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Estar de olho no sistema. Isso e escrever bem, muito bem.

Texto: HELENA BENTO

Recorrendo a material de arquivo e a entrevistas que fez a colaboradores, Martin Scorsese dá-nos a conhecer os bastidores de uma das mais prestigiadas revistas americanas, a “New York Review of Books”. Nela escreveram, entre outros, Saul Bellow, Norman Mailer, Vladimir Nabokov, Noam Chomsky, Hannah Arendt e Susan Sontag.

Em 1962, assistiu-se a uma das mais dramáticas greves da história da imprensa nova-iorquina. Na manhã do dia 8 de dezembro de 1962, assim como nos 114 dias seguintes, os principais jornais não saíram para a rua. Os funcionários das tipografias recusaram-se a trabalhar e saíram em protesto. Exigiam melhores salários e melhores condições de trabalho. Dos sete jornais – e o New York Times era um deles – quatro fecharam depois da greve.

Na mesma altura, Elizabeth Hardwick, casada com o poeta Robert Lowell, publicou um artigo na revista Harper’s (cujo editor era Robert Silvers) sobre o estado da crítica de livros, que considerava em “declínio” devido à “ausência de envolvimento, paixão, carácter e excentricidade” e à prevalência de um “elogio monótono” que minava, entre outras, as páginas do suplemento do New York Times dedicado aos livros.

Jason Epstein, na altura diretor editorial da Random House, leu esse artigo (ele e a sua mulher, Barbara Epstein, vivam paredes-meias com Hardwick e Lowell) e percebeu que era preciso fazer alguma coisa. E entendeu que aquele era o momento ideal para agir. “Esta é a única altura em que seremos capazes de começar uma nova revista de crítica de livros sem dinheiro”.

Apesar disso, a iniciativa de fundar, em 1963, uma nova revista acabaria por vir da sua mulher e de Robert Silvers (que abdicava assim do seu cargo de editor na Harper’s). Refira-se, no entanto, que Barbara Epstein e Silvers não foram os únicos a beneficiar da greve dos trabalhadores das tipografias. Várias estações de televisão locais cresceram em tamanho e sofisticação e surgiram outras publicações, entre jornais e revistas, mas não é disso que nos vamos ocupar aqui.

Apesar ter começado por ser um projeto direcionado para a crítica de livros, dirigido por pessoas com um background literário relevante, a “Review”, como era e é conhecida, não se dedica apenas à crítica de livros. É aliás de notar que, na capa, a palavra “books” surge num corpo de letra de tamanho inferior ao das outras palavras, o que diz muito da sua linha editorial. Política, economia, história, cultura, direitos humanos, ciência, ambiente são exemplos de áreas de que a revista se ocupou desde o início. A sua reputação em muito se deve à publicação de ensaios considerados influentes e controversos sobre temas como a guerra no Vietname, Egito e, mais recentemente, a crise económica, as guerras no Iraque e na Síria, o conflito na Ucrânia e o ataque à redação do semanário satírico Charlie Hebdo.

Cinquenta anos depois de ter saído o primeiro número da revista, Martin Scorsese presta-lhe homenagem no documentário, The 50 Year Argument. Realizado com David Tedechi, estreou no final de 2014 no canal HBO, depois de ter sido exibido em vários festivais internacionais de cinema, entre eles a Berlinale.

A escolha de Martin Scorsese para realizar o documentário não foi imediata. O próprio Robert Silvers tinha algumas dúvidas quanto a viabilidade do projeto. “Parecia-me pouco provável que uma publicação com 15.000 artigos publicados ao longo de 50 anos em suporte de papel, com o contributo de milhares de escritores, pudesse de alguma forma ser transformada em registo visual”, disse o editor ao The Wall Street Journal. Na altura, falou com vários realizadores, mas pareceu-lhe que nenhum estava à altura ou se adequava àquilo que ele pretendia. Depois, houve alguém que lhe disse: “Porque é que não tentas o Martin Scorsese? Ele conhece a revista”. Robert Silvers escreveu-lhe então uma carta e o realizador norte-americano aceitou.

Recorrendo a material de arquivo (fotografias, vídeos e entrevistas de críticos e colunistas que fizeram da revista ponto de encontro, e às vezes de desencontro, da cultura literária nova-iorquina, como Susan Sontag, Noam Chomsky, Norman Mailer ou Goral Vidal) e a entrevistas feitas a colaboradores (Keith Thomas, Daniel Mendelsohn, Joan Didion, Yasmine El Rashidi, Isaiah Berlin ou Timothy Garton Ash), Martin Scorsese dá-nos a conhecer os bastidores de uma das mais prestigiadas revistas americanas. O realizador recorreu ainda a imagens captadas na festa de celebração do cinquentenário e nos escritórios da revista, onde vemos Robert Silvers empenhado na conceção e preparação cuidadosa de cada número, já sem Barbara Epstein, que morreu em 2006 vítima de cancro.

Robert Silvers acaba por ser a figura central do documentário. É ele que, entrevistado por Scorsese, explica que quando fundou a revista não tencionava “fazer parte do sistema – mas sim o oposto”, isto é, “examinar os mecanismos e a autenticidade dos sistemas, tanto políticos como culturais” e que a Review se “baseava na ideia de que pessoas inteligentes e altamente qualificadas podiam escrever sobre qualquer assunto”. Terá sido por isso que pediu a Joan Didion para escrever sobre uma mulher que no início dos anos 90 foi violada no Central Park, em Nova Iorque, assunto que se tornara incrivelmente polémico, e que a escritora americana não só não dominava, como não tinha interesse em dominar, e terá sido também por isso que terá confiado a Yasmine El Rashidi a tarefa de cobrir um conflito no Egito em 2013, e de aceitar a sua versão dos factos, altamente controversa, que ia contra tudo aquilo que estava a ser escrito nos outros jornais e revistas.

A Review pode, como alguém escrevia numa revista online, estar ultrapassada, arrumada, acabada. O tipo de escrita e a abordagem aos temas contra os quais reagia podem já não dominar a cena literária atual. A Review pode já não ser considerada inovadora (ou, sei lá, nunca o ter sido de facto) e Martin Scorsese pode tê-lo sido ainda menos. A Review pode até ter caído no esquecimento (o que evidentemente não aconteceu) e Martin Scorsese pode ter contribuído para a afundar ainda mais (o que duvido que tenha acontecido). Mas ver alguém como Robert Silvers, que tem 86 anos, sentado à secretária, rodeado de jornais e livros e de meia dúzia de jovens (que trabalham com ele), ainda empenhado, ao fim de 50 anos, na preparação de cada número da revista, é bem mais interessante, e relevante, do que qualquer avaliação com base em critérios de inovação.

2 Comments on Estar de olho no sistema. Isso e escrever bem, muito bem.

  1. Olá;
    Excelente artigo. Mas depois de aguçar tanto o apetite, falta o pormenor final: onde e quando estreia?
    Bom trabalho, continuem. obrigado.

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