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A noite em que uma nave aterrou no Rossio

Texto: NUNO GALOPIM

Era um pequeno disco voador. Depois de cruzar o espaço para além do grande ecrã, cortesia das projeções 3D, encaminhou-se para a superfície do planeta. Instantes antes, e já ao som de Spacelab, as imagens, que antes mostravam a Terra como um todo, tinham focado atenções sobre a Península Ibérica, mais adiante claramente mostrando Lisboa como sendo o seu destino… A sala, à pinha, aplaudia entusiasmada com o cartão de visita… Mas ninguém estava ainda a imaginar que, segundos depois, o mesmo ecrã suspenso por detrás dos quatro músicos, mostrava aquele disco voador branco e polido a aterrar em pleno Rossio. Ou seja, ali mesmo a uma rua de distância do Coliseu de Lisboa. A estratégia de comunicação fez lembrar o uso da bandeira ou do cachecol da seleção nacional que frequentemente gera empatia evidente em tantos concertos pop/rock, embora aqui numa alternativa devidamente enquadrada no contexto dos sons, das imagens e da própria personalidade da obra e seus autores. Afinal eram os Kraftwerk quem protagonizava a noite. E quem achava que eram banda sem humor ou a funcionar em piloto-automático, saiu dali desiludido. Na verdade deram um concerto magistral, com um alinhamento onde coube a surpresa, numa noite que ficou longe de ser uma viagem nostálgica pelas sonoridades que inventaram uma pop feita com electrónicas nos anos 70, mas onde todas essas recordações também ali couberam.

Quem trazia a memória do concerto ali realizado em 2004 (e no outro, menos bem sucedido, no Sudoeste), sentiu as diferenças. Apesar de não haver novos originais em cena, raros foram os instantes em que as canções e instrumentais se aproximaram quer ao que lembramos dos discos quer nas versões de palco que desenvolveram há pouco mais de dez anos e depois registaram mesmo no álbum – e DVD – ao vivo que editaram com o título Minimum / Maximum. Há novos sons em cena, e sobretudo uma progressiva integração de elementos na arquitetura rítmica numa lógica mais próxima da visão de um novo arranjo que na remistura (como em 1991 mostravam em The Mix, de onde mesmo assim chegaram ecos de algumas abordagens a velhos clássicos). Mas com um alinhamento (longo, com mais de duas horas e um quarto) de temas colhidos entre 1974 e 2003, houve uma sensação de frescura e contemporaneidade a dialogar permanentemente com composições que ajudaram a definir o DNA da música popular que todos os dias emerge à nossa volta nas mais variadas frentes.

Salvo Electric Café, que entrou em cena afastado da “suite” composta por Boing Boom Tchak, Techno Pop e Music Non Stop que fechou o segundo encore, e o clássico The Robots, que constituiu antes o primeiro encore – com manequins ao jeito dos que nos mostravam nos finais dos anos 70 em vez dos robots mais mecanizados e descarnados que tinham andado pelos palcos nos últimos 20 anos -, todo o concerto foi pensado em módulos ligados aos álbuns do grupo, sugerindo assim o espírito da digressão Der Katalog que, diferente do modelo trazido a Lisboa, promove uma residência do grupo para oito concertos no mesmo lugar (em quatro ou oito dias consecutivos), em cada um deles sendo apresentado na íntegra um dos álbuns editados entre Autobahn e Tour de France Soundtracks.

O primeiro módulo coube a Computer World, de 1981, abrindo com Numbers, cuja matrix de elementos deu à plateia primeiras expressões do que seria a experiência visual 3D do concerto, em contraste com os jogos de imagens clássicas sobre um ecrã do que tínhamos ali visto há 11 anos. O tema-título do álbum ganhou ressonância no presente com expressões de uso do mundo digital pelo poder político e financeiro, seguindo-se um cruzamento de elementos de It’s More Fun To Compute Home Computer (com um fulgor rítmico vibrante) e uma nova e bela leitura de Computer Love num dos muitos instantes da noite em que reconhecemos como, com os anos, os Kraftwerk souberam escutar aqueles que os tomaram como referência para depois ir mais longe.

The Man Machine (que fazia a abertura da digressão de 2003) levou-nos rumo ao módulo que evocava o álbum de 1978 – talvez a sua obra-prima (ou uma delas) que juntou ainda o já citado Spacelab, assim como um The Model em registo canónico e a pop de Neon Lights. Mais adiante The Robots completava o retrato de um disco – do qual só não se ouviu Metropolis – numa versão que amplificou a presença de elementos electro que justificam que esta, como outras leituras, mereçam vida em disco ao vivo mais dia menos dia… Acabará por acontecer, certamente.

Uma versão longa de Autobahn, que coloca no ecrã uma animação digital que explora a iconografia da capa original do álbum de 1974, dá conta do que pode ser a intervenção “ao vivo” de uma música essencialmente arrumada, mas não apenas mecanizada. Afinal há ali quatro homens, por detrás das suas muito minimalistas worksrtations, a coordenar os acontecimentos. Mal saímos da autoestrada (literalmente é aí que termina a música) rumamos a Radio-Activity, evocado numa leitura de Airwaves num diálogo entusiasmante com formas hi-nrg, juntando a colagem de frases que se escutam em News, o incontornável tema-título (que juntou Fukushima aos desastres nucleares e é agora parcialmente cantado em japonês) e uma belíssima recuperação do muitas vezes esquecido Ohm Sweet Ohm.

Com Trans-Europe Express lembrado num registo “clássico”, juntando Metal on Metal, o último módulo recuperou Tour de France, partindo da leitura original de 1983 para depois somar elementos das “etapas” acrescentadas no álbum editado vinte anos depois, entre elas o pungente Chrono. Se há 12 anos o pulsar embebido em heranças da house, ambient e tecnho que respirava entre os temas do que era então o primeiro novo álbum de inéditos dos Kraftwerk em 17 anos, agora, em 2015, a mesma sensação cobre praticamente todo o concerto, não deixando que sejam apenas as imagens a sublinhar a ideia de que o tempo passou. E se essa pulsão contemporânea era já evidente na verão original de Aero Dynamik – que abriu o segundo encore – o modo como do tema Expo 2000 evoluiu a atual forma de Planet of Visions, que se ouviu logo depois, dá conta de um sentido interventivo que mostra como, apesar de terem uma formação na qual já só Ralf Hutter é quem resta do início da aventura, a sua capacidade de intervenção não é coisa com sabor ao passado. Houve novidade, houve discreto humor, até mesmo ameaça de crash informático… Coisas do nosso tempo. A nostalgia, por isso, não morou ali naquela noite.

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