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O sexo dos robots

Texto: JOÃO LOPES

Alex Garland, o escritor de “A Praia”, estreia-se na realização cinematográfica com um filme de ficção científica: “Ex Machina” refaz e reinventa as regras tradicionais de figuração de humanos e robots.

Pelo menos desde o genial Metropolis (1927), de Fritz Lang, até ao recente Chappie, de Neill Blomkamp, o robot é, obviamente, um elemento fulcral das mais diversas narrativas, mais ou menos devedoras da tradição cinematográfica (e literária!) da ficção científica. Tendo em conta a imensidão desse património, não se pode dizer que Ex Machina, a estreia na realização de Alex Garland (autor do romance A Praia), seja um objecto tematicamente original — em todo o caso, há nele uma estranha dimensão intimista que lhe confere uma sedução muito especial.

Isto porque não se trata apenas de encenar a complementaridade (ou a oposição) de humanos e robots, mas de o fazer através de uma inesperada clivagem sexual. Esta é, de facto, a história de um cientista, líder de uma empresa informática do futuro (Oscar Isaac), que para avaliar a performance da mulher/robot que criou (Alicia Vikander) convoca um dos seus empregados (Domhnall Gleeson), desafiando-o a compreender se a inteligência artificial da sua invenção é apenas um requisito técnico ou já possui uma lógica genuinamente humana…

O que acontece é, de uma só vez, cristalino e perturbante. Mesmo evitando revelar o desenlace da intriga, digamos que Garland consegue colocar em cena não apenas a metódica humanização da máquina, mas sobretudo a sua individuação. Dito de outro modo: a inteligência artificial da mulher/robot, para lá da inteligência propriamente dita, faz pressentir um ser cujo pensamento envolve desejo — um ser que deseja, enfim.

Há ainda outra maneira de dizer isto. Assim, num universo de espectáculo cujo cliché maior é a confusão do artifício (“efeito especial”) com a banal exuberância de explosões ou prédios a cair, Ex Machina revela-se um filme de insólito e envolvente tom contemplativo. E isto, entenda-se, sem deixar de ser uma produção de detalhada sofisticação (nomeadamente na concepção do corpo da personagem feminina central). Para mais, o essencial da acção situa-se no espaço secreto do patrão/cientista, incrustado numa natureza imaculada que parece evocar um paraíso realmente perdido, anterior a qualquer derivação tecnológica.

Garland consegue, acima de tudo, fazer um filme que convoca o espectador através de componentes do género de ficção científica, ao mesmo tempo que o vai encaminhando para uma zona de indefinível abstracção em que todas as certezas humanas são postas à prova. Nesta perspectiva, Ex Machina faz-nos reencontrar também a mais primitiva pulsação do cinema como fábula do nosso conhecimento. Ou desconhecimento.

“Ex Machina”
Realização: Alex Garland
Com: Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Oscar Isaac

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