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Mordechai Geldman, Michael Jordan e Rui Cardoso Martins

Texto: HELENA BENTO e JOÃO SANTANA DA SILVA

“Teoria do Um”, do poeta israelita Mordechai Geldman, uma biografia de Michael Jordan, da autoria de David Halberstam, jornalista e historiador norte-americano, e o mais recente romance de Rui Cardoso Martins, “O Osso da Borboleta”, são as nossas sugestões de leitura para as próximas semanas.

Pormenor da capa de "Osso da Borboleta"
  • Mordechai Geldman
    “Teoria do Um”

No prefácio a Teoria do Um, do poeta Mordechai Geldman, editado em março pela Douda Correria, João Paulo Esteves da Silva, responsável também pela tradução do livro, escreve: “Mordechai Geldman apurou uma poesia de sobrevivências, luzes (ele chama-lhes mesmo, sem pruridos, verdades) que se acendem por um breve instante quando se o poeta se deixa ficar calado perto dos limites, a espreitar sem medo, à escuta do mais extremo”.

Nascido em Munique, num campo de refugiados, em 1946, Mordechai Geldman emigrou aos quatro anos com os pais para Israel, Tel Aviv, onde vive atualmente. Formado em Psicologia Clínica (área em que continua a trabalhar), começou a escrever poesia em 1966. Autor de uma vasta obra, que inclui, além da poesia e da prosa literária, ensaios sobre psicologia clínica, artes plásticas e literatura, bem como trabalhos nas áreas da fotografia e pintura, é considerado, no contexto da literatura israelita, um dos maiores poetas hebraicos contemporâneos. – H.B.

Vizinha

A Ana morreu
nos troncos e nas entradas dos prédios
penduraram avisos
a convocar os tristes para o luto
por ela e por si mesmos
e a treinar os transeuntes
na negação da própria morte
o anjo magro encarregado da alma dela
ainda se demora um pouco no pátio

nos seus últimos tempos tinha ficado cega
talvez fosse castigo
por ter sido sempre cega
por a sua vista ter sempre retirado
às coisas e aos seres
a beleza
a vida passou-a sem qualquer assombro
os olhos corriam atrás dos defeitos

no final fez-se fina e branca
como papel
carregaram-na ao vento com cuidado
e pousaram-na no pó
como num envelope
uma última carta para si mesma.

  • David Halberstam
    “Playing for Keeps: Michael Jordan and the world he made”

A poucos dias do início dos playoffs da NBA, e em tempos de monopolização futebolística, vale a pena viajar no tempo com David Halberstam (1934-2007), jornalista e historiador norte-americano, e conhecer a vida e a carreira daquele que foi talvez o melhor jogador de sempre da história deste desporto, quiçá do desporto em geral: Michael Jordan. Playing for Keeps: Michael Jordan and the world he made (1.ª ed.: 1999) é mesmo aquilo que o subtítulo promete. A espantosa carreira e a vontade de vencer de Jordan são apenas a desculpa (e uma bonita desculpa, para os que tiveram a sorte de ver His Airness a jogar) para desocultar os recantos do complexo desporto universitário nos EUA, as rivalidades que nasceram e desapareceram ao longo dos anos e o quanto a NBA mudou ao longo das décadas de 70, 80 e 90 do século passado. E essas mudanças são muito profundas. Na era pré-Jordan, conhecemos uma jovem liga NBA acabada de se reestruturar e a batalhar por um lugar dominante no espaço público. Tarefa árdua, já que, então, o basquetebol era apenas o terceiro desporto nacional, a alguma distância do futebol americano e do baseball (a final dos playoffs de 1980, entre os LA Lakers e os Philadelphia 76ers, uma das mais vistas de sempre, foi transmitida em diferido na CBS, com qualidade de um VHS). As querelas de balneário, as birras das estrelas, os contratos a tornarem-se milionários, o mundo da publicidade a descobrir o potencial da NBA e vice-versa, o profundo racismo das agências publicitárias de Madison Avenue e da sociedade americana (quem quereria comprar um par de ténis usado por um desportista negro?), as táticas dos treinadores, os agentes, as carreiras interrompidas a meio, está tudo em Playing for Keeps. E David Halberstam tem o dom de um grande contador de histórias, o de pegar em factos que já todos conhecem e voltar a baralhá-los, contando uma história muito familiar como se fosse algo completamente novo. Quase sem se notar, fica-se a conhecer um mundo. – J.S.S.

 

  • Rui Cardoso Martins
    “O Osso da Borboleta”

Fazendo a transição do desporto para o mundo plenamente literário, falemos de outra grande transferência de inverno. Tal como os grandes e cobiçados jogadores de futebol, Rui Cardoso Martins (n. 1967), no final do ano passado, deu à luz o seu quarto e mais recente romance em nova editora. Após três livros publicados na Dom Quixote, é a vez da Tinta-da-china, que põe nas estantes O Osso na Borboleta, lado a lado com a coleção de ficção de língua portuguesa que se iniciou com Dulce Maria Cardoso e O Retorno (talvez, até hoje, o melhor romance português do século XXI) e tem ainda nomes como Alexandra Lucas Coelho, Luiz Ruffato ou Mário de Carvalho, entre outros. Em O Osso da Borboleta, evocam-se alguns temas que compõem a história contemporânea portuguesa (de Salazar à burocracia de repartição e à neutralidade na II Guerra Mundial), e que na verdade funcionam como sombras sobre a atualidade. São vários episódios que se sucedem, pintando uma vasta tela a que se poderá arriscar chamar Portugal. Não são histórias interligadas que se vão enovelando cada vez mais até adquirir uma forma que faça sentido ao leitor. Nem são, propriamente, pequenos contos isolados, porque não há grande preocupação com uma forte linha narrativa que os lance na sua vidinha autónoma. Neste romance, o país de Rui Cardoso Martins é, sobretudo, mental. Bem como a história, que se faz de dúvidas, de hesitações das personagens, de fúrias e dessas sombras do passado. “Projetos para o futuro? Tenho é bons projetos para o passado”, diz-se nas suas páginas. – J.S.S.

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  1. Teoria do Um – Vol. I – Mordechai Geldman – Douda Correria

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