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Uma lufada de ar fresco no cinema português

Texto: ANA CABRAL MARTINS

Apresentado na sessão de abertura do IndieLisboa, o filme “Capitão Falcão”, de João Leitão, está já em exibição nas salas de cinema portuguesas.

Começou por ser uma ideia que João Leitão (Mundo Catita, O Grande Manteleone) teve em 2009. Realizou um episódio, com a sua produtora Individeos, esteve algum tempo a lutar pela possibilidade desse episódio se tornar uma série, exibida num canal português, mas esses planos acabaram por não fruir. Em 2011, esse episódio-piloto foi exibido numa sessão do Motelx, e a ideia já estava formada. A série contaria a história do Capitão Falcão, um super-herói português (Gonçalo Waddington) ao serviço do país nos tempos do Estado Novo. Juntamente com o seu sidekick/ajudante/aprendiz, o Puto Perdiz (David Chan Cordeiro), Falcão combateria todas as ameaças à Nação (cada episódio teria uma ameaça diferente) e responderia apenas ao ficcional António de Oliveira Salazar (um maravilhosamente escolhido José Pinto). Eventualmente, a NOS sugeriu tornar a ideia num filme, João Leitão e Núria Leon Bernardo refazem o argumento do zero e o Capitão Falcão passou de super-herói televisivo a super-herói cinematográfico. A longa-metragem abriu a edição de 2015 do IndieLisboa e a sessão (de abertura) deitou a casa abaixo, com risos incontroláveis e (várias) salvas de palmas durante os momentos mais hilariantes. Num pequeno discurso antes da projeção, João Leitão falou nas várias vezes em que esteve para desistir do Capitão e do encorajamento recebido pelas pessoas envolvidas para que não o fizesse. Só podemos agradecer a João Leitão por não ter desistido.

É necessário entrar no comprimento de onda que o filme sugere. Afinal toca numa série de pontos eventualmente sensíveis no que toca à história portuguesa do século XX, à figura do Salazar e a um tempo de ditadura que pode levar a alguns a pensar que não se devia “brincar com coisas sérias”. Mas o filme é muito bom, especialmente durante o genérico, a deixar transparecer o seu feitio bonacheirão e a balançar os seus elementos de paródia (há uma subversão de vários géneros de filmes e a sua contextualização num Estado Novo ficcionado) e de sátira (dado o tom de exagero utilizado e a exposição das suas personagens ao ridículo). O efeito é francamente catártico, na medida de um Inglourious Basterds (Tarantino, 2009).

Muito mais do que no filme do Tarantino, um filme inevitavelmente divertido mas muito mais sério e ameaçador, Capitão Falcão apoia-se no exagero satírico para fazer sobressair o quanto não está do lado das personagens — o realizador optou por colocar, nos créditos finais, imagens de homenagem ao 25 de Abril, de maneira a deixá-lo bem claro. O Capitão Falcão é assumidamente fascista e fica claro que essa não é uma ideologia em que acredita que faz o filme, mas a utilização do exagero torna tudo irresistivelmente hilariante.

Uma das características mais louváveis deste filme é que torna todos os seus obstáculos, ou dificuldades, em pontos a seu favor. Se a interpretação exagerada de Gonçalo Waddington pode provocar um franzir de olhos a início, o seu rapport com o Puto Perdiz (um David Chan Cordeiro silencioso até quase ao último momento) indica que não seria tão divertido de outra maneira. A repetição de alguns cenários, bem como a coreografia das lutas (a cargo de David Chan Cordeiro), passando pelo green screen dos momentos de mota e pelos adereços, mostram como todo o filme foi pensado para extrair o máximo de comédia possível a partir dos mais pequenos detalhes.

É importante não deixar de parte menções honrosas para Miguel Guilherme, um perfeito (e perfeitamente apelidado) Capitão Gaivota, e Ricardo Carriço, a lembrar-nos o seu fantástico (haverá série menos devidamente apreciada) Major Alvega.

A comédia é um género, em geral, visto com alguma condescendência benevolente — escrevo isto a pensar em como nos Óscares raramente há comédias nomeadas (que não sejam animações) ou nos atores que só pelo “cinema sério e dramático” conseguem nomeações — como se o riso fosse porventura uma coisa fácil dado que é tão orgânica, mas pelo contrário. Há arte na comédia e o que João Leitão conseguiu fazer com este filme foi produzir um bocadinho de magia. Nunca, especialmente em tempo de crise, pensei que retiraria tanto prazer do simples facto de “ser português”.

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