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One Direction: além das canções

Texto: JOÃO MOÇO

A saída de Zayn Malik da boy band britânica criou um vazio em milhares de fãs. Mas aconteça o que acontecer, os One Direction já marcaram o actual contexto pop como poucos. E para melhor.

Já foi há mais de uma semana e parece que foi ontem. Zayn saiu dos One Direction. Se para uma boa parte dos potenciais leitores este facto pouco ou nenhuma relevância tem, para quem, como eu, se viu sugado nos últimos anos por este fandom que tomou conta do mundo, a notícia foi um choque. Não pela surpresa. Era inevitável que este ano o reinado desta boy band britânica ia começar a dar de si. E já era expectável que o primeiro a ceder seria Zayn Malik, aquele que ao início muitos apelidavam de “o misterioso”, porque neste regime de boy bands há sempre que forçar a aliança de cada elemento a um cognome, mesmo que essa associação seja altamente redutora e caricatural. Não só pelo silêncio a que se votava nas entrevistas ou pela ausência na campanha promocional ao álbum Four (2014), mas acima de tudo pela atitude que foi revelando de concerto para concerto. Tive a felicidade de no ano passado ter ido ao Porto vê-los ao Estádio do Dragão e foi desde logo evidente o desconforto que ele sentia em estar ali, a ser escrutinado perante o olhar de milhares de miúdas/os que o admiravam como um deus grego, a ter de cumprir um papel num formato a que já não pertencia.

No entanto, esta notícia levou-me a refletir. Sobretudo sobre o impacto que a postura dos One Direction pode ter neste mundo ainda tão preocupado em legislar sobre as orientações sexuais de cada ser humano, mas também a importância que foi ter, até agora, Zayn Malik, um britânico de ascendência paquistanesa que nunca escondeu a sua religião, como uma figura tão central no actual contexto pop.

Associar os One Direction a um declínio da homofobia na sociedade ocidental não é tão escabroso quanto possa parecer, mesmo que não esteja aqui a defender que eles sejam o motor dos factos, mas mais um sintoma ou reflexo dessa mesma mudança em curso (e há ainda tanto por fazer). Há uns dois anos li um estudo do académico britânico Mark McCormack, materializado no livro The Declining Significance of Homophobia: How Teenage Boys Are Redefining Masculinity and Heterosexuality, no qual este defendia que se está a dar, entre adolescentes, uma redefinição dos códigos de masculinidade, sendo que essas mudanças face aos padrões heteronormativos contribuem para o declínio da homofobia.

Ao pensar nessa redefinição dos códigos de masculinidade vem-me imediatamente à memória uma série de momentos protagonizados pelos cinco One Direction. Durante os últimos anos tem sido habitual ver em telediscos, vídeos promocionais, entrevistas, imagens de concertos, os elementos do grupo a expressarem uma proximidade física entre si como forma de revelarem o seu afecto ou, simplesmente, porque assim o desejam fazer, sem qualquer agenda. Existem os casos paradigmáticos dos telediscos de Kiss You (cujo título serve de pretexto para os beijos trocados entre Harry Styles, Zayn Malik e Niall Horan) e de Best Song Ever (no qual Harry tenta seduzir Zayn, aqui travestido de secretária de um estúdio de Hollywood). A naturalidade com que manifestam ainda hoje essa proximidade física, sem receios das conclusões que o público possa tirar, só pode ser de salutar e não tem precedentes. Não desta forma. Por isso eles são tão importantes, à parte de terem criando alguns das melhores pérolas pop deste início de século XXI.


A outra questão prende-se com a saída de Zayn. Vive-se hoje num mundo pós-11 de Setembro, pós-#jesuischarlie, um mundo altamente islamofóbico, um mundo que condena qualquer aproximação a uma herança muçulmana. No entanto, o cantor de 22 anos nunca escondeu essa presença e as suas crenças, mesmo quando recebeu ameaças de morte depois de ter escrito no Twitter #FreePalestine. E até hoje não apagou esse tweet, ao contrário de outras figuras igualmente mediáticas. Ter alguém no topo do reino pop como Zayn Malik, que não seja mais um rapazinho branco bem-parecido, é particularmente importante numa sociedade branca e ocidental que exige a 1,6 mil milhões de crentes no islamismo que respondam e se desculpem pelos actos de meia dúzia que cometem certas atrocidades, esquecendo essa mesma sociedade os telhados de vidro que construiu ao longo de séculos.

Depois existe o facto de, mesmo que o meu preferido dos One Direction seja (até ao fim dos dias) Harry Styles, a verdade é que Zayn era de facto o melhor cantor dos cinco, o que tinha a maior amplitude vocal, sendo ele responsável pelo corpo que dá sustento a muitos dos refrães das canções do grupo. Harry não está longe (nas capacidades) e a partir de agora cabe-lhe a ele criar essas estruturas, mas até aqui era Zayn que dominava neste lado, mesmo que depois se aproximasse da invisibilidade quando tinha de subir ao palco das celebridades, algo que Harry domina como tão bem.

O que é que acontecerá agora? Ao que parece já anda a circular por aí uma canção (não finalizada) que Zayn terá gravado com Naughty Boy. Uns referem-se a ela como uma possível porta para um disco a solo, outros dizem que a gravação já é antiga e vem dos tempos das sessões de Four. Mesmo que me custe a afirmá-lo, creio que o fim está mais próximo do que era desejável. A história costuma repetir-se e os recentes acontecimentos só levam a crer que nem os One Direction estão a salvo disso. Mas o que eles me deram, e a milhares de fãs por esse mundo fora, já foi tão importante e marcante – ou não fossem uma boy band tão naturalmente homoerótica que até se referem aos Village People num dos seus vídeos – que sei nada voltará a ser o mesmo, seja qual for o desfecho disto tudo.

1 Comment on One Direction: além das canções

  1. Desconhecida's avatar Frederico Batista // Abril 7, 2015 às 1:07 pm // Responder

    lel. nunca ouvi

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