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Carlão: “Escrever em português obrigou-me a ser genuíno”

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de experiências através dos projetos Algodão e 5-30, Carlão edita finalmente um disco em nome próprio. “Quarenta” surge precisamente 20 anos depois de, com os Da Weasel, ter começado a escrever e cantar em português.

Tem como título Quarenta e é um disco que junta uma reflexão sobre o tempo que passou a uma firme vontade em continuar a viver os desafios do presente. Há precisamente 20 anos, através do segundo disco dos Da Weasel, Carlos Nobre começava a escrever e cantar em português. Assinava então como Pacman. Depois de encerrado o capítulo Da Weasel (que um dia, quem sabe, poderá conhecer eventualmente um novo episódio), ensaiou já novos caminhos, alargando horizontes na vontade de trabalhar a palavra e a voz. E chamou novos colaboradores. Agora, ao editar a solo, leva ainda mais longe esse gosto em se desafiar. E apresenta no novo álbum o seu melhor disco desde os tempos áureos dos Da Weasel. Fomos ouvi-lo.

Foi preciso chegares aos 40 anos para assinar com o teu nome?
Nem por isso (risos). Na verdade nos discos de Dias de Raiva o que aparecia lá era Carlão, por exemplo. Algodão era um projeto que eu queria que fosse mais do que eu, mas assinava como Carlos Nobre. Mas este é o meu nome de sempre. E como este disco acaba por ser também um disco de sempre era o que fazia mais sentido. Se os Da Weasel tivessem aparecido uns anos depois muito provavelmente não se chamariam Da Weasel, mas Doninha, se calhar… E eu seria o Carlão, na boa. Mas naquela altura…

Os Da Weasel ficaram com aquele nome porque, quando surgem, cantam em inglês?
Sim…

E o nome não se mudou…
Exatamente. E mesmo em relação ao meu nome, ali na reta final dos Da Weasel queria muito meter Carlão, mas foi uma coisa que me ultrapassou. Ficou Pacman.

Foi fácil libertares-te do Pacman?
Enquanto personagem, como boneco que as outras pessoas vêem, é mais difícil para as pessoas que para mim. Para mim foi naturalíssimo.

Este disco precisava de tempo. É preciso ter tempo de vida para contar uma história de vida…
Também… sim. A ideia do disco nem era bem essa. Mas gosto de ter conceitos em volta dos discos em que trabalho. E a dada altura, com esta inevitabilidade dos 40 a aproximarem-se, achei que devia dar um bom mote. Mas não foi uma coisa de tentar estruturar o disco nem nada que se pareça. Achei que cabia tudo nos 40… Mas sim, estão aí muitas diferenças.

No que é o homem de família de hoje diferente do miúdo que começava a escrever canções há pouco mais de 20 anos?
Para já o método, que é completamente diferente. Hoje vejo isto como um trabalho. E isso sem lhe retirar graça nenhuma. Mas é um trabalho. Durante muito tempo pensava que a vida de artista era ficar à espera da inspiração. E caótica… E agora percebo que há um trabalho… Não foi agora este ano que o percebi, claro. Mas é uma grande diferença para o Carlão dos 20 anos que era mais a abrir e à vontade… Agora há método.

Tens uma disciplina de trabalho?
Sim, para gravar um disco em geral entro e saio da minha sala de trabalho como num trabalho normal. Por vezes estico-me um bocado mais à noite. Mas estou lá o dia todo a trabalhar e vou para lá com esse propósito. Depois, mesmo que não esteja a compor para o disco, estou a fazer coisas na sua órbita. Se não tiver a tocar ou a gravar estou a fazer coisas lá no estúdio também. Para todos os efeitos é aquilo que eu faço. É um trabalho e há que tentar fazê-lo bem.

Ter filhos muda as rotinas de trabalho?
Muda… Nos primeiros anos da minha filha Alice, desde mesmo a gravidez, estive mesmo super-presente. Na verdade não estava a fazer muita estrada. Mas mudou-me completamente a vida. Hoje em dia acordo em função dela. E as minhas noites são também em função dela.

As horas da escola dela são as tuas horas de trabalho?
É praticamente isso. Depois vou-me revezando com a minha namorada. Mas passa muito por ela. Aqui há uns anos via isso como o fim da vida. Mas não é nada assim. Por outro lado, artisticamente, ela até acaba por me ajudar a focar nas minhas coisas.

No disco tuas as experiências mais recentes não ficaram de fora, sobretudo uma relação com uma outra forma de dizer poesia… É importante manter essa outra relação com a palavra?
É algo onde me sinto muito bem e à vontade. Gosto. Neste disco tinha como ponto de partida a música do Fred e do King Kong. Tinha feito um disco com o Fred há pouco tempo e estávamos muito sincronizados. Até para não repetir as coisas que tínhamos feito em 5-30. Queria que ele e o King Kong fossem a espinha dorsal deste disco e pedi-lhes cinco a seis temas. Eram temas nos quais já sabia ao que ia, eram muito na minha zona de conforto e mais segura. Depois fui falar com o Branko mais para a arriscar. Gosto de me desafiar nos discos, porque é daí que surgem coisas novas e originais. Ele foi uma grande surpresa e as duas colaborações foram muito boas. O Holly é um puto que costuma trabalhar muito com o Regula e colaborou no disco de 5-30. Pedi-lhe um dos temas com a Sara Tavares, o Krioula. É um puto muito fresco. O Glue  foi uma surpresa também, ele próprio está a começar a produzir e tem uma abordagem muito ingénua e que é própria de quem está a dar os primeiros passos. Estes são os putos de agora. O Agir é muito bom a fazer canções e queria uma, apesar de eu a ter estragado um bocado nesse sentido de canção. Foi por aí… Por um lado a primeira coisa a assegurar foi a espinha dorsal do disco.

E essa espinha dorsal era mais o que querias contar ou, pelos vistos, os músicos com quem querias trabalhar?
Neste disco foram mais os músicos…

Sentes que há aqui, não uma passagem de testemunho, mas um estabelecimento de uma relação entre aquela que é a tua geração – que é a primeira a trabalhar discograficamente o hip hop em Portugal – e a nova que está a emergir?
O espírito tem de ser esse. Usar o que aprendeste, experimentaste e descobriste nestes anos todos sem nunca te fechares em ti próprio. Sem te fechares. E há aqui um lado importante, entre a frescura de um King Kong, que é o mais miúdo (tem 23 anos) e eu, está o Branko. Ele está ali no meio. Não é da geração de Da Weasel mas não é da de agora. Mas tem também um olhar muito inovador. Gosto dessa frescura e de experimentar coisas novas. Não por si só…

E como estabeleces estas relações?
As coisas aconteceram por ter entrado num disco deste… Não saio muito, mas naquilo que faço e nos discos das pessoas com quem vou colaborando, uma coisa puxa a outra e vai-se conhecendo. Uma coisa fundamental é que isto é muito de intuição. E nunca pode ser aquela coisa do ser fresco só porque é fresco. Tem de haver qualquer coisa. Às vezes é intuição, outras é identificar-me muito com o trabalho das pessoas.

O que aconteceu à geração do hip hop de 1994 que quase desapareceu?
Acho que há nomes que continuam a fazer coisas, outros não foi assim. Acho que se colocou a fasquia demasiado alta por alturas do Rapública, quando se quis assumir que aquilo era um boom e na verdade não tinha nada disso. A maior parte dos putos estiveram em estúdio pela primeira vez. Naquela altura, e não era o meu caso porque Da Weasel sempre foi uma coisa mestiça, para o hip hop precisavam de ser as pessoas a mexer nos programas e nas máquinas e isso percebeu-se. E os técnicos não conheciam o hip hop. Hoje em dia, com o facto de o hip hop se ter transformado numa coisa mainstream world wide, vais a um festival e vês Agir, que não é hip hop puro e duro mas é dessa descendência. Vês o Jimmy P, o Dengaz, a Capicua, todos eles a tocar. Agora, sim, é que se pode falar de um boom. Ligas uma rádio qualquer, daquelas que os putos ouvem, e esses nomes estão lá todos.

Este ano passam 20 sobre o momento em que deixas de cantar em inglês e, ao editar o segundo disco de Da Weasel, surges a escrever e a cantar em português. O que ganhaste com a mudança?
Ganhei identidade. Em inglês copiava descaradamente dos artistas que gostava. Em português não estava ainda sintonizado com aqueles que seriam depois as minhas referências: o Sérgio Godinho, o José Mário Branco, o Zeca Afonso. Esses nomes todos na altura não me diziam nada. E então tive de ir buscar uma coisa mesmo minha e traçar um caminho. Mais tarde abri-me então para esses nomes. Na altura a mudança obrigou-me a ser genuíno. Não tentei adaptar nada.

Dizer Monkey King é diferente de dizer Educação é Liberdade… Há uma relação com a tua verdade e a de quem te ouve…
E uma responsabilidade inerente. As coisas não passam despercebidas, ao passo que em inglês podes dizer barbaridades que quase ninguém se vai chatear com isso, ao passo que em português estão ali colados ao que dizes. E há uma responsabilidade.

Sentiste-te a crescer como letrista?
Só me tornei letrista em português. Em inglês eram umas colagens de várias referências.

Habituámo-nos a ver as bandas a regressar. É um cenário possível para os Da Weasel?
Nunca poderei dizer que não. Não se sabe. Nesta altura acho difícil, mas nunca se sabe. Acho difícil os Da Weasel voltarem ao que eram e fazer discos. Menos difícil seria se calhar fazer-se um concerto. Isso pode fazer sentido, não sei.

Qual é o grande legado que o grupo deixou na história da música portuguesa?
Não sendo aquele hip hop puro e duro de DJs e MCs, fomos uma ponte para muitas pessoas chegarem ao hip hop. A esse hip hop. Numa altura em que as pessoas não estavam preparadas para ver um DJ e dois ou três MCs num palco, conheceram os Da Weasel, que eram uma banda e que também tinha esse lado. E depois foram à procura das outras coisas… Fomos importantes como foi o Gabriel em português, pelo português, e o Pedro Abrunhosa, em 1994, com o Viagens. Fizemos as pessoas ir mais fundo. Através do hip hop eu fui conhecer nomes como o Curtis Mayfield, o Marvin Gaye, o Stevie Wonder, essas referências todas. Via os samples e depois ia ouvir os discos. Depois dos Da Weasel as pessoas foram ouvir mais facilmente o Sam The Kid e outras coisas. Fomos importantes também em conseguir fazer música que, no limite, é pop, sem uma banda de pop mainstream. E mostrámos que isso era possível.

Hoje, aos 40, o que te inspira?
Compro e assino plataformas digitais. Desde os putos novos como o Drake ou Kendrick Lamar, como vou ouvindo mais música para trás, alguns nomes do jazz e música clássica. Tento estar a par do que tem saído. O Fred dizia há dias que o Madlib, numa entrevista, disse que as coisas boas que forem saindo vão chegar a ele, mais dia menos dia. E acho que a minha postura é essa.

O revivalismo do vinil entusiasma-te?
Enquanto objeto o vinil tem um significado para mim que o CD nunca teve. E aí é uma coisa mais pela estética e pelo significado do objeto mais que pelo suporte sonoro. Não é pelo som. É o ritual… Comprei um prato há pouco tempo, fui buscar os discos em vinil que tinha. E muito provavelmente vou fazer uma edição em vinil deste disco, para ter a capa do Vihls assim em grande…

No disco está uma vez mais presente uma continuidade de uma faceta tua, que sempre gostou de olhar para o mundo em redor e comentar.
Há coisas que me saem na música que não me saem no dia a dia. Quando digo que a letra para mim é algo terapêutico é porque em regra geral debruço-me sobre temas que não o faço no dia a dia. Depois de fazer esse processo e ouvir a música gravada é como ir ao psicanalista e estar com ele a falar coisas que nunca falaste. E aquilo ganha uma dimensão. E é assim com as minhas histórias de amor, as minhas angústias e medos e mesmo esse lado social. Que é um lado que muitas vezes prefiro olhar para outro sítio. Durante anos nem estava para aí virado, mas na música sempre foi para aí. Acaba por haver alguma contemplação pelo estado das coisas.

São elementos de comunicação para quem vive no mesmo país e eventualmente sente as mesmas coisas?
Espero que sim. E tento salvar as exceções como é o caso do Colarinho Branco na qual estou a fazer uma crítica a pessoas e estilos de vida que abomino. Mexe comigo quase fisicamente. Já o tinha feito em Da Weasel… Mas muitas das críticas que faço são a mim mesmo.

(Entrevista reproduzida por cortesia da revista ‘Time Out’)

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