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O álbum perdido de Brian Eno

Texto: NUNO GALOPIM

Retirado do mercado a dias da sua edição pelo próprio músico, o álbum de 1991 “My Squelchy Life” teve finalmente este ano uma edição oficial, por ocasião do Record Store Day.

Aos poucos os discos “perdidos” vão sendo encontrados. Se o Black Album de Prince chegou a ter edição oficial, se parte significativa do alinhamento de Toy, de David Bowie, já conheceu lançamento entre antologias, lados B e temas extra e se até o mítico Smile dos Beach Boys já conheceu nova gravação, embora apenas por Brian Wilson, porque não haveria o desaparecido My Squelchy Life, de Brian Eno, conhecer igual caminho? Assim foi e, depois de incluído como extra numa reedição recente de Nerve Net (o álbum que acabou editado no seu lugar), coube agora à ocasião do assinalar de mais um Record Store Day o dia de edição de uma versão em duplo LP, em vinil, do disco que, assim, entra agora oficialmente na discografia do músico.

Mas recuemos para já no tempo. Brian Eno, após a sua saída dos Roxy Music, começou por gravar uma série de álbuns vocais, nos quais desenvolveu estratégias de composição e definiu um importante ciclo na sua obra. A descoberta de novos caminhos feita em Discreet Music e a série de títulos “ambientais” que desenvolveu a partir de Music For Airports, de 1984 representaram, juntamente com trabalhos de produção (com os Talking Heads ou U2), o foco central do seu trabalho daí em diante e ao longo dos oitentas. Em 1990, ao lado de John Cale – com quem gravaria mais tarde um outro álbum – apresentou em Wrong Way Up um quinto álbum vocal, revelando o disco uma das mais saborosas e bem talhadas coleções de canções pop do seu tempo. Na hora de pensar um passo seguinte avançou rumo a novo disco vocal. Gravou-o, juntando canções e momentos instrumentais com vozes manipuladas (colhendo heranças de My Life In The Bush of Ghosts) e, dando-lhe por título My Squelchy Life, o disco conheceu agenda de lançamento apontada a 1991, chegando mesmo algumas cópias de avanço a ser distribuídas entre a crítica, tendo alguns textos sido então publicados. Mas então, e contam-se várias versões das razões que explicam o que sucedeu, anunciou o cancelamento do lançamento. E, gravado e misturado e pronto, My Squelchy Life ficou na gaveta. Em seu lugar, e depois de algumas sessões adicionais de trabalho, apresentou o mais elaborado e esteticamente mais contemporâneo Nerve Net, no qual explorava novas linguagens eletrónicas e até mesmo abria portas a ténues flirts com o jazz.

Na verdade My Squelchy Life não ficou em silêncio e desde cedo surgiram bootlegs revelando como era afinal o disco que havia ficado na gaveta. A caixa vocal da série Eno Box, o próprio alinhamento de Nerve Net e os lados B de Ali Click acolheram algumas destas faixas em lançamentos oficiais. Mas agora o tabu acabou. E o disco, mais que nos extras de uma redição, existe mesmo. Com capa impressa. Como se afinal, na história da sua existência, o tempo tivesse entrado em modo de pausa em 1991 e agora retomado.

My Squelchy Life não é um álbum do calibre de um Another Green World, um Before and After Science, ou até mesmo um Another Day on Earth, disco integralmente vocal (coisa que Nerve Net o não era) que Eno lançaria mais tarde, em 2005. Face à mais evidente afinação de rumos e ideias que Nerve Net mostraria em 1993, My Squelchy Life é um disco de caminhos mais dispersos, mais de buscas que de respostas, tanto experimentando uma abordagem (irrepreensível) à canção pop no brilhante The Harness como uma mais evidente busca de noções de paisagismo e cenografia em Juju Space Jam ou no próprio tema-título, um brilhante exercício de arquitetura rítmica suportado pelo baixo. Pelo meio há um belíssimo episódio pop orquestral em Some Words, assim como uma exposição do diálogo possível entre as colheitas ambientais e texturais dos oitentas e o modelo da canção na discreta Over e outros instantes onde fica claro o mundo de interesses que o reencontro do trabalho vocal feito um ano antes ao lado de John Cale o estava a levar.

Quase um quarto século depois da decisão que obrigou o disco a ficar fechado numa gaveta, My Squelchy Life deixa de ser um segredo bem guardado e tem agora uma merecida (e condigna) vida pública. Que sirva de exemplo para tantos outros discos perdidos que por aí andam.

O álbum “My Squelchy Life” existe enquanto extra de uma reedição de “Nerve Net” e agora também num álbum duplo em vinil, com código para acesso a versão digital, em lançamento da Opal.

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