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Onde batem as ondas

Texto: NUNO GALOPIM

Estreado há poucos meses na Berlinale, o filme “Rabo de Peixe”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel é uma das preciosidades maiores da programação do IndieLisboa.

Há um plano, logo nos primeiros instantes do filme, no qual vemos uma rua apertada de Rabo de Peixe e as ondas lá ao fundo, como se o mar fosse a sua transversal. Aquela proximidade do mar (lugar de trabalho de onde vem o sustento) e as casas sugere quão juntos estão afinal no dia a dia daquela pequena aldeia de pescadores na costa norte da ilha de São Miguel, “uma ilha dentro da ilha que só aparece nas notícias pelos problemas sociais” como escutamos. É entre aquela pequena povoação e um grupo de pescadores que somos contudo convidados a um mergulho no seu quotidiano. E certamente diferente daquele cinema feito para parecer coisa real, como a dada altura se conversa, enquanto se preparam as artes para mais uma jornada no mar.

Joaquim Pinto e Nuno Leonel foram passar uns dias aos Açores em 1999 e ficaram em Rabo de Peixe, onde tinham um amigo. Os primeiros contactos e o progressivo estabelecer de um relacionamento com o lugar e os que ali vivem abriu possibilidades. Regressam em 2001 depois de um trabalho em Marrocos. A ideia era a de acompanhar durante um ano Pedro, um jovem pescador, um de nove irmãos, com quem haviam estreitado já uma amizade na viagem anterior. Da vivência e das imagens nascera um documentário que teve estreia televisiva em 2003. Descontentes com a montagem desde então, Joaquim e Nuno esperaram. Esperaram o tempo certo. Havia ali um filme à espera de vir à tona. E em Rabo de Peixe (Director’s Cut), estreado há semanas na Berlinale, encontram a ideia. Às vezes vale mesmo a pena voltar atrás.

Com muitas imagens inéditas face ao que fora a versão original, Rabo de Peixe (Director’s Cut) é um filme que respira, com a devida intensidade mas também candura, o dia a dia da comunidade na qual sentimos que os realizadores se diluíram, da curiosidade inicial tendo crescido uma proximidade, até mesmo emocional, que faz com que o olhar não seja distante e apenas curioso, mas pelo contrário, tão dali e deles, quase como naquelas imagens sacudidas em que alguns habitantes de Rabo de Peixe pegam na câmara pouco depois da primeira chegada de Joaquim e Nuno.

O quotidiano da pesca, com uma passagem em dia de calmaria pelas distantes Formigas, campanhas de pesca do espadarte ou santola, alternam com planos de terra, entre a preparação das artes, dias de festa, visitas de amigos, mergulhos, pausas. Com um ritmo que se ajusta ao das vozes que nos falam e ao que os olhos pedem para ver, e com o mesmo sentido de liberdade que ali encontramos, Rabo de Peixe (Director’s Cut) observa a dimensão humana em que vive o registo de pesca artesanal que ali se pratica e entre imagens e voz off (que vai revelando um magnífico texto) vivemos o filme entre a contemplação e o convite à reflexão, as memórias de mitologias e cinefilias servindo para mostrar como um presente nunca existe sem o que veio de trás nem existe se no futuro não for lembrado.

O filme passa hoje às 18.00 no Cinema São Jorge

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