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Longe do paraíso

Texto: NUNO CARVALHO

Está disponível no mercado uma edição em DVD com cinco filmes menos conhecidos do segundo período americano de Douglas Sirk, entre os quais se destacam ‘Desejo de Mulher’ (1953) e ‘Os Amantes de Salzburgo’ (1957).

Imagem de "Os Amantes de Salzburgo"

Dos cinco filmes que compõem esta edição em DVD que nos dá uma amostra diversificada da filmografia de Douglas Sirk entre os anos de 1953-57, os mais interessantes são Desejo de Mulher (1953) e Os Amantes de Salzburgo (1957). Ambos pertencem ao segundo período americano do realizador (1950-59), na Universal (após um breve regresso à Alemanha, seu país de origem, na sequência do fim da II Guerra Mundial), marcado pela colaboração fecunda com o produtor Ross Hunter. Na verdade, é durante a década de 50 que Sirk assina os seus filmes mais conhecidos e discutidos – e se esta edição não inclui os mais célebres, contém todavia dois títulos bastante apreciáveis.

Remake de When Tomorrow Comes (1939), de John M. Stahl, Os Amantes de Salzburgo (Interlude, no original) conta a história de Helen Banning (June Allyson), uma jovem mulher americana que viaja até Munique à procura de novas experiências. Enquanto aí trabalha como bibliotecária ao serviço da Casa da América, conhece Tonio Fischer (Rossano Brazzi), um maestro veterano com um toque de Herbert von Karajan por quem se apaixona. Contudo, acabará por descobrir que o homem que ama é casado com Reni (Marianne Koch), para a qual este procura uma espécie de substituta saudável e funcional, com quem partilhar a vida de uma forma que se tornou improvável com a mulher legítima. É sugerido que Reni enlouqueceu por amar demasiado o marido, o que faz dela a personagem mais sensível e também a mais sagrada deste melodrama com desenlace infeliz (ou resignado), de resto à medida do que Sirk gostaria de ter feito nalguns outros filmes mas não pôde devido à imposição por parte dos estúdios de um “obrigatório” happy end. No final, Reni implora a Helen que não lhe “roube” o marido, porque precisa mais dele do que ela. É difícil não sentir empatia com o destino de Reni (cuja doença psíquica é “a moeda que os deuses amam” – e já dizia Fernando Pessoa que os deuses vendem quando dão – mas que talvez seja estranhamente a única personagem no filme que pôde viver realmente o que sonhou), mas é impossível também não sentir pena de Helen (que regressa a casa para se casar com um homem que a idolatra mas que ela não ama) e de Tonio (que, como o próprio diz, não é um santo, mas que acaba, por assim dizer, com Deus a pedir-lhe que tenha paciência e tome conta de Reni).

Desejo de Mulher (All I Desire, no original) é o primeiro filme em que o produtor Ross Hunter trabalhou com Sirk. Trata-se da história de Naomi Murdoch (Barbara Stanwyck), uma mulher que regressa à sua pequena cidade natal na sequência de um convite da sua filha Lily (Lori Nelson) para assistir a uma peça que esta vai protagonizar no liceu. Acedendo ao convite de forma um tanto impulsiva, Naomi vai enfrentar o marido e os filhos que abandonou anos atrás, após um escândalo envolvendo um amante, para se dedicar à vida nos palcos. No entanto, tal como Helen (a protagonista de Os Amantes de Salzburgo), que acaba por se entregar a uma vida em que o trabalho e o conforto material substituem o amor que falhou, Naomi percebe que o relativo sucesso como atriz não lhe trouxe felicidade e que jamais compensará o vazio da falta de uma comunhão familiar e de um lar a que chame seu. Perante a ameaça desse vazio afetivo, ela tentará encontrar um lugar no seio da família a que teve de renunciar por pressão moral da comunidade. E quando o marido, Henry (Richard Carlson), lhe diz que ela teve as suas compensações, a resposta de Naomi possui a melancolia e o arrependimento de quem busca um perdão: “Compensações? Não me parece, Henry. Só percebemos que o sucesso não é importante depois de o termos, ou o que significa ter um lar depois de o termos perdido. Senti a tua falta, Henry. A tua e a das crianças.” Ao contrário de Os Amantes de Salzburgo, Desejo de Mulher tem um final feliz que foi imposto pelo estúdio. Para o espectador de hoje, parece um final forçado e artificioso, na medida em que a personagem de Naomi é a de uma mulher maior do que a vida, idealista, que parece pertencer um pouco a todos os lugares e inteiramente a lugar nenhum. Na verdade, parece um tanto artificial o paraíso a que regressa no final. Ou terão os anos “longe do paraíso” servido a Naomi de expiação?

Este pack de 5 DVD “Douglas Sirk”, editado pela NOS, inclui ainda os filmes Herança de Honra (1953), O Sinal do Pagão (1954) e Abnegação (1957), o primeiro e o último protagonizados por Rock Hudson.

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