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Reunião… porque não?

Texto: NUNO GALOPIM

Longe dos caminhos de “Think Tank” e distante das armadilhas em que tropeçaram tantos outros reencontros, o disco de reunião dos Blur é um belo e tranquilo reencontro com a alma mais clássica do grupo, mas sem sede de nostalgia.

Qualquer dia restam apenas os Smiths, Abba e poucos mais na lista daqueles para quem uma vida foi tudo. Habituámo-nos a ver reuniões, até mesmo de ícones como os Velvet Underground ou Sex Pistols. E destes últimos chegou o título sagaz para uma digressão que traduz a verdade de muitas destas operações “filthy lucre” (só não lhe chamaria “filthy”, porque não há nada de sujo no trabalho, embora haja na intenção da palavra uma intenção de sublinhar que se regressa apenas pelo dinheiro: mas não é pelo dinheiro que tanta gente sai de casa todos os dias para trabalhar?).

Há contudo reuniões e reuniões. Das que se limitam a desfilar velhos êxitos em palco, premindo o botão da nostalgia e promovendo viagens no tempo a músicos e, sobretudo plateias. E as que ensaiam a escrita de novas canções, a experiência neste departamento tendo mostrado quão facilmente esta vontade tropeça em grandes equívocos, bastando para isso ouvir os medíocres discos que bandas outrora competentes como os Bauhaus ou Culture Club revelaram nas suas existências 0.2 mostrando como, ao contrário de James Bond, nestas coisas por vezes só se vive mesmo uma vez.

Com os Blur a coisa foi diferente. O grupo tinha-se já desagregado em parte quando, em 2003 editaram o (bem interessante, mas talvez algo equívoco) álbum Think Tank, disco criado já sem Graham Coxon e claramente um primeiro ensaio para ideias que Damon Albarn exploraria adiante. Era quase o seu primeiro álbum a solo, embora com o resto da banda em estúdio e o seu nome na capa. Depois cada um seguiu o seu caminho e, em 12 anos de pausa, Albarn somou experiências, dos Gorillaz a duas óperas e, finalmente, edições em nome próprio (algo que Coxon já fazia há algum tempo). Ocasionalmente foram-se cruzando. Editaram um primeiro novo single em 2010. Mais um outro, desta vez com duas canções, em 2012. Subiram ao palco para celebrar memórias e gravaram mesmo um disco ao vivo. E em 2013, quando um festival em Tóquio – onde iam atuar – foi cancelado, passaram cinco dias em Hong Kong. E em vez de ficarem a ver navios, juntaram-se com os instrumentos nas mãos e foram ensaiando ideias, surgindo logo ali um corpo de canções. Para fora a notícia que chegou foi a de que não haveria nada a acontecer. Mas o tempo deu-lhes tempo para pensar sobre o que ali tinha acontecido. Graham Coxon chamou Stephen Street – com quem tinham trabalhado em todos os álbuns entre Leisure e, pela última vez, no disco homónimo de 1997 – e trabalhou sobre as gravações. Damon Albarn ouviu os resultados dessa nova etapa de estúdio. Trabalhou letras (voltou mesmo a Hong Kong em busca de inspiração) e há algumas semanas juntou a voz. Et voilà… Agora temos um oitavo álbum de estúdio dos Blur nas mãos. Quem o imaginaria possível há alguns meses?

The Magic Whip, bem longe dos caminhos ensaiados em Think Tank, reencontra antes a alma clássica do som dos Blur, colhendo nós soltos em vários momentos de toda a sua obra entre o álbum de estreia e o monumental 13 de 1999, juntando de novo uma sensação de liberdade formal que se sugere no facto de não parecer haver aqui nenhuma busca de possíveis “êxitos” mas antes a expressão de um reencontro em que, com as vozes de sempre, se conversa sobre o presente e não de nostalgias. Mais que em qualquer álbum anterior dos Blur, The Magic Whip mostra canções onde as formas fluem sem sede de procura de refrões ou de ganchos (o que não quer dizer que não aflorem aqui e ali). Há antes uma tranquilidade discursiva que, em terreno instrumental e vocal de grande familiaridade, traduz aquele tom de conforto de quem conhece os cantos à casa, mas a encontra diferente, contudo sem a necessidade de a tentar questionar e sem convocar um esforço maior para a compreender.

Graham Coxon chegou já a falar de folk sci-fi… Não creio que sejam precisos nomes e rótulos para descrever com maior precisão o que aqui encontramos. Este é, pelo contrário, um álbum de alma e fronteiras na melhor tradição do que o nome da banda sugere: blurred. The Magic Whip traz um lote de canções cativantes que, em conjunto, traduzem da melhor forma o que pode ser um saudável patamar de reencontro para uma banda veterana. Com o ponto de partida – ao som de She’s So High – a um quarto de século de distância sabem que não devem esperar de si a revolução na esquina seguinte (e Albarn até assinou suficientes desbravamentos de novo territórios nos anos recentes quer nos Gorillaz ou em experiências para o palco de teatro musical). Ao contrário de tantas outras reuniões que tentam mimetizar uma juventude que vai distante (e depois parece aqueles cabelos pintados à força a esconder os brancos) ou ensaiar um ser “moderno” à força (apenas porque sim), os Blur limitaram-se a ser eles mesmos. E na solidez e verdade de um disco onde guitarras, electrónicas, um sentido de cenografia bem talhado (como sempre) e uma voz inconfundível, dão-nos um álbum de maturidade como raramente se escuta numa banda com tantos anos de vida (porque habitualmente esta tranquilidade segura é coisa mais de carreiras a solo). Com um só disco mostram como uma reunião pode funcionar criativamente. Resta saber se é ponto de partida para uma etapa maior ou se apenas um testamento mais unânime e “clássico” que o que antes tinham em Think Thank. Para já o certo é que é bom tê-los de volta. E em grande forma.

Blur
“The Magic Whip”
Parlophone
4 / 5

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