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Debate: o fim do FM é o fim da rádio?

Dias depois de a Noruega ter anunciado o fim das emissões de rádio em FM a partir de 2017 fomos ouvir opiniões de radialistas portugueses sobre o que esta medida pode representar.

Na última semana o governo norueguês anunciou que vai abandonar as transmissões de rádio na banda de FM em 2017, fazendo-se a transição de todas as emissões para o formato digital DAB (iniciais de Digital Audio Broadcast). A Noruega será assim o primeiro país a deixar de ter emissões em FM (numa medida que foi explicada por razões financeiras), podendo representar o primeiro passo de uma eventual série de tomadas de posição semelhantes um pouco por toda a parte. O que implica esta decisão para o futuro da rádio? Fomos escutar a opinião de alguns profissionais e aqui ficam as suas opiniões:

Álvaro Costa (Antena 3)
Numa das minhas habituais tours mundiais pelas faculdades e afins, contei uma história: propositadamente não fiz referências temporais e evitei velhacamente de que tecnologia falava…  As preocupações dos músicos, autores, questões sobre a sobrevivência da indústria da música… Os estudantes imaginavam que me referia ao “lo habitual”, mas as reações de espanto não se fizeram esperar: pura e simplesmente tinha adaptado um texto de 1927 sobre a rádio, uma tecnologia que rapidamente se transformava numa indústria, se bem que ainda incipiente, de conteúdos….
Acerto o relogio cultural pelos anos 90 e pela “dabizaçáo” da desaparecida RDP. As razões eram as mesmas apresentadas pelos noruegueses em 2015. Com a diferença que “radio” é hoje a comunicação, a partilha,os podcasts, os streams, a escuta diacrónica, o fim do tempo e destes tempos. FM é hoje um significante romântico, uma noção estética com raízes contraculturais. Dizer com voz bem colocada FM estereo só espanta e faz vibrar a geração de ouvintes que fazia dessa “RADIO” o seu tambor cultural. E que sonhava com cenários de sci fi embrulhados em papel de pop cultura. Desde os anos 20 que o que chamamos Radio se adapta, integra, absorve com imensa plasticidade as tecnologias que nascem, crescem e morrem, e a “morte nórdica” do FM é apenas mais um desses sinais, vindo de um pequeno mercado radiofonico e de um país cujos excedentes orçamentais permitem sem grandes parlamentarismos, gastar umas kroner na “limpeza” hertziana. Nada de novo, em especial para quem como eu se preparou com cursos e reciclagens para a “dablandia” que nunca se criou por cá: dizem que por causa dos americanos, da modéstia e vistas curtas da radio indústria nacional. atolada em paroquialismos vários. Bem mais excitante será o dia em que os auto rádios incluam as estações online e que a competição se alargue um pouco ao estilo da Champions League atual que inclui “players” bem mais limitados… A diferença em relação à competição Premium da Uefa, é que quando esses dias chegarem, as possibilidades de dar-nos “ouvidos” serão bem maiores…

Isilda Sanches (Rádio Oxigénio)
É o tipo de coisa que só poderia acontecer na Noruega, talvez Canadá e outros países com nível de vida acima do nosso. Dinamarca, Suécia e Reino Unido tencionam fazer o mesmo até 2022 e têm perfil semelhante, bem como redes de FM estatais e programas efetivos de conversão para Digital Audio Broadcasting. No caso norueguês, mais de 50% da população já ouve rádio digital e 20% tem receptores DAB nos automóveis, o sistema cobre já todo o território. O fim do FM em 2017, na Noruega, obedece a critérios económicos (o custo de manutenção do FM é elevado), mas a infraestrutura que o permite já existe. Em Portugal, apesar de a RDP ter começado as emissões em DAB em 1998, elas cessaram em 2011 e, como as condições técnicas e económicas se mantêm, bem como a fraca oferta de rádios nesse formato, não se prevê que isso mude em breve, muito embora isso possa ser inevitável a longo prazo, dependendo das pressões de mercado (automóveis com receptores DAB, por exemplo), tal como aconteceu com as emissões de televisão. De qualquer modo, o próprio formato ainda não é consensual e, nesse aspeto, não interessa a ninguém estar na linha da frente.
O futuro da rádio não está ditado. Os formatos, ou suportes (o vinil também já morreu mas hoje até as cassetes parecem ter ressuscitado), mesmo que considerados obsoletos pelas correntes dominantes, podem manter algum valor fundamental, nem que que seja afectivo. A longo prazo, até pode ser o fim do FM, dados os custos de manutenção, mas talvez a Onda Média volte a reinar, quem sabe?. O espectro é bem maior (eu ouvia o John Peel em casa, perto da Guarda), os requisitos técnicos são mais modestos, bem como a fiabilidade (é certo), mas num mundo onde cada vez se ouve mais rádio online, ou podcasts, pode servir de contraponto prático/revolucionário e ocupar o lugar que agora tem o FM (e que já foi da OM).
E continua a parecer estranho que um formato preferido por audiófilos possa vingar numa época em que há cada vez menos música preocupada com esse tipo de detalhes.

Pedro Costa (Antena 3)
A diversidade e o pluralismo evocados pelo governo norueguês, a par de argumentos importantes como o das funcionalidades diversas e da qualidade sonora, e principalmente o do custo operacional, não apagam contudo para mim um lado mais emocional que tem a ver com a famosa “estática”… Este argumento não vale por si só, é apenas uma constatação de uma vertente mais “poética” e nostálgica. Foi essa magia de que do caos (do ruído) e a ideia de que, com o simples rodar de um botão se pode descobrir um “mundo” de som e palavra, me fez mergulhar no universo da Rádio. Ainda hoje , e como ávido consumidor da oferta radiofónica, tenho espalhados pela minhas casas quatro transistores que funcionam todos os dias. Mas o desenvolvimento tecnológico não pára, e o processo em causa, essa migração para o universo digital, só terá a ver com o tempo e o custo que acarretará. O mercado rádio terá que estar preparado, visto que do ponto de vista do consumidor, a oferta do equipamento e do preço do serviço em causa terá de ter em conta as expectativas e as facilidades actualmente disponibilizadas. O preço dos aparelhos DAB e a própria adaptação da indústria automóvel com auto-rádios preparados para emissões mistas, ou apenas digitais, são fatores ter em conta. Depois, o preço do serviço de Internet na Noruega não é o mesmo que em Portugal; as realidades sócio-económicas terão de ser consideradas. E se nas grandes cidades, e numa perspectiva de consumo mais cosmopolita, a oferta e a qualidade serão mais valias – eu próprio sou ouvinte no digital ( telemóvel e tablet ) de inúmeras estações espalhadas pelo mundo que de outra forma não ouviria – no meu monte alentejano, e apesar de boa cobertura de Internet, a escolha será sempre ( e enquanto não houver alternativas válidas) a oferta “terrestre”… E esta será também a dúvida de todos aqueles que vivem em locais mais isolados e sem acesso facilitado à Internet. E depois há uma outra questão: a da segurança do estado em caso de catástrofe e o da própria soberania que, se pensarmos bem, alargando o “apagão” ao domínio da onda curta e da onda média ( não é disso que se fala aqui…), já será uma discussão em que argumentos puramente económicos, não valerão por si só. Respondendo à pergunta…. Não , não é o fim da Rádio. E se eu sou um filho da geração do FM em Portugal (final dos anos 70 e principio dos 80), os meus filhos vivem e são em parte reflexo da era do digital. É uma oportunidade única para novos desafios , num meio em que acima de tudo a vertente humana e o “imediatismo” terão sempre um lugar cativo. Viva a Rádio !

Pedro Moreira Dias (Vodafone FM)
A rádio não vai acabar por mais invenções tecnológicas que existam. Isso aconteceu com o AM e ele existe e continuará a existir e o FM mesmo que acabe será substituído por outro sistema, neste caso o DAB, do qual eu já ouço falar desde 2002 como a próxima grande “cena” e no entanto já lá vão 13 anos. Basicamente existem várias barreiras em Portugal para que o processo de transição seja feito. Primeiro, a implementação do sistema (poucos ou nenhuns carros estão preparados para este novo sistema). Segundo, o DAB necessita de rede móvel, de dados, e se já pagamos mais do que em toda a Europa e mundo pela internet, imagino toda a gente a pagar ainda mais para ter “net” no carro. E terceiro, a rádio faz companhia em movimento, algo que a TV não faz. Os períodos mais fortes vão sempre ser o da ida para o trabalho e do regresso a casa, onde as pessoas estão no seu carro e “precisam” de ouvir qualquer coisa.
Mesmo que o DAB seja imposto aqui ou na China, as pessoas continuarão a ter necessidade disso. O que poderá acontecer é uma adaptação de quem faz rádio, isto é, tal como já acontece e aconteceu com as redes sociais, com as pessoas da rádio a ganharem uma cara e um ser social netiano, também irá acontecer com programas mais específicos e direcionados. Até poderá ser bom para o lado mais playlist que existe em algumas rádios.
São muitas questões para já sem resposta, mas uma coisa para mim é certa, a rádio não morre porque tem gente lá dentro.

Teresa Lage (RFM)
Acho que não é de todo o fim! A morte da rádio já foi tantas vezes anunciada prematuramente! A rádio não morreu e acho que não morrerá se se continuar a adaptar às novas realidades e tecnologias. Ao contrário das outras plataformas, a rádio é humana, transmite emoções e cria laços. O meio através do qual chega às pessoas é necessário que vá acompanhando os tempos… da onda média para o FM e digital, dos aparelhos grandes para os transistores, dos rádios dos carros para os computadores e smartphones
E o modo de comunicar também tem de se adaptar à vida e às necessidades dos ouvintes. Não é com “velhos do Restelo” e gente a dizer “no meu tempo é que era bom” que se mantém viva a rádio. É preciso ir sempre reinventando a maneira de passar emoções, interagindo com redes sociais (ou o que quer que surja) arriscando e inovando sempre… O que não podemos fazer nunca é esquecer a componente humana: a comunicação e os laços que fazem com que as pessoas continuem a gostar de ouvir rádio em FM ou digital ou onde quer que seja!

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1 Comment on Debate: o fim do FM é o fim da rádio?

  1. eu gostaria de saber porque que aqui v nova gaia perto das antenas faz espalhamento muito forte de banda rrcom rfm antena 1 e comercial porque tao estreito e fazer espelho banda sem se ouvir a 93.3fm marcoence e 97.0fm altominho 97.2 fm radio vizela 97.5 fm rum e comercial e rfm 103.8fm onde rfm sobre poe-se interefrencias destrocida ate 104.4fm cidade minho 104.7fm RCfeira quando vou poder ouvir sem essas interefrencias especialmente vilar do paraiso vila nova gaia

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