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A Lua é ‘indie’?

Texto: NUNO GALOPIM

A ‘graphic novel’ do ilustrador Andrew Rae, revela um universo de sonho e fantasia que nos faz mesmo imaginar uma música que não existe.

Imaginem um rapaz igual a tantos outros. Mas com apenas uma diferença: tem uma Lua por cabeça. Às vezes tem a cabeça na Lua, é verdade. Mas aqui não se trata de uma metáfora. Ele tem mesmo uma Lua no lugar em que todos nós temos a cabeça. Uma Lua quem nem sempre anda junto ao corpo, não sendo invulgar que, ao acordar, Joey Moonhead cumpra todas as rotinas matinais, com a dose de sonolência característica da idade, e chegue mesmo a seguir para a escola, sem que a cabeça, ou antes, a Lua, acorde e o acompanhe. Vá lá, chega a horas da chamada para não dar mais ainda nas vistas.

Este é o ponto de partida para uma deliciosa graphic novel assinada por Andrew Rae, um ilustrador (ligado ao coletivo Peepshow) com obra feita em periódicos como o New York Times ou Guardian, editoras como a Penguin ou Nobrow e marcas como a Sony Playstation ou Nike. Tem uma vasta obra já publicada em livro e é também músico. É quase um veterano. E porém, Moonhead and the Music Machine é a sua primeira graphic novel.

Na essência a narrativa apresenta um coming of age como tantos outros, que toma a escola por cenário e junta os condimentos de encanto e desencanto de sempre, uma dose de bulling e episódios de paixão por uma das raparigas mais vistosas (que não podia deixar de ser namorada do bully-mor que, por sua vez, é filho de um importante e muito rico produtor musical a quem a música, ou alguns extras associados ao rock’n’roll lifestyle, deixaram marcas visíveis). Joey é um estranho em terra estranha (o título de Heinlein dá um jeitão vezes sem conta, é verdade). Diferente entre os diferentes, tímido e desinteressado pelo mundo ao seu redor – ao que se junta o facto de ser vítima de bullying – encontra um oásis de satisfação plena quando um dia resolve construir um instrumento musical. Faz um protótipo tosco. Um outro rapaz estranho, que se esconde sob um lençol como um fantasma, ajuda-o a aperfeiçoar a ideia. E juntos produzem uma música com um raro poder de encantamento.

É da força da relação de Joey com a música, afinal nada mais senão uma marca de identidade do próprio autor – que Andrew Rae dá tutano à história e às imagens. Há capas de discos de bandas imaginárias, há concertos (e concursos). E todo um imaginário que encaixa em perfeição no que podemos entender como um universo de expressões visuais e narrativas com associações claras para com a cultura indie do nosso tempo.

Joey Moonhead é apresentado nesta graphic novel de 176 páginas e com ele surge todo um universo de fantasia que a história sabe explorar e as imagens podem levar depois ainda mais longe. De resto, há já uma página no Tumblr e uma no Facebook, assim como contas no Instagram e Twitter dedicadas à personagem e ao seu universo. E, sendo ele também um músico, Andrew Rae chegou até a apresentar uma materialização do som da banda de Joey Moonhead – chamam-se The Moonheads, sem surpresa – com um álbum já disponível via Bandcamp e até mesmo num teledisco que assim junta esta figura desenhada a uma história de cartoon bands onde nomes como os Archies (sim, os de Sugar Sugar), UNKLE e Gorillaz são autores de episódios com expressão importante.

Confesso que, pelas sugestões das imagens, pelas formas e cores de alto teor psicadélico-friendly (podemos inventar a expressão, certo?), associava à banda de Joey Moonhead algo ali no cruzamento de uns Olivia Tremor Control com os instrumentais mais suculentos do Moon Safari dos Air… E dos temas do álbum que agora podemos também escutar, talvez só Nothing To Do se ajuste a algo no terreno em que imaginara o som… Como na boa ficção, o poder de sugestão leva cada um a criar o que se não pode inferir pela leitura e pelas imagens segundo as suas referências. A música e o teledisco (que podem ouvir e ver no link apresentado mais abaixo) não são contudo um entrave à nossa liberdade e criatividade enquanto leitores. São um extra e nem integram a edição em livro.

“Moonhead and the Music Machine”
de Andrew Rae
Nobrow Press, 176 págs
ISBN 978 1 907704 78 9

Podem ver o teledisco e ouvir o álbum aqui.

2 Comments on A Lua é ‘indie’?

  1. Grande sugestão.
    Sabe onde se pode comprar o livro?
    Obrigado

    Gostar

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