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Para ouvir o campo

Texto: NUNO GALOPIM

Um compositor e um oboísta desafiam-nos a uma caminhada rural pelas ilhas britânicas entre obras de Vaughan Williams, James MacMillan e Benjamin Britten.

A proposta é a de uma caminhada feita com sons através de paisagens rurais das ilhas britânicas, tomando como mote uma série de composições criadas entre o século XX e o nosso tempo e tendo como protagonistas um compositor e um oboísta.

O compositor (não o único representado no disco, mas já lá iremos), é o escocês James MacMillan (n. 1959), que teve como figura central da sua primeira ópera a rainha portuguesa D. Inês de Castro (estreada em meados dos anos 90) e conta entre os seus trabalhos mais célebres o concerto para percussões Veni, Veni Emmanuel, de 1991. A sua educação católica – que está patente em vários trabalhos de música religiosa que tem assinado ao longo dos anos – e um interesse pelos ecos próximos da cultura escocesa ajudaram a definir progressivamente uma personalidade que aqui reencontramos num Concerto para Oboé composto em 2011 e que ele mesmo dirige nesta que representa a sua estreia em disco, em gravação pela Britten Sinfonia, tendo como solista o oboísta Nicholas Daniel, a quem a obra foi dedicada. MacMillan inclui ainda no alinhamento a sua curta composição orquestral One, de 2012, e volta a dirigir a interpretação da Suite on English Folk Tunes: A Time There Was, op. 90, obra de 1974 que correspondeu à derradeira composição orquestral de Bejamin Britten (1913-1976), estreada no (seu) Festival de Aldebrough e que evoca a memória do pianista norte-americano, de origem australiana, Percy Gainger, cuja frequentemente assinalou pontos (e pontes) de reflexão sobre as tradições folk.

O oboísta britânico Nicholas Daniel (n. 1962), e um dos fundadores da orquestra de câmara Britten Sinfonia, é outra das figuras em evidência neste conjunto de gravações. Não só no concerto de MacMillan e na suite de Britten (onde toca corne inglês), como na obra que abre o disco, o belíssimo Concerto para Oboé e Cordas em lá menor, que Ralph Vaughan Williams (1872-1958) apresentou pela primeira vez em 1944 e que, em 1980 deu ao ainda muito jovem oboísta um prémio, vencendo então o BBC Young Musician of The Year.

O disco cruza assim épocas recentes, que estão dentro do nosso tempo de vida, dos nossos pais e avós, recuando às visões mais distantes e já algo nostálgicas de uma realidade pastoral que o tempo afastou das vivências de muitos de nós e que surge ainda clara no concerto de Vaughan Williams e rumando ao presente, mostrando uma forma de pensar a relação da música orquestral do nosso tempo com esses mesmos ecos (e aí temos de escutar o MacMillan). Isto sem esquecer o belíssimo Britten, numa obra que, mesmo concluída num tempo em que a doença já assombrava os seus dias, não deixa de traduzir momentos de uma frescura campestre que, de facto, cruza alguma da música britânica do século XX.

“Oboe Concertos”, com música de Vaughan Williams, MacMillan e Benjamin em interpretações da Britten Sinfonia, com James MacMillan (maestro) e Nicholas Daniel (maestro e oboísta) acaba de ser editado em CD pela Harmonia Mundi e tem também edição em formato digital, assim como está disponível em plataformas de streaming.

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