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Nas Teias da Corrupção

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Um surpreendente estudo sobre o poder e a justiça naquele que foi um dos primeiros retratos cinematográficos das implicações da máfia no sistema político italiano. “Confissão de um Comissário” é um grande filme subvalorizado que já está disponível em DVD.

O capitão Bonavia (Martin Balsam) e o jovem Traini (Franco Nero) são dois homens que lutam pelo cumprimento da lei, num país dominado pelo crime, pela morte, pelo sofrimento e pela injustiça. O primeiro é comissário da polícia, e o segundo é o novo procurador-geral da República italiana. Ambos terão de lidar com um assassinato que envolverá muitos conflitos de interesses entre os vários lobbies que regem a sociedade, enquanto desconfiam e analisam os passos um do outro.

Tanto Bonavia acredita que Traini faz parte do sistema corrupto que está a investigar, como o próprio Traini quer provar, a todo o custo, que Bonavia está implicado neste caso, e que é amigo dos poderosos criminosos que comandam a cidade. E o realizador Damiano Damiani (nome menos falado, mas que não é por isso que seja menos interessante ou relevante, do cinema criminal italiano – ou poliziotteschi) constrói uma história reveladora, não só do crime e da corrupção que dominam o establishment italiano (uma influência que ainda hoje não se alterou), como também das dificuldades dos verdadeiros (e por isso, incorruptíveis) homens da Lei em confrontar-se com o poder dos criminosos.

É um jogo de “gato e rato” dentro e fora dos meandros da justiça, surpreendente no desenvolvimento da narrativa e na forma como são dissecados muitos dos “podres” da sociedade italiana (e não só!). Promovido como um puro e duro filme de ação, à época do seu lançamento nos EUA, o conteúdo crítico de Confissão de um Comissário eleva este drama policial a um nível de interesse que, infelizmente, se tornou intemporal, e que o torna muito mais do que um simples filme de “pancadaria” ou de “polícias e ladrões” (ou neste caso, “polícias, ladrões, e polícias que são também ladrões”). O efeito do suspense, dos diálogos e da mise-en-scène permaneceu inalterável, com o passar dos anos, mesmo que o lado kitsch do filme queira aparentar o contrário.

E para a junção perfeita entre o retrato social e político da história, mais as diferentes situações dramáticas apresentadas ao longo do filme, convém lembrar que grande parte do impacto de Confissão de um Comissário está na sua música: é uma belíssima e inesquecível banda sonora, composta por Riz Ortolani, que contribui, tal como a montagem e a interação entre Nero e Balsam, para um dinamismo inesquecível que ambienta toda a narrativa.

Por fim, vale a pena dizer que a versão disponível na edição DVD portuguesa, da distribuidora espanhola Estévez Seven, é falada em italiano (como tantos filmes do país naquele tempo, não existe som direto). Uma versão falada em inglês (com uma maior e evidente sincronia nos diálogos) pode ser encontrada no mercado internacional, mas tanto um como outro idioma assenta perfeitamente ao filme.

É importante ainda referir que, infelizmente, a imagem e o som utilizados nesta edição não fazem justiça às muitas qualidades de Confissão de um Comissário. Mas mesmo assim, é um filme relevante que merece ser visto e apreciado, de qualquer maneira e através de qualquer formato.

“Confessione di un commissario di polizia al procuratore della repubblica” (1971)
Realizador: Damiano Damiani
Elenco: Martin Balsam, Franco Nero, Marilù Tolo
DVD, Estévez Seven
4 / 5

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