez ter escutado em 1931. Curiosamente seria com ele que Billie gravaria primeiros discos – em 1933 – um deles, Riffin’ The Scotch, transformando-se mesmo num caso de êxito ao alcançar vendas na ordem dos cinco mil (volume expressivo na época). Em 1935 inicia uma relação regular com a Brunswick Records, numa fase em que tem o saxofonista Lester Young como colaborador regular, cabendo a este a autoria do cognome “Lady Day”, com que muitas vezes é depois referida. Em finais dos anos 30, em tempo de sucesso das big bands, canta primeiro com a de Count Basie, depois com a de Artie Shaw. Em finais dos anos 30 surge uma ligação discográfica com a Columbia Records, seguindo-se uma passagem pela Commodore, a Decca, mais tarde a Clef Records, a Verve (que entretanto absorvera a Clef) e, no seu último ano de vida, ainda a MGM Records.

Apesar dos episódios adversos (tribunais, prisão, desentendimentos, desaires financeiros), cantou ao vivo e gravou até ao fim. Morreu em julho 1959 depois de lhe ser diagnosticada uma cirrose hepática que a obrigou a um internamento, vivendo parte desses últimos dias sob escolta policial na sequência de novo episódio de posse de drogas.

A sua versão de Summertime em 1936, assim como Strange Fruit (de 1939 – ver vídeo em baixo -, uma das primeiras grandes manifestações anti-racismo transformadas em sucesso musical), God Bless The Child (que vendeu três milhões de cópias em 1941) e temas como Lover Man ou Travelin Light (ambos de 1942), que assinalaram a sua representação em lugares de destaque quando a Billboard criou uma tabela de R&B são apenas expressões mais mediatizadas de uma discografia vasta que, em tempo de centenário, acolhe novas antologias e reedições.

A Verve acaba de lançar a antologia God Bless The Child. A Sony Music, que detém o catálogo da Columbia, apresenta a compilação The Centennial Edition e a caixa antológica de 4 CD Lady Day: Master Takes and Singles, juntando ainda ao lote de novos lançamentos, na próxima semana, uma reedição (com extras) do álbum de 1958 Lady in Satin, a sua penúltima gravação de estúdio. Entre várias outras edições assinala-se o lançamento, num LP em vinil, de um registo gravado ao vivo em Monterrey em 1958, pela Mr. Suit.

Além das edições em disco, entre os lançamentos a assinalar o centenário da cantora conta-se o livro Billie Holliday: The Musician and The Myth, de John Szwed, volume que procura focar essencialmente atenções na história musical da obra e não tanto os episódios dramáticos, já tantas vezes descritos, da vida pessoal.

Homenageada já muitas vezes, de Angel of Harlem dos U2 a My Only Friend dos Magnetic Fields, sem esquecer ou a versão de Lady Day de Frank Sinatra, a de Lover Man pelos Communards ou a vez em que Diana Ross vestiu a sua pele na adaptação ao cinema de Lady Sings The Blues, em 1972, Billie Hollyday está na agenda de 2015 de várias vozes e lugares, Nomes como os de Cassandra Wilson, Joey Arias ou Jamie Cullum surgem destacados na lista de concertos publicada no site oficial que assinala o centenário. O Carnegie Hall recriou este fim de semana o célebre concerto que a cantora ali deu em 1956, com Denise Pearson como protagonista. O Apollo Theatre acaba de a juntar ao seu Hall of Fame.

Cassandra Wilson edita ainda, entretanto, o álbum de homenagem, Coming Forth by Day e José James lança Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday, ambos feitos de versões de temas que a voz da cantora imortalizou. Já a pianista Lara Downes edita o álbum A Billie Holiday Songbook.

Ainda haverá muitas ocasiões para a vermos no centro das atenções este ano.

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