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Pop dell’Arte: “Temos realmente a ver com liberdade”

Texto: ANDRÉ LOPES

Antecipando o concerto no Sabotage Club em Lisboa, falámos com o mentor dos Pop dell’Arte sobre a ideia que conduz a carreira artística da banda e aquilo que se segue no já longo percurso do projecto lisboeta.

Passados cinco anos desde o último registo de estúdio, os Pop dell’Arte mantém-se em atividade com concertos esporádicos nas principais cidades do país. O culto que firmaram há muito junto do público tem sido suficiente para encher as salas com admiradores que anseiam por nova música. Antecipando a actuação de quinta-feira, dia 30 de abril, integrada no programa de celebração do segundo aniversário do Sabotage Club (em Lisboa), João Peste revelou algumas das carecterísticas que fazem dos Pop dell’Arte um caso ímpar na música popular portuguesa.

Em 1985, os Pop dell’Arte ganharam o prémio de originalidade no 2º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous. Trinta anos depois a banda continua no ativo, com concertos onde têm sido estreados alguns temas novos. Existem planos para a edição de um próximo disco em breve?
Existem, sim. São 30 anos que passaram não só desde o concurso do Rendez-Vouz, como desde a fundação da própria banda: nós tínhamos começado há pouco tempo e concorremos ao concurso. Fomos apurados e isso foi o início de tudo. São mesmo 30 anos de carreira. Quanto ao disco, temos material novo – algum dele já tocado ao vivo, mas não todo – e estamos ainda a criar temas. De qualquer forma, sim, temos planos para gravar um álbum este ano, ainda que não tenhamos a certeza de como será a edição, se digital ou em CD. Isso ainda não sabemos dizer. De qualquer maneira haverá disco antes do fim do ano, sim.

Que relação é mantém hoje em dia com o estúdio?A sua utilização mantém-se numa lógica de instrumento – como aconteceu em Ready-Made (1993) com o processo de colagens e samples – ou agora consideram-no antes como um veículo e espaço de trabalho?
Por muito que quiséssemos, os Pop dell’Arte não são uma banda de estúdio no sentido mais técnico do termo. Não somos de todo uma banda que se encontra em estúdio e faz as coisas de uma forma muito racional, técnica e com gravações consecutivas; não. É uma banda de pessoas que habitualmente se encontram numa sala de ensaios e que toca. É assim que vamos fazendo os temas. Às vezes um ou outro traz sugestões concretas, mas muitas das ideias surgem coletivamente, e é nos ensaios que são desenvolvidas. O Ready-Made, pelo próprio conceito do disco, teve um trabalho de preparação em estúdio mas mesmo assim nasceu ao vivo, com samples ou tendo como base outras gravações, usávamos faixas do Digital Boy com a banda a tocar por cima e comigo a cantar. Somos uma banda que vai para estúdio só quando necessita de gravar. Para nós, o estúdio não é um fim, é um meio. Há projetos que realmente vivem do estúdio, Frankies Goes to Hollywood dos anos 80, por exemplo. Realmente eram um projeto de estúdio e ao vivo não eram a mesma coisa (risos). Eram fabricados em estúdio. Os Pop dell’Arte não. Ainda que nos dias de hoje, quando se ensaia em casa, a tecnologia já permite ter um pequeno estúdio e isso interfere no método de trabalho. Mesmo nos ensaios, recorremos à tecnologia para fazer determinadas coisas. Mas sem dúvida que tentamos manter o espírito live. Já no estúdio, há que adaptar os temas a esse novo contexto e a essa realidade, que apesar de tudo tem uma logica diferente. Muitas vezes tentamos gravar os temas como se fossem ao vivo. Só que as coisas não funcionam da mesma maneira nesses dois contextos e por vezes é problemático, uma vez que essa “conversão” não é óbvia. Tocar no estúdio como se fosse num concerto não é assim tão fácil. A gravação da Esborre [lado B do single Sonhos Pop, editado em 1987] é um caso desses. A canção tem uma força enorme ao vivo e era sempre requisitada pelo publico. Foi difícil em estúdio fazê-la soar como soava ao vivo. É uma tarefa trabalhosa. Fazer com que soe ao vivo dá mais trabalho do que fazer soar a técnico ou a artificial. E nós não somos pré-fabricados.

Que retrato faz atualmente da indústria discográfica em Portugal?
Pessoalmente vejo pouco porque há pouco. Não podia ver muita coisa (risos). Creio que vão surgindo algumas coisas, muitas delas por mão de autores e bandas que vão fazendo edições independentes. Mas quanto ao panorama geral, não sei. Não gosto muito de falar sobre o mercado português porque não conheço tudo. Mas, que eu saiba, não têm havido grandes surpresas. Isto claro está, comparando por exemplo com o panorama do final dos anos 80 e início dos 90, onde havia uma grande diversidade de projetos e agora… Sinceramente é possível que eu não esteja dentro do assunto. Mas a verdade é que não conheço coisas que rasguem com o marasmo. É possível que existam mas eu posso não conhecer, especialmente coisas que estejam a acontecer em níveis mais underground. Mas no plano mainstream é tudo muito déjà vu, ou melhor, déjà ecouté.

Deseja que a banda se mantenha num percurso discográfico, ou é nas atuações em palco que encontrou a modalidade na qual a banda vai continuar?
A banda gostava mas o país é pequeno e mesmo havendo algumas propostas para Lisboa, a verdade é que fora da cidade têm escasseado. Quando o último disco saiu houve uma série de propostas e tocamos numa série de sítios. Depois o disco foi arrefecendo e conforme o impacto desvaneceu, as propostas foram pelo mesmo caminho. E a isso junta-se a as condições de empobrecimento do país nestes últimos anos, que evidentemente provocou um decréscimo no número de concertos. Por vezes surgem propostas que oferecerem pouco dinheiro, mas não é possível dar uma resposta positiva a todas elas porque uma deslocação implica custos. Nem é má vontade, por vezes não é mesmo possível. As condições pioraram muito. Se o pais mudar nos próximos tempos, aí então poderão haver mais concertos – e nós estamos prontos para tocar todas as semanas se for preciso, desde que haja dinâmicas e propostas que possibilitem isso. Quando saiu o Contra Mundum (2010) houve logo essa grande procura. Depois, conforme o disco deixa de ser novidade, os concertos começam a rarear, ainda por cima com as condições adversas da sociedade portuguesa, é evidente que a cultura fica para segundo plano.

A estética queer sempre foi bastante explorada na obra da banda, desde Querelle (com Fassbinder), passando pelos vídeos e artwork criados pelo Joaquim Pinto e pelo Nuno Leonel, ou a Slave for Sale do último disco, que referencia Scott O’Hara. De que maneira é que estas temáticas permanecem como elementos de inspiração enquanto artista?
Não iria muito por aí… Não sei ao certo o que é uma estética queer. As estéticas podem ser variadas mas não têm propriamente orientação sexual, não há estéticas queer ou hétero. A temática é que pode ser essa. Eu preferiria dizer que os Pop dell’Arte têm uma temática principal que é a liberdade. É isso que atravessa as várias canções e os vários discos da banda. Temos realmente a ver com liberdade e com as várias formas de expressar a liberdade. E a liberdade dos Pop dell’Arte seria uma conceção de liberdade sem limite em termos estéticos – o não haver regras para criar, não haver uma estrutura fixa, não haver princípio, meio nem fim; a uma forma de ser completamente livre inclusive na forma de tocar aquelas ideias, aqueles acordes, aquelas palavras, aquele ritmo. Mas também livre na que toca às temáticas mais de índole política, sexual, com referências ao imaginário dos heróis que de certa forma também tem a ver com a liberdade: Janis Joplin, Jean Genet… A liberdade é o ponto de partida e o ponto de chaga. Ou pelo menos essa procura, porque nao é possível haver liberdade absoluta, já que há sempre constrangimentos. Prefiro pensar que há uma estética livre que explica a diversidade musical dos Pop dell’Arte, do que dizer que é uma estética concreta… há temas de estética punk, outros futuristas, dada, não lhe chamaria estética assim ou assado. Há uma premissa de liberdade em tudo.

Referiu outrora que os Pop dell’Arte, bem como outras bandas da Ama Romanta, eram transgressoras naquilo que faziam e na forma como criavam. Nos dais de hoje os Pop Dell’Arte ainda transgridem?
Não me cabe a mim dizer isso… Entendo a transgressão como o ultrapassar dos limites vigentes que nos são impostos. De certa forma tentamos, devido a essa inspiração e a esse espirito libertário do não ter regras – a atitude é já transgressiva. Ao fim de 30 anos não me cabe a mim dizer se continuamos a conseguir ou não. Mas obviamente que a primeira vez que se ouve Pop dell’Arte, a transgressão é maior. Depois torna-se difícil algo conseguir transgredir-se a si mesmo. Sendo a transgressão a ultrapassagem dos limites e dos constrangimentos, se nós os ultrapassámos quando superámos um dado limite, criamos outro limite. Não sou eu que o digo, é Foucault, que de resto o diz por palavras mais interessantes que as minhas. Cria-se outro limite ad infinitum. Acabámos com os nossos limites no Free Pop (1987) e criámos outros. Não sei se é possível o projeto estar sempre a quebrar limites e por isso sei responder a essa pergunta. Possivelmente somos transgressivos, porque passamos os limites com que nos deparámos no início da carreira. Se continuamos a transgredir? Creio que neste momento não transgredimos o que já transgredimos antes. Já não consigo dizer… Sem o disco estar pronto, não me cabe a mim dizer isso. Acho que é difícil para um projeto transgressivo, manter-se sempre transgressivo. É utópico e idealista estar sempre a passar os novos limites. Poderá haver casos em que aconteceu, não só na área do pop-rock em geral… No cinema com o Fellini, o Stockhausen na música… Mas não estou seguro disso, são só hipóteses.

Os Pop Dell’Arte atuam dia 30 no Sabotage Club, em Lisboa. A série de concertos e DJ set deste dia de festa começa às 22.00.

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