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O tríptico de referência de Wim Mertens

Texto: NUNO GALOPIM

Os álbuns “Struggle For Pleasure” (1983) e “Maximizing The Audience” e a banda sonora de “The Belly of an Architect” têm agora reedição em discos de vinil.

Três discos da etapa mais criativa (e marcante) da obra do compositor belga Wim Mertens (n. 1953) tiveram recentemente reedição em LP de vinil, assinalando os lançamentos mais uma afirmação de que os apetites do público destes espaços da música contemporânea fazem cada vez mais parte a ter em conta entre um universo de melómanos que reencontraram neste velho suporte a resposta a um desencanto pelas formas de ouvir música na era digital.

As edições chegam em prensagens de vinil de 180 gramas e com o selo Music on Vinyl, uma editora holandesa que tem dedicado o seu catálogo à prensagem de títulos em várias frentes da invenção musical, em alguns casos tendo já garantido primeiros lançamentos em LP de álbuns originalmente apenas disponíveis em CD, como foram os recentes lançamentos das primeiras gravações da Low Symphony e da Heroes Symphony, de Philip Glass.
Através do catálogo da Music on Vinyl Wim Mertens reencontrou vida no suporte de vinil de três álbuns que originalmente surgiram antes da chegada do CD como formato protagonista, dois deles editados até numa altura em que a música do compositor surgia em discos assinados pelo Soft Veredict, o grupo que ele mesmo liderava e que então dava voz às suas composições.

Struggle For Pleasure (1983) e Maximizing The Audience (1985) representam mesmo os momentos maiores da obra de Mertens. Depois de ter estudado ciências políticas e piano, a sua atividade musical anterior a 1980 esteve essencialmente centrada em trabalhos de produção para a rádio estatal belga, promovendo também concertos de nomes como Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Meredith Monk ou o coletivo Urban Sax. O evidente interesse pelo trabalho dos minimalistas – que resultaria depois na assinatura de American Minimal Music, um dos livros de referência sobre esse grupo de compositores – ficou também bem cedo evidente na obra que começou a assinar e a registar em disco a partir de 1980.

Depois de trabalhos mais experimentais – como For Amusement Only (1980), centrado na exploração de electrónicas ligadas a máquinas de jogos – e de um breve flirt com formas e instrumentação mais próximas da cultura pop – no EP At Home – Not at Home (1982) – é em Vergessen (1982) que encontra um patamar de diálogo entre os ecos do minimalismo e um lirismo de escola europeia que lhe permitem definir os caminhos vários que a sua música tomará logo a seguir.

Struggle For Pleasure é, depois de uma primeira arrumação de ideias que se escutara já em Vergessen, quase uma montra onde se juntam referências e pontos de partida para etapas seguintes. O tema-título, assim como Gentleman of Leisure que fecha o alinhamento, acolhem heranças dos caminhos recentes da obra de Philip Glass (fase Glassworks). Tal como em Salernem, na qual já como em Mildy Skeeming do álbum anterior se sente a presença do trabalho com electrónicas de finais dos anos 60, sobretudo em Terry Riley, são momentos que assinalam a vontade de estabelecer uma ponte entre as fundações de uma nova música que entretanto nascera nos EUA mas conhecia agora novo terreno de expressão, e de progressiva libertação e invenção na Europa. Ao mesmo tempo em Close Cover Wim Mertens dá primeiros sinais de uma vontade maior em trabalhar música para piano – que em breve o levaria a After Virtue (1988) e a ciclos de canções que terão momento fulcral em A Man of No Fortune and With a Name to Come (1986) – e em Tourtour enceta uma exploração das potencialidades dos metais e da harpa que teriam impacte maior em discos como respetivamente Instrumental Songs (1986) e Educes Me (1987).

Se Struggle For Pleasure arrumava a casa e lançava ideias, Maximizing The Audience aproveitava a embalagem tomada para ousar ir mais além, sobretudo na vontade de criar peças de maior fôlego, sem contudo perder o espírito da “petite musique de chambre” do álbum de 1983. O tema-título do álbum é uma intensa peça de fulgor maior, composta para voz e ensemble para servir The Power of Theatrical Madness, de Jean Fabre, que teve estreia em Veneza em 1984. Está contudo longe de se esgotar nesta que é uma das peças de referência de Mertens a alma de um disco que, tal como o anterior, completa afinal uma etapa de descoberta e lançamento de ideias que em breve definirão o corpo da linguagem do compositor. Circles, que abre o alinhamento, é um longo ensaio minimalista para metais que vinca uma vez mais as filiações de parte desta música nas correntes escutadas do outro lado do oceano. Lir e The Fosse dão novos passos no relacionamento com o piano, a segunda destas peças a encontrar já o registo pelo qual nasceria um primeiro disco de canções no ano seguinte. O sussurrante e belo Whisper Me, que fecha o disco abre espaço a uma presença das cordas, prenunciando algumas futuras obras.

É curioso que o trio de discos que assinala a estreia do catálogo de Mertens na Music on Vinyl se conclua com a banda sonora para o filme de Peter Greenaway The Belly of An Architect, momento que representou um intervalo no que era então um relacionamento regular entre o realizador britânico e o compositor Michael Nyman (que, com Wim Mertens, representa outra das primeiras vozes europeias a assimilar os ecos do minimalismo). Para o filme Wim Mertens recuperou algumas composições recentes, apresentando-as em novos arranjos, a elas juntando algumas peças novas como Birds For The Mind ou The Aural Trick, onde assinala uma forma de dialogar das heranças minimalistas com escolas clássicas europeias mais na linha do que era o trabalho de então de Nyman que o que nos estava então a mostrar em discos seus editados nessa mesma altura. O álbum inclui ainda música de Glenn Branca representando mesmo assim uma peça importante na história da discografia de Mertens sendo, na verdade, uma das bandas sonoras de culto dos anos 80.

Os álbuns “Struggle For Pleasure”, “Maximizing The Audience” e “The Belly of An Architect”, de Wim Mertens, estão disponíveis em novas edições em vinil pela Music on Vinyl.

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