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O elogio do rebelde

Texto: JOSÉ RAPOSO

“The Driver”, de Walter Hill, tem na perfeita rebeldia do seu protagonista um retrato fascinante da moral que se esconde por detrás da aceleração.

The Driver (1978), filme realizado por Walter Hill situado numa Los Angeles nocturna e clandestina, é uma obra feita à imagem dos seus protagonistas, personagens-produto do mundo do capital – pragmático no seu formalismo, opaco nas suas intenções. Dois lados da mesma moeda, de um lado um polícia obcecado com o seu trabalho; no seu oposto, um condutor sem biografia. Campo e contracampo, unidos enfim pelo valor do trabalho.

Assinado pelo próprio Hill, o argumento é centrado na figura de um enigmático condutor frequentemente procurado pelo mundo do crime, resultado da sua reputada perícia em escapar a perseguições policiais. E é aí que encontramos, desde logo, ponto comum entre o bando de criminosos e o polícia, que vê no profissionalismo exímio do seu rival motivo de admiração. No diálogo mais emblemático de todo o filme essa atracão é tematizada de forma explicita, trazendo assim para primeiro plano, a natureza da rivalidade que os (des)une. É o desafio lançado pelo polícia, “picando” o condutor para que este aceite mais um contrato, sabendo de antemão que se encontra debaixo de olho, que estabelece o sentido da moral aflorada por Hill – para além do bem e do mal, e equacionada em função da distinção com que o trabalho é executado.

Hill, em entrevista, afirmava justamente que todos os seus filmes seriam também westerns – proposta sedutora quando se trata de uma obra que esboça os contornos de todo um universo moral. O anonimato dos personagens, sem outro nome para além de The Driver, ou The Detective, salienta o modelo dramático que Hill procurou privilegiar, mais próximo da sugestão do que da concretização. No caso, não se tratará tanto de um revisionismo em relação ao thriller ambientado no mundo do crime, antes um momento emblemático das nuances estilísticas estabelecidas no coração da indústria por um grupo de cineastas que, ao longo dos anos 1970, foi multiplicando as possibilidades do cinema de género.

Neste The Driver, Hill invoca algumas das texturas e ambientes que nos recordam momentos do cinema Europeu, onde a atmosfera e um enredo esquemático (e minimalista) sinalizam todo um programa estético. Nessa linha, interessa sobretudo a notar a forma como o realizador integra um conjunto de referências, mais ou menos evidentes, numa tradição cinematográfica muito americana, onde a masculinidade dos personagens é construída em função do confronto com a autoridade. É também por aí, nesse cruzamento de sensibilidades diversas, que se encontram marcas de uma aproximação ao imaginário de Jean Pierre-Melville, em particular o Melville tardio de O Samurai (1967), obra, de resto, central para aquilo que tem vindo a ser designado por “thriller existencial”. O tratamento cinematográfico do espaço urbano de Los Angeles transporta consigo alguma da melancolia cool de Melville, e um dos sinais do perfil autoral de Hill está também no alcance do seu gesto de citação, que transcende o deslumbre superficial da homenagem ensimesmada. Prova disso, é a forma como o espaço urbano configura toda uma potência dramática, um terreno fértil capaz de suportar um conjunto diverso de poses e atitudes, da contemplação ao conflito.

O “profissionalismo intuitivo” que Andrew Sarris reconhece no cinema de Howard Hawks, e a poética de Melville com os seus (anti)heróis criminosos fieis a um código moral, encontram aqui acolhimento no personagem do misterioso condutor, sem identidade para lá do rosto que se esconde por detrás do volante.

Particularmente memoráveis são as sequências de perseguição, com a câmara rente ao asfalto, junto ao coração da acção, sem outra banda sonora para além do ruído da velocidade motorizada. Não por acaso, Nicolas Refn, realizador de Drive – Risco Duplo, vem aqui “pilhar” um sem número de imagens de encher o olho.

David Kher, num célebre texto crítico, afirmava que as perseguições neste The Driver eram das mais conseguidas de toda a década dos anos 1970. Passados todos estes anos, não há ainda fúria que o ultrapasse.

“The Driver”
Realização: Walter Hill
Com: Ryan O’Neal, Bruce Dern, Isabelle Adjani, Matt Clark, Ronee Blakley
DVD: Studiocanal

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